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Uma criança na lotação

Ônibus é um dos melhores lugares para um cronista. Lá acontece de tudo… Briga de casais, discreta, é claro, o grosso da coisa termina em casa… Pessoas carregando compras de todo tipo que vão desde aparelho de som até acolchoados, ou plantas… No ônibus coletivo tem lugar para todos, como o próprio nome latino sugere: “oni” significa tudo ou todos, e “bus” significa para, ou seja, o ônibus é, pelo menos morfologicamente para todos, e um veículo coletivo que circula em toda a cidade leva consigo as alegrias, tristezas, indignações e todo tipo de características de um povo que dele usufrui…

Na lotação, que é como se chama este veículo em Caçador, tem lugar para pessoas de todas as raças, credos, cores, classes sociais, idades… Já escrevi sobre o motorista que parou o carro para ajudar uma senhora a subir… Pois bem, desta vez, me chamou a atenção uma pessoa jovem, aliás, muito jovem, aparentava seus cinco anos… Um menino, bem a vontade, segurando no apoio do banco da frente, parecia estar acostumado a este tipo de transporte, tudo era familiar. Ele sorria para todas as pessoas, trajava uma jaqueta marrom-clara com uma listra vermelha em cada manga, calça jeans e um par de tênis cinza… Brincava de motorista, repetia os gestos do condutor do veículo. Não pude perceber quem eram seus pais, só sei que ele parecia muito a vontade sozinho, sentia-se seguro, estava em casa, mantinha a privacidade, mesmo com o ônibus lotado…

Não creio que estivesse só, pois passava das seis da tarde e já era escuro, ninguém deixaria seu rebento a essas horas sozinho dentro de uma lotação… Este menino estava tranquilo porque não fora ainda contaminado pelas precauções da vida na cidade, talvez por não se tratar de uma metrópole e a violência urbana ainda ser algo raro por aqui…

Chegamos ao bairro Martello, na esquina da escola Wanda Krieger Gomes, meu ponto de desembarque, mas aquele garoto me deixou como a maioria das pessoas desconhecidas me deixam quando chamam a minha atenção: pensando, confabulando, analisando, raciocinando, contabilizando… e tantos outros gerúndios que só servem para prolongar a ação do verbo…

Até quando veremos esta calmaria suficiente para uma criança se sentir a vontade, sozinha num banco de ônibus ou fora dele?… Se depender de muitas pessoas que ainda acreditam nas pequenas coisas da vida, vai durar eternamente, mas existe muito egoísmo entre os seres humanos que se acham uns melhores que os outros, o que resulta sempre em violência física, moral, ou psicológica… Alguém sempre se acha no direito de fazer outra pessoa de refém moral, por outro lado, muitos se deixam dominar por palavras e atitudes ameaçadoras…

Tudo seria diferente se fôssemos como aquele menino, despreocupados, confiantes, tranquilos, querendo viver para realizar nossos sonhos e tentando seguir os bons condutores, imitando suas qualidades e avaliando seus defeitos… Tudo melhoraria se nos despíssemos do orgulho e do preconceito que insiste em fazer morada no coração humano, tendo como consequência todos os males da intransigência e da tirania, que originam todos os tipos conhecidos e desconhecidos de violência…

Enfim, seríamos mais felizes e faríamos as pessoas ao nosso redor também felizes se fôssemos simples e verdadeiros como aquela criança num banco de ônibus, distribuindo sorrisos despretensiosos e sinceros, sem medo e sem vergonha de ser feliz…

 

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Jornal Informe – O diário Regional

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