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Vivendo e desaprendendo

Aprendi a colocar os ovos na gaveta própria para isso na porta da geladeira… Desaprendi… Agora divulga-se a ideia de que não é o ideal, pois com o abre-e-fecha, os ovos estão expostos a mudanças bruscas de temperatura, prejudicando sua qualidade… Aprendi também, em nome da preservação dos recursos naturais, a economizar água nas tarefas domésticas como lavar louça, tomar banho e lavar as mãos… Desaprendi… Agora surge um tal “H1N1” que nos obriga a lavar as mãos com água corrente e sabão em abundância, sem falar no álcool em gel que nunca foi tão consumido…

Na minha infância, mais precisamente quando iniciava a vida escolar para nunca mais parar, ouvi de minha mãe que eu deveria respeitar os professores como seres humanos e como profissionais do conhecimento, com o passar do tempo desaprendi… Aprendi que o professor, agora sou eu e que existem muitos e muitos alunos com os quais convivo diuturnamente que, nem sempre ouvem os mesmos conselhos de seus pais… Aprendi que eu devo ser o primeiro a me respeitar e respeitar meus jovens estudantes… Que apesar de tanta decadência na educação, ainda é muito importante para a vida destes jovens, tudo aquilo que seu mestre faz, pensa, ou fala…

Aliás, aprendi, sem nenhuma falsa soberba a ouvi-los me chamando de “mestre” mesmo sem ter cursado um mestrado (ainda) e penso que todo professor deveria fazer o mesmo, afinal, qualquer médico recém-formado emplaca seu consultório com o título de “doutor”, mesmo sem ter cursado um doutorado… Nada contra, penso que seja até merecido, portanto os professores podem e devem ser chamados de “mestres”, precisamos popularizar esta palavra em relação aos educadores da mesma forma que a palavra “doutor” foi popularizada para médicos, dentistas e advogados…

Aprendi que a gramática era importante, que era fundamental reconhecer o sujeito e o predicado da frase, que quem não sabia análise sintática não aprendia Português, que era necessário a decoreba para preencher os vazios das provas ameaçadoras, organizadas com os alunos cheirando um a nuca do outro… Aprendi um monte de regrinhas de acentuação e tenho até hoje minha tabelinha com estas regras, feita em cartolina na quinta série… Desaprendi (Graças a Deus!), primeiro porque as regras mudaram em nome de uma unificação que nunca deixará de ser inviável. Além do mais, quanto mais estudo, mais vejo que elas não são, nunca serão fundamentais… Conheço alunos ótimos nas decorebas de gramáticas que são incapazes de expressar suas ideias num texto de forma coesa e coerente… Quem tem que saber as regras é o juiz, os jogadores devem jogar… Nossos alunos são os jogadores, portanto devem fazer uso da comunicação escrita de forma prática. Ler, analisar e produzir textos: isso realmente será importante para a vida e o crescimento pessoal dos estudantes e dos professores…

Aprendi que deveria obedecer, cegamente, tudo o que o professor mandasse, sem pestanejar, reclamar, discutir, ou analisar… Desaprendi (Mais uma vez, graças a Deus)… Pois sei que não posso exigir que meu aluno escreva textos maravilhosos se ficar batendo na tecla da gramática pura, elitista e desumana, insistindo naquela visão falsificada de que, quem fala a linguagem culta é melhor do que aquele que faz uso da forma coloquial… Aliás, quem foi que definiu o que é culto e o que é coloquial?… Quem será que se achou no direito de dividir os seres humanos pelas variações linguísticas que só enriquecem nosso idioma?…

Por fim, aprendi e não desaprendi, que não posso exigir que meu aluno produza bons textos se ele não tiver a oportunidade de ler este e outros textos produzidos por mim…

Vivendo e desaprendendo…

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

www.portalcacador.com.br

Jornal Informe – O diário Regional

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