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Uma tarde no Martello

 

“Vitor!… Vitor!”… Uma voz insistente de criança interrompe meu sagrado soninho da tarde… “Vitor!… Vitor!”… Quem é Vitor?… Esse cara é surdo, ou não conhece o próprio nome? Onde anda essa criatura que uma pobre criança precisa estar clamando por seu nome no meio da rua?… Não sei o que me incomoda mais nesse momento, a interrupção da soneca ou a curiosidade. Olho para a rua, não vejo nada nem ninguém. Volto a deitar meu pobre corpo seco sem futuro na minha confortável cama box ao lado da mulher que me ama e não parece nem um pouco preocupada com o desaparecimento do Vitor…

Mais que depressa, minha tentativa de recuperar a soneca perdida é interrompida por um estrondo longo e retumbante vindo da rua de cima, uma das poucas pavimentadas não só no mapa… Foi uma carreta cujo motorista esqueceu-se da lombada e a frenagem não foi suficiente agitando todo o veículo, a rua e as casas ao redor… Na janela, só eu, minha linda acorda repentinamente, mas volta a dormir resmungando alguma coisa, nenhum outro habitante daquelas redondezas parece se importar com o sucedido, o que me leva a crer que estão todos acostumados com esse tipo de evento…

Já sem sono, deito só para cumprir tabela… Aproxima-se o rap do pica-pau, num carro de som… a música é interrompida por uma voz feminina: “Alô criançada! O carro do picolé está passando na sua rua… São cinco picolés por um real…” Poxa vida! O mundo oferecendo picolés baratinhos e eu aqui torrando no quarto tentando perder tempo numa soneca vespertina… Neste momento descubro que sou um legítimo bocó… Assumo minha bocozice e continuo deitado de olhos fechados… E o Vitor, pelo visto, continua sumido…

“Alô, alô freguesia!… É o caminhão do alemão que tá passando na sua rua…” Meu Deus! Pelo visto, vim morar na rua mais importante do bairro Martello, tudo passa por ela, é uma verdadeira feira livre sobre rodas. E o alemão prossegue sua propaganda… “É só o freguês dar um sinalzinho que o caminhão já vai parando, parando e vendendo barato, vendendo barato para vender bastante… Hoje tem a promoção da banana, cinco quilos de banana por três reais… Aproveita freguesia!”… Não acredito! Banana baratinha no caminhão do alemão e eu aqui, curtindo o ócio improdutivo. Mas antes que eu pudesse tirar a ramela do zóio, o alemão sumiu… Deve ter ido se encontrar com o Vitor, pois até então não conseguira identificar o semblante de ambos…

E a tarde prossegue nesta sequência:É o carro do picolé!… É o caminhão do alemão!… Banda Dejavu prá cá, Pan pan americano prá lá, no som de veículos cujos donos são muito generosos, pois compartilham com todo o bairro as canções que ouvem… Canções?… Nada, só consigo identificar a batida dos graves, de vez em quando identifico alguma coisa da letra… Vitor!… Vitor!… Ué! O Vitor continua sumido?… Quando abro a porta para sugerir que o pobre menino procure ajuda, sei lá, ligar para a polícia registrando o desaparecimento… eis que o Vitor aparece!… Lá vem ele abanando o rabinho, com as orelhas baixas pedindo um pouco de carinho… Quem seria capaz de dar nome de gente para um cachorro?… Certamente alguém que quis homenagear uma pessoa muito querida, pois sendo o cão um animal fiel, que ama incondicionalmente, merece receber o mesmo nome de pessoas que tenham estas características… E o meu cãozinho que se chama Gerúndio?… será que desperdicei uma oportunidade de homenagear alguém merecedor? Não sei! Só sei que terminei minha tarde ao computador registrando de forma crônica os acontecimentos.

Penso que substituir a soneca pela escrita tenha sido uma boa troca, enquanto isso, a vida continua no Martellão, com o Vitor, o carro do picolé, o alemão, a música generosa e gratuita e um bocó que registra tudo com o seu ponto de vista e ousa chamar de crônica…

 

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

www.portalcacador.com.br

Um Comentário

  1. suelen alves
    suelen alves 25 de janeiro de 2011

    Vitor!!! ô Vitor!!!!

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