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Um domingo afro

Um domingo afro
Fonte: www.imagensporfavor.com/buscar/9/Brasil.htm

 

 

Num destes dias normais na vida de um professor de escola pública, descia eu as escadas do Wandão com minha pasta preta até a sala dos professores para curtir mais um recreio recheado de cafezinho e bolachinha pedagógica de água e sal, quando sou abordado por um aluno de primeiro ano de ensino médio que me oferece um ingresso para uma amostra de dança e arte afro-brasileira. Depois de pensar por alguns segundos, decidi-me positivamente, pois me agrada tudo o que se relaciona com a cultura popular, comunicação e expressão…

Adquiri dois ingressos, um para mim, outro para minha namorada afro-descendente, ambos, como todos os pagantes, levamos um quilo de alimento não-perecível a ser doado para a Cáritas solidariedade, acompanhando os bilhetes de entrada…

No final da tarde do domingo seguinte, ao adentrar o auditório da Uniarp, encontramos um jovem sorridente que encarregava-se de recolher os ingressos e os alimentos, escolhemos o lugar e sentamos a espera do espetáculo… Minha mente criativa e acostumada a “viajar na maionese” já imaginava uma porção de afro-descendentes gingando ao som do berimbau e dos batuques típicos do povo africano que só é lembrado nos documentários televisivos sobre miséria física e moral e, excepcionalmente neste ano em que a copa do mundo da FIFA será realizada naquele continente…

Quando iniciou-se o espetáculo, percebi que, de certa forma eu havia palpitado corretamente, com uma pequena e significativa diferença: A arte afro-brasileira estava maravilhosamente ali representada num espetáculo multirracial… No palco, viajamos das raízes africanas, passando pelas senzalas, quilombos, até chegar à roda de samba que nada mais é que a capoeira transformada em dança de salão… Tudo isso com participação do grupo de capoeira Quilombo do Contestado e vários outros artistas de Caçador e região…

Numa das canções, me chamou a atenção um verso, escrito e cantado por um artista caçadorense, que não lembro na íntegra, mas a mensagem é mais ou menos esta: “A lei Áurea libertou o negro das correntes, porém não o libertou do preconceito”… O que vi no palco foi mais uma tentativa de atentar a humanidade para a importância de se respeitar as diferenças e celebrar as igualdades, pois o artista em questão reuniu ao seu redor violão, guitarra, berimbau, atabaque e pandeiro, numa perfeita harmonia representada por uma pequena orquestra formada por negros, brancos, mulatos e várias miscigenações…

Ao retornar para minha residência oficial de verão, inverno, outono e primavera, olhei minha imagem refletida no espelho e encontrei várias provas de que a maioria esmagadora dos brasileiros têm sangue negro correndo em suas veias: os lábios carnudos, o “nariz de batata”, os olhos e cabelos escuros… Tudo isso lembra características negras no corpo de um luso-descendente…

E o que dizer da paixão nacional dos brasileiros, a região acima da coxa e abaixo da espinha do corpo feminino, aquelas ondinhas tão exploradas pela mídia e valorizadas pela moda e as indústrias de roupas?… Estou falando do glúteo, ou nádegas… Ou, para ser menos elegante, a bunda mesmo… Será que estas formas arredondadas descendem das europeias?… Claro que não! Esta e outras características esculturais do corpo feminino devemos à herança de nossos irmãos afro-descendentes… Não falarei do corpo masculino por razões óbvias, até porque eu não tenho o olho clínico feminino para tanto, mas bem sabemos que as características masculinas mais apreciadas pelas mulheres, também não têm origem na raça pura sonhada por Hitler…

Além dos aspectos físicos, herdamos dos africanos a força de vontade, o senso de justiça, o ritmo, a determinação e a arte maravilhosa da música que nasceu na senzala como um grito de liberdade e continua ecoando Brasil afora em busca de uma humanidade mais justa e igualitária…

Márcio Roberto Goes

Luso-afro-descendente

www.marciogoes.com.br

Um Comentário

  1. Gii
    Gii 24 de março de 2011

    toda dança tem vida, e capoeira é dança

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