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Tag: Trabalho

Tudo é aprendível

22/01/2017

parede

Penso que todas as profissões devem ser valorizadas. Quando se contrata um serviço, o valor pago deve ser justo, de acordo com a experiência, preparação e investimento feitos pelo profissional que o oferece… Existem muitas empresas sérias e profissionais autônomos igualmente sérios no ramo da construção civil. A eles meu respeito e admiração como profissionais e, principalmente, como seres humanos, porém, há algum tempo resolvi não contratar mão de obra para construir minha residência oficial… Como sempre falo: Tudo é aprendível… Tomei então a decisão de aprender fazendo, usando este que vos escreve como cobaia…

Confesso que não comecei do zero, pois aprendi muito sobre carpintaria com meu falecido pai que me deixou uma herança valiosa: um cerrote, um martelo e um esquadro, que me acompanham no cinturão em cada passo da edificação de minha residência oficial… Porém, muitas coisas, tenho que aprender… Sorte a minha que tenho amigos engenheiros, pedreiros, eletricistas e encanadores que respondem prontamente a cada dúvida que aparece no cotidiano da obra…

Na verdade, trata-se de uma reforma e ampliação: Para tanto, precisei dar uma de pedreiro e erguer, do zero, um banheiro. Seria simples se o fizesse “a facão”, mas preferi seguir os padrões corretos, o que deve ter dado um certo incômodo aos profissionais que, constantemente procuro para esclarecer dúvidas, além de buscar tutoriais na Internet…

Botar a mão na massa é uma experiência muito interessante. Descobrir a quantidade e o ponto certo de cimento, areia, pedra, etc. Não tenho a experiência e a técnica de quem trabalha com isso dia a dia, mas o fato de descobrir, de vagarinho, como se faz, me traz grande satisfação, alegria, sem falar no detalhe clínico, pois descobri no trabalho manual, um eficiente fator para diminuir o estresse…

Lembro, constantemente dos ensinamentos de meu pai, dos conselhos de minha mãe… Optei pela casa de madeira, simplesmente porque passei minha infância e adolescência numa e o fato de estar construindo com tábua bruta me traz a nostalgia de reviver bons momentos que só a casa de madeira pode proporcionar…

Pode não ter o luxo de uma casa moderna de alvenaria, não fica pronta em quatro meses como aquelas financiadas, pois estou construindo conforme entra a verba, posso não ter a comodidade de receber a chave na mão sem me preocupar com o restante, pode não ser perfeita, mas é a minha casa, construída pelas minhas mãos com a ajuda de pessoas generosas ao meu redor… Ela tem a minha cara, o meu jeito, pois cada detalhe está sendo programado para abrigar o protagonista da minha vida…

Tenho certeza que não é a casa dos sonhos de muitos, mas é a minha casa dos sonhos… É a minha canela que foi ralada nos caibros depois de pisar em falso, é o meu dedão que está com bolhas de sangue resultadas de marteladas sem mira, são as minhas mãos que adquiriram calos pelos movimentos repetidos, foram os meus ombros que avermelharam, depois de esquecer o protetor solar ao colocar as telhas uma a uma… Enfim, é a minha obra… Estou presente cem por cento do tempo em busca de um resultado que, a cada pequeno avanço, considero uma vitória…

Muitos acertos ainda devem ser feitos: esquadro e prumo nem sempre exatos, nível conferido constantemente, mesmo assim ainda escapando deste olhar astigmático e ceratocônico…

É a minha casa que, além de ser meu lar, é também um objeto de pesquisa, pois tudo é aprendível…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

www.radioativacacador.com.br

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A escada da esperança

 

 Uma escada em frente à catedral, tendo um homem sentado: uma cena corriqueira, não fosse o fato de o homem segurar nas mãos uma carteira de trabalho e a cédula de identidade, pressupondo mais um cidadão em busca de sustento e dignidade… Expressava tristeza e desânimo em seu olhar, estava cansado de procurar algo, talvez inalcançável: um emprego…

