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UM DIA DE CHIQUEZA

João juntou sua família e umas economias, colocou dentro de seu fusca azul da cor de seus sonhos, e resolveu levá-los para almoçar fora no último domingo. Depois de passar três dias à pão e água em preparação para a ceia, procurou o restaurante mais caro e famoso da cidade, aproveitando a pequena trégua da miseresma: uma churrascaria que oferece espeto corrido e tem um nome italiano.

Pra começo, teve que aguardar até a uma e meia da tarde para conseguir uma mesa… Entrou, serviu seu prato com tudo o que tinha direito e mais um pouco, inclusive aqueles pratos que só os ricos conhecem, com nome estranho, e sentou-se à mesa. Estava meio perdido, não sabia como usar um guardanapo nem os talheres certos para cada prato, mas conseguiu se virar… Sentia-se meio desconfortável, visto que a cada garfada que tentava levar à boca, surgia, do nada, um garçom oferecendo alguma variedade de carne. Mas conteve seus ímpetos de fugir dali, e permaneceu tentando ser chique, pelo menos uma vez em sua vida.
Quando tentava degustar um molho meio amarronzado, com pedaços de carne sabe-se lá do quê e sabor de pé dos outros, parecido com queijo vencido, aparece a seu lado um sujeito de camisa branca, colete cor de vinho, uma toalha em seu ombro direito, um espeto enorme na mão esquerda e um facão na direita, com os olhos esbugalhados, perguntando:
– Coraçãozinho?
Mais do que depressa, João vira-se para o vivente, cuja masculinidade tornou-se totalmente duvidosa ao proferir aquelas palavras e retruca indignado:
– Ih! Sai pra lá cara!… Eu sou espada!…
Mais alguns segundos e surge outro cidadão com o mesmo traje (devem ter comprado em alguma promoção de ponta de estoque em seis vezes sem entrada), carregando um carrinho com um resto de cadáver de algum animal em cima, um olhar sarcástico, também portava um facão (porque será que todos andam armados por aqui?). O sujeito pára em frente ao João e pergunta aos membros da mesa:
– Vocês querem ovelha?
– Agradeço – Responde, meio sem jeito, o João – mas não tenho lugar para ela lá em casa. Meu quintal é muito pequeno e não tem pasto.
Chega a hora da sobremesa, nosso sonhador de sonhos azuis serve seu prato com uma papinha repleta de bolinhas parecendo olhos de sapo, juntamente com um pudim semelhante a tronco de xaxim ao molho.. Tudo muito saboroso, porém muito estranho… Agora, finalmente cessaram as visitas daqueles uniformizados e armados que pareciam estar sempre em alerta, com a faca na mão, de vez em quando parando para amolar…
Tudo perfeito… Família contente, satisfeita e de barriga cheia. Enquanto esperava na fila do caixa, João experimenta uma bebida estranha que lhe desce corroendo o esôfago… Não reclama, pos é a única coisa que conseguiu de graça, além da sobremesa de olhos de sapo, naquele restaurante.
A conta é mais salgada que o churrasco que ele não comeu por orientações odontológicas, mas vale a pena pagar caro para ser chique por um dia e depois voltar à miseresma cotidiana de alma e bolso lavados.

Márcio Roberto Goes
Cada vez mais chique
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3 Comments

  1. SILMARA E TAINARA.
    SILMARA E TAINARA. 20 de maio de 2009

    As ideias do texto, são interessantes realmente a gente deve aproveitar a vida enquanto somos vivos e abusar de tudo que é bom, para ter a certeza que um dia viveu tudo que queria. Silmara e Tainara.

  2. Inhu
    Inhu 27 de fevereiro de 2009

    hahaha!

    E olha que tem gente que passa o mês no fejãozinho com arroz pra pagar R$140,00 pra “ganhar” uma camizeta, beber e ter ressaca… isso quando não “ganha” um par de chifres de brinde

  3. Márcio Goes- Sana e Bela Catarina
    Márcio Goes- Sana e Bela Catarina 1 de dezembro de 2008

    […] serrano quase gaúcho… De Anita Garibaldi, de Gisele Bundchen, De Gustavo Kuerten, do João dos Sonhos Azuis, de mim, de você…  Santa e bela Catarina, das incríveis oscilações climáticas, que por […]

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