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Tag: trote universitário

Trote

 Quando ingressei num curso superior, senti-me um vencedor… E de fato, o era… Eu e todos os outros quarenta e nove que me acompanhavam naquela primeira turma de Letras Português-Espanhol da UnC Campus Caçador. No segundo final de semana de aula, como se tratava de regime especial, sexta-feira à noite, os veteranos nos pegaram e nos obrigaram a pagar uma certa quantia, não lembro quanto, só lembro que eu não tinha… Juntei-me aos demais miseráveis sem tostão e sem um pé de sapato… Também não lembro se era o esquerdo ou o direito, só lembro que tivemos que desfilar pelo campus de mãos dadas, cantando uma cantiga de roda qualquer que agora me foge a memória, para podermos ter de volta o pé de calçado que já era nosso. Percebe-se que não lembro da maioria dos detalhes (Graças à Deus), mas lembro perfeitamente que não gostei nada daquela humilhação, nem meus colegas, tanto é que não fizemos o mesmo com nenhuma outra turma seguinte, pelo contrário, algumas vezes recebemos os calouros com um abraço de boas-vindas…

 
 Pois bem! Nove anos depois, ouço o relato de uma acadêmica de primeira fase do curso de artes visuais, descrevendo as mesmas (talvez piores) atrocidades contra os ingressantes deste ano na universidade. Desta vez, no sábado de manhã, foram obrigados a matar uma formiga a grito e quem não conseguisse (milagrosamente, uma conseguiu), teria a cara pintada, um pé de calçado surrupiado e passaria pela humilhação de passear pelo campus enrolado em papel higiênico, cantando alguma babaquice orientada por alguém mais babaca ainda. Assim se sucedeu e aqueles que se recusaram a tirar o calçado foram obrigados a força: dois seguravam e um tirava… Para mim, isso já é agressão física, ou seja, trata-se de um crime, além dos danos morais sofridos pelos calouros que foram obrigados a “pagar mico” nas outras salas, pulando num pé só, com aquela canção babaca nos lábios… E pior: os delinquentes veteranos obrigaram os calouros a permanecerem durante todo o dia com o rosto pintado, ameaçando novas torturas para as pessoas que ousassem limpar a cara, além de dizerem que a perseguição duraria o ano todo… Como se não bastasse, as pessoas que não tinham dinheiro para o resgate, receberam de volta seu calçado molhado… Não consigo acreditar, merece até reprise em negrito: “as pessoas que não tinham dinheiro para o resgate, receberam de volta seu calçado molhado”… Além de terem um bem de uso pessoal roubado, ainda foi devolvido com danos… Isso é outro crime, no mínimo revoltante, indignante, inacreditável…

 
 Vemos na TV as histórias catastróficas de trotes universitários, alguns até terminando em morte… Claro que ainda não chegamos a tanto em nossa cidade, mas trata-se de uma prática que circula na contramão da educação…

 
 Senhores veteranos universitários, por favor, vamos abolir estas práticas abusivas do ensino superior. O regime militar acabou há vinte e três anos no Brasil, não se fazem mais necessárias a tortura e a humilhação para mostrar que são melhores que seu semelhante… Na verdade, não são… Ninguém o é… Amanhã ou depois, poderemos ser colegas de profissão… Como gostariam de ser recebidos pelos veteranos da profissão que vocês escolheram?…

 
 E a solução não é o tal do trote solidário, como vemos alguns casos na TV. Até pode dar  resultado, mas continua sendo trote… A meu ver, não deveria existir trote de gênero algum nas universidades, pois lá é lugar de pesquisadores, não de irracionais. Esta prática se trata, de qualquer forma de abuso e atentado contra a dignidade humana. Para mim, trote sempre será trote, no sentido mais pútrido da palavra, ou seja, é coisa de cavalo…

 

 

Márcio Roberto Goes

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