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Vadios

Durante nossa greve, semana passada estivemos mobilizados no início de uma certa noite, no semáforo da parte baixa da Avenida Barão do Rio Branco… Acompanhavam-nos faixas e cartazes expondo nossa indignação frente às atitudes de um governo estadual que não quer cumprir uma lei federal, fato que já constitui uma ilegalidade daqueles que deveriam lutar pelo cumprimento da lei, afinal foram eleitos pelo povo para representá-lo e defender seus princípios… Porém, existem outros interesses que precisam ser atendidos primeiro, principalmente daqueles que injetaram dinheiro, na maioria das vezes de procedência duvidosa, na campanha daquele que já foi eleito “colombo” quente e obediente aos princípios do capitalismo que financiou seu pleito…

Lá estávamos nós, fazendo nossa parte, “botando a cara na rua”,pedindo que se cumprisse a lei… Muitos populares se aproximavam,alguns solidários à luta, outros de cara feia, afinal interrompíamos o caminho dos conformados… Virei-me, por um momento para trás e, por entre a vitrina de uma loja infantil que tem nome de bruxa, entre os manequins e mostruários, vi uma moça bonita, certamente vendedora, balbuciava algo de forma a deixar dúvidas sobre o fato de querer ser ouvida… Mas pude ler claramente em seus lábios: V a d i o s…

Pois bem, sou um vadio que passou a infância e adolescência numa família que precisava lutar diuturnamente pela sobrevivência até que um de seus filhos, após ser explorado num chão de fábrica, resolve abraçar a profissão que julgava a mais importante e digna de todas: Professor…

Sou um vadio que estudou todo o ensino fundamental em escola pública, tendo que juntar as moedinhas para comprar os materiais e livros didáticos que, na época, não eram fornecidos pelo governo… Alfabetizado pela própria mãe e complementado pelas cartilhas: Barquinho Amarelo, O menino azul e o livro: Português Dinâmico de quinta a oitava séries…

Sou um honorável vadio que cursou, com a mesma dificuldade, o magistério: quatro anos e meio de ensino médio me preparando para ser professor das séries iniciais… Aprendi lá, muita coisa que nem mesmo a faculdade me ensinou…

Este que vos escreve, é um digníssimo vadio, beneficiário do artigo 170, única opção para os menos abastados cursarem uma graduação no início dos anos 2000, ainda assim, com direito a apenas trinta por cento de desconto no valor das mensalidades…

Mas, a partir da primeira fase do curso de letras, sou um vadio, orgulhosamente atuante em sala de aula, com um infeliz intervalo de dois anos num cargo de confiança, que só me despertou desconfiança perante a politicagem que ainda impera nos bastidores desta política que só dá poder a quem já é poderoso e empobrece quem já é pobre…

Desde que me tornei educador, sou um vadio que trabalha quarenta horas semanais para garantir uma remuneração que não representa nem a metade daquilo que outros profissionais com o mesmo nível de graduação contemplam em seus contracheques…

Sou um magnífico vadio que investiu numa pós-graduação que me deu o título de especialista em análise e produção de texto, a fim de ajudar meus amados alunos a descobrirem o escritor em potencial que existe em cada um deles… Sou vadio do tipo que mostra a cara na rua e na capa do jornal com um único propósito: Dar uma aula de cidadania, com a ajuda de muitos companheiros que ainda alimentam o sonho de uma escola pública de qualidade…

Este magnífico escritor meia-boca encerra com um recado para esta querida vendedora, extensivo a todos que ainda nos incluem o adjetivo “vadio”: Se você tem um emprego digno hoje, se sabe se expressar a ponto de ser vendedora e ter vocabulário suficiente para convencer o cliente da qualidade daquilo se propõe a vender… Enfim, se você é uma cidadã de bem, entre outros, é graças aos vadios como eu que passaram pela sua vida quando esteve em sala de aula…

Márcio Roberto Goes

6 Comments

  1. Pâmela koguuta
    Pâmela koguuta 29 de julho de 2011

    Uma pessoa maravilhosa que conheci este ano mas, que ja estou apaixonada com seu jeito de viver a vida e de ser.
    Marcio adorei te conhecer, beijos de sua aluna que te ama hoje e sempre.
    Beijos e abraços!!!!!!!!!!!!

  2. mari
    mari 3 de junho de 2011

    Parabéns Márcio!
    Seu texto é ótimo!
    Eu gostaria de enviá-lo para as pessoas que não trabalham na educação. Se você autorizar, envie-me por e-mail e eu repassarei.

  3. Professora Goreti
    Professora Goreti 3 de junho de 2011

    Felicitações, Prof. Mário
    Também tive uma trajetória de vida parecida, e sabemos que a classe menos favorecida da população é que se torna educador, pois os “burgueses” fazem outros cursos, porque certamente teriam vergonha de se dizerem professores, já que para eles o que importa é ter um lugar de destaque na sociedade e para isso tem que ganhar muito dinheiro, fato que não acontece com a nossa categoria. Mas esquecem eles que nós, EDUCADORES, é que estamos lá no início de suas vidas escolares ensinando o que é ser cidadão, ter honestidade, e isso parece que a maioria dos políticos esquece (aqueles que colocaram o pé na escola). Quanto a esta moça bonita que balbuciou a palavra “vadios”, deve ter feito isso, porque a greve significa não ter onde deixar os filhos… Certamente ela não está preocupada com qualidade na educação, nem com formação de professor, se este é ou não graduado, para ela tanto faz…
    Professora Goreti

  4. mirian
    mirian 3 de junho de 2011

    Querido companheiro de causas

    Colocaste muito bem sobre a palavra”vadio”
    Mas ainda existe muitas pessoas com o “cisco” nos olhos.
    Que pena!
    Esta funcionária passou pela escola e não aprendeu que todos tem direito de se expressar.
    Gostaria de vê-la em uma sala de aula com 26 alunos de 1 a. série, a maoiria sem nunca te r pego em um lápis, sem conseguir muitas vezes de se localizar num caderno cheios de linhas e margens, com crianças hiperativas, trantornos emocionais, especiais entre outros.
    Espero que nesta vida ela pense melhor antes de falar sem ter a experiência do assunto.
    Quem sabe em outra encarnação “talvez” ela seja uma de nós…
    Um grande abraço e felicidades,
    mirian

  5. cleri
    cleri 2 de junho de 2011

    PARABÉNS!!!!!!!!!!!!

    Revivi em tuas palavras também minha trajetoria de vida,
    creio q não é diferente de muitos dos nossos colegas “vadios”.
    Esses “seres” pobres de espirito vivem na penunbra cinzenta da vida e não conhecem vitoria e nem derrota.
    Professora cleri

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