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Torneira relapsa

 

Seja bem-vindo ao meu modesto lar. Ainda não é meu de verdade… Busco um financiamento para a casa própria… Mas aqui você encontrará muito calor humano. Pode não ser a casa mais organizada que deve ter visitado, mas sempre tem um bom lugar reservado aos amigos e pessoas de bem…

Já na entrada, encontrará dois seres mais humanos que muitos homo sapiens desumanizados. Meus grandes amigos: um labrador e outro vira-latas que, apesar de terem valores diferentemente estipulados pelo capitalismo selvagem, ocupam lugares idênticos em meu coração, entre nós circula o amor verdadeiro, sem pretensões, sem cobranças, sem limites… Vez por outra, visto uma roupa sujável e dou um banho em minha alma ao rolar no piso com eles. Meus companheiros ficam felizes e eu também, aliviamos as tensões, eles abanam o rabo e eu alargo o sorriso de orelha a orelha. Às vezes, a namorada mais maravilhosa do mundo chega de supetão e não pensa duas vezes antes de entrar na brincadeira e provar também da sensação de que não é preciso riquezas materiais para o enriquecimento da alma… Mas peço perdão, neste momento em particular, pelo canil um tanto sujo. Mesmo os melhores amigos do homem produzem dejetos… A parte sólida foi possível juntar, mas o líquido evaporou e deixou apenas o odor que se reforça nas tardes ensolaradas de verão…

Depois de passar pela prova de resistência canina, fique a vontade para entrar num lar feliz. Não tire o calçado. Entre, puxe uma cadeira e sente-se. Sinta-se confortável e, por favor, não olhe para a pia, pois toda a louça do café da manhã e do almoço ainda está por lavar… De onde está sentado, é possível visualizar a lavanderia improvisada anexo à cozinha, lá se vê uma montanha de roupas esperando para serem lavadas. Por gentileza, não repare…

Se precisar usar o banheiro, por favor, evite fazer o número dois, pois não se pode dar descarga temporariamente e as mãos não poderão ser lavadas… Não pense que sou relaxado, relapso, ou não tenho asseio pessoal. Minha humilde residência sempre foi muito bem cuidada para que eu e meus visitantes pudéssemos nos sentir bem, confortáveis, com sensação de leveza e limpeza. Mas há dias não é possível, pela constante falta de água… Sim! O líquido precioso é raro pelas bandas do Martello, mais precisamente no loteamento Morada do Sol. Nunca sabemos se podemos iniciar o banho essencial e diário, sem sermos surpreendidos com o enfraquecimento do chuveiro e a consequente interrupção do processo… Se deixo para lavar o canil depois, posso não obter resposta alguma ao abrir a torneira… Após o café, não tinha água, foi assim durante toda a manhã. Após o almoço, mesma situação. A louça ainda espera ser lavada e agora, não existe água potável nem mesmo para oferecer-lhe um cafezinho passado na hora, ou um chimarrão para compartilharmos, na cuia e na bomba, esperanças e temores… A máquina de lavar roupas também  não consegue cumprir seu papel se não tiver uma ajuda líquida inodora, sem sabor e incolor…

Amigo visitante, esta situação já se arrasta há meses… “Estamos fazendo manutenção”, dizem os responsáveis para justificar as constantes interrupções no abastecimento… Me parece um tanto demorada a tal manutenção, pois moro aqui há cinco meses e a falta de água é constante… Final do ano passado, compareci a duas solenidades de formatura de ensino médio, numa delas exerci o papel de mestre de cerimônias, na outra, compuseram a mesa de honra as autoridades que contribuem para esta situação humilhante. Em ambas, tive que vestir o terno sobre o banho do dia anterior e deixar a barba por fazer…

E o pior de tudo é que, a cobrança da tarifa é a mesma. Pagamos pelo vento na torneira, pagamos pelo odor de um canil não higienizado, pagamos pelo spray de ar sobre os cabelos quando tentamos tomar um banho descente. Pagamos pelo descaso dispensado aos moradores dos bairros mais afastados do centro financeiro e comercial, luxuoso, capitalista, chique, privilegiado… Afinal a elite não pode sofrer a falta do líquido precioso. A ela é permitido esbanjar e o meio ambiente que “sifo”…

Nossa conta está lá todo mês. Se usamos demais, pagamos mais, se usamos de menos, a taxa não diminui. Não me parece justo pagarmos a mesma taxa por um fornecimento pela metade. Não me parece legítimo sofrermos constantes danos morais e higiênicos, e ainda pagarmos por isso. Não me parece nada legal sermos obrigados a adivinhar os momentos certos para tomar banho, lavar roupa, louça, ou mesmo fazer as refeições… Não é nada agradável vermos tantas campanhas pela preservação dos recursos naturais, pela economia sustentável, pela coleta seletiva do lixo e, principalmente pelo uso consciente da água, se aqueles que coordenam o processo não têm consciência da importância deste líquido precioso para a vida de todos os seres humanos, sejam eles ricos, ou pobres, do centro, ou da periferia… Todos precisamos e temos direito à água potável. Nem todos a temos o suficiente para as necessidades básicas diárias, mas todos pagamos como se a tivesse…

Mas o capitalismo desumano é assim, tira de quem não tem e dá para quem já não sabe onde acumular. Defende a ilegalidade de quem deveria lutar pelo cumprimento da lei e condena sempre o indefeso… Dá poder a quem já é poderoso e tira os direitos de quem já não os tem…

Parece que o líquido precioso só está sendo fornecido abundantemente para quem já é nobre… E o pobre? Que vá tomar banho de rio!… Ainda assim poderá ser condenado por poluir a água que, depois de tratada, será vergonhosamente negada a ele nas torneiras da vida…

Márcio Roberto Goes

www.portalcacador.com.br
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