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Tag: violência

Maria da Penha às avessas

 casal

Eles eram recém-casados… Ela, uma moça de família pobre, perdera os pais muito cedo e vivera por conta dos seus irmãos mais velhos, nunca tivera um lar de verdade, vivera a custa de xingamentos e exclusões… Ele, igualmente pobre, porém vindo de uma família bem estruturada, cujos pais ficaram juntos mais de trinta anos, quando houve a separação por conta da morte de um deles…

O casamento foi uma festa simples, mas de muito bom gosto… Todos os convidados se disseram satisfeitos…

Passou-se um mês, dois, passaram-se nove meses… Um dia, ele teve que chegar mais tarde do trabalho e ela o recebeu com insultos e agressão verbal… Ele foi tentar se justificar, mas levou um tapa no rosto, vindo de sua amada… Naquele dia ele chorou… Chorou o choro doído de quem não é compreendido… O choro doído de quem sente que a dor psicológica supera qualquer dor física… Ela também caiu no choro… O choro dos arrependidos, dos que se sentem mal-amados, mesmo tendo todo o amor do mundo… Ela se arrependeu, ele perdoou…

Passado algum tempo ele, ao volante para numa esquina pra esperar algumas pessoas atravessarem a rua… Ela, do banco do caroneiro sisma que ele ficou olhando para as mulheres que passavam a sua frente, ele tenta explicar, mas é surpreendido por uma sequência de socos na barriga que quase lhe tira o fôlego, faltando pouco para não causar um acidente de trânsito… Ele para o carro… Ela grita com ele… Ele grita com ela e é revidado com mais um tapa na cara… Ambos choram novamente, se perdoam e seguem seu dia…

Tarde da noite, os dois em casa. Ela arrumando o quarto para o sono dos pombinhos, ele assistindo TV e resolve pular os canais aleatoriamente… Por dois segundos aparece na tela uma mulher seminua. Ela entra no ambiente justamente naqueles dois segundos e começa o julgamento… Ela grita com ele, ele tenta se justificar em vão… Ela toma o controle remoto de suas mãos, ele senta novamente no sofá e permanece olhando a TV a fim de não continuar a encrenca… Ela desliga a televisão, joga o controle no chão aos gritos, espatifando-o em uma centena de pedaços… Ele permanece calado… Ela pula por cima dele e o agride fisicamente de novo… Ele segura forte em seus braços… Ela reclama que ele está machucando a pobrezinha… Ele solta… Ela diz que vai chamar a polícia… Ele pega o celular dela e a entrega para que faça a ligação… Pobre celular, teve o mesmo destino do controle remoto… Depois de muito choro, se perdoam e vão dormir em paz, sem TV e sem celular…

Outra noite, ele fica até mais tarde ao computador… Ela vai reclamar, diz que ele só fica naquele computador e esquece que tem uma mulher em casa, que ele só pode estar vendo pornografia e que ela não aguenta mais tanta indiferença… Completa dizendo que precisa de carinho e atenção e ele não lhe oferece isso… Ele, para evitar briga, permanece ao computador sem proferir uma palavra… Ela arranca a tomada da parede… Ele continua trabalhando com a bateria, mas olha para ela… “O que foi?” – Pergunta ele… “Tenho vontade de te bater.” – Responde ela… Ele tira os óculos e oferece a face… Ela bate com toda força… Ele oferece a outra face… Ela repete o carinho… Ele levanta da cadeira e se dirige até a porta ofegante… Ela o segura e conclui com mais dois tapas no rosto e socos pelo corpo…

Cansado disso, ele segura sua amada com toda a força pelo braço e a encosta na parede dizendo olho no olho, pausadamente em voz alta o suficiente para a velha surda da casa ao lado ouvir: “Você nunca mais vai fazer isso comigo!”…. De fato, nunca mais ela o agrediu, pois ele está preso, enquadrado na lei Maria da Penha…

Márcio Roberto Goes

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