 
O que estaria passando pela cabeça daquele senhor quase maltrapilho naquele patético momento?… Seria mais um dia perdido?… O que diria sua esposa em seu retorno ao lar naquela tarde cinzenta e lastimável?… Será que tem esposa?… Já teve um dia?… Foi ele abandonado, talvez, por causa do desemprego?… Quantas bocas esperam, em sua casa, pelo alimento que não vem e nem tem previsão de vir?… Será que tem casa?… De que maneira será recebido por seus familiares, se os tem?… Quantas portas já se fecharam para aquele cidadão?…

 
 Desemprego não é doença, mas dói… E esta dor é sentida por todas as pessoas que rodeiam aquele senhor, muito novo para aposentar-se e muito velho para começar um novo emprego, rotineiramente chamado de “preguiçoso e vagabundo” por não trabalhar e taxado de “burro” por não ter estudo… Mas, quem sabe, a vida não lhe deu a oportunidade de estudar, ou quando teve a chance, mesmo tardia, de aprimorar seus conhecimentos, sua prioridade foi o sustento dos seus entes queridos, dedicando-se diuturnamente àquela empresa que não reconheceu seu valor e sua experiência, nem investiu na educação escolar de seu funcionário, e para economizar encargos, simplesmente o demitiu…

 
 Por outro lado, teria ele perdido o emprego por não ser um bom funcionário na concepção do empregador, “dono” do capital e de sua vida profissional…?

 
 Com certeza, os responsáveis por sua demissão têm mesa farta, lucram muito mais do que precisam e não têm tempo a perder pensando no olhar triste, cansado e desanimado de um senhor que “eles” colocaram sentado na escada da catedral, tendo em mãos sua única fortuna: a carteira de trabalho, onde consta a experiência adquirida naquela empresa que sem dar-lhe direito a réplica, abortou sua dignidade…

 
 Como ele, quantos outros se encontram na mesma lastimável e desumana situação: sem emprego nem esperança, já que não são exemplares aos olhos capitalistas (do tipo: “meu nome é trabalho, não tenho família nem sentimentos”), nem podem contar com um bom “padrinho” para empregá-los ou dar-lhes um “carguinho” prometido na campanha eleitoral?… Certamente, se todos os excluídos de nossa cidade, que buscam o emprego, a dignidade, a subsistência, o direito à vida, parassem para refletir sua situação no mesmo local, a escadaria da catedral precisaria ser ampliada com urgência.

 
 Ah, se aquela escada falasse!…

 

Márcio Roberto Goes

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Hei! Como está o seu salário?

Por: Professor Paulo Sergio de Moraes

Ah, o meu está legal porque o governo diz que o meu salário mínimo nunca teve um aumento tão real… Segundo o prefeito em seu discurso, o meu salário como professor nunca teve um aumento tão significativo e é um dos mais altos do estado…

Bom, o meu salário agora sim está ótimo mas tive que ficar sessenta dias em greve… Olha só!!!… vamos falar baixinho porque para o meu salário eu pedi 90% de aumento. Não ganhei, porém, depois que a polêmica foi desfeita, diminuí para 28% e com a maior facilidade consegui, e agora juntando com as mordomias que a lei me permite chego a faturar mais de cem mil reais por mês e ninguém contrariou.

Que beleza!!!!!… Eu não tenho do que me queixar pois, não possuo curso superior, mal fiz a quarta série e como vereador ganho mais de quatro mil reais por mês tendo o compromisso oficial de me encontrar pelo menos uma vez por semana conforme funcionamento das câmaras, assembléias e senado…

Epa!!! Pera aí… vamos mudar o rumo da prosa e discutir a relação… de salário! Será que estamos vivendo no mesmo país?… Por incrível que pareça estamos e somos injustiçados na mesma nação onde um trabalhador urbano que é a força–motriz da geração de renda recebe em geral R$ 600,00 por mês, um agricultor que produz todo o alimento que nos dá força para trabalhar e viver tem que se contentar com R$ 380,00 depois de uma vida inteira porque a previdência está quebrada, um professor que é responsável por muitos indivíduos assalariados necessita trabalhar de manhã, à tarde e à noite com um rendimento de R$ 1.800,00 reais já com os descontos e ainda tem que se dirigir angustiantemente aos seus alunos com o discurso de que o estudo é importante “para obter vaga no mercado de trabalho” e não para contribuir