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TRÊS DIAS DE MAMATA?

Carnaval, significa, na semântica original da palavra: “adeus a carne”. Já foi uma festa cristã, trazida pelos portugueses para durante três dias degustarem desenfreadamente carnes, já que na quarta-feira de cinzas começava a quaresma e durante todos os quarenta dias que antecedem a Páscoa, em respeito à tradição e aos princípios religiosos, não se comia nenhum tipo de carne, exceto peixe.

O tempo passou e a etimologia deste verbete também mudou. Segundo o dicionário Houaiss virtual, carnaval é: “Período de festas profanas que começa três dias antes da quarta-feira de cinzas, caracterizado por danças populares em que as pessoas se fantasiam e usam máscaras para comemorar (…) A festa celebra a alegria nos dias que antecedem o início da quaresma.”
Percebe-se que uma festa cristã tornou-se profana facilmente no Brasil. Mas isso é só um detalhe, o que importa é que o carnaval é uma festa popular … Será?… Voltamos ao Houaiss: Popular quer dizer: “Que pertence ao povo, que concerne ao povo (…)” Pois bem, o carnaval pertence ao povo, certo? Errado! Só se povo quer dizer carioca e nordestino, porque aqui no sul, não vejo nenhuma empresa liberando seus funcionários para brincar o carnaval durante os três dias antes da quaresma. Quando o fazem, é só na quarta-feira de manhã, pesando como dívida que deve ser paga com horas extras, ou sacrificando o fim de semana do trabalhador braçal… Enquanto isso, Rio de Janeiro, São Paulo e todos os estados da região nordeste se divertem sem preocupação com trabalho ou outras coisinhas fúteis e supérfulas de obrigação de qualquer ser humano que tem um pingo de responsabilidade…
Apesar do carnaval não ser oficialmente feriado no Brasil, o congresso nacional, bem como autoridades estaduais e municipais não trabalham nestes dias… As aulas são dispensadas e a maioria dos funcionários públicos também têm folga. Por que o trabalhador assalariado também não pode usufruir do mesmo direito?… Afinal, o carnaval é uma festa popular brasileira! Será que o pobre assalariado, que paga devida e sofrivelmente seus impostos, luta para sobreviver e sustentar seus entes queridos não é nem considerado brasileiro?… Será que o carnaval, como festa popular só serve como ponto facultativo para aqueles que são considerados mais brasileiros, só por viverem em detrerminadas regiões deste país continental, carnavalesco, “abençoado por Deus e bonito por natureza”?
Acho que o poeta foi muito infeliz ao escrever estas palavras, ou nunca veio ao sul durante o carnaval. Também não foi muito feliz aquele que escreveu: “ Quem trabalha o ano inteiro tem direito, em fevereiro, a três dias de mamata”. Olha, se alguém viu um trabalhador de nossa cidade usufruindo destes três dias de mamata, me avise, porque eu não encontrei. Moro perto de uma madeireira e pude constatar que ela e todas as empresas de Caçador funcionaram normalmente durante todos os dias de “folia”, e tenho certeza que se algum funcionário tentou fazer valer seu “direito” a três dias de mamata foi severamente punido com a suspensão da cesta básica (É!… faltou um dia, não precisa comer…), advertência, ou até demissão, enquanto seu patrão aproveitou para viajar … afinal, ele pode arrumar as malas e fugir quando quiser, pois não precisa cumprir horários rígidos nem levar a empresa nas costas com o serviço braçal: já existe alguém que faça isso por ele para o bem da empresa, do país e do próprio empregado.
Infelizmente, é doído, mas é real: milhões de brasileiros que trabalham, inclusive durante o carnaval, não tem a mesa farta e nem o que vestir, enquanto o luxo e a luxúria desfilam descaradamente na Marquês de Sapucay. O dinheiro e o luxo que faltam aqui, sobram lá. O preço de um tapa-sexo chega a ser maior que um traje completo que poderia agasalhar uma criança no inverno rigoroso de nossa região e trazê-la mais conforto… Mas a pobre criança, bem como seu pai assalariado, só tem direito a ver o carnaval na telinha da poderosa do plim-plim, comendo feijão com bijú e polenta. Isso quando seu pai não falta nenhum dia ao trabalho e tem direito à cesta básica.
Márcio Roberto Goes
De volta ao trabalho

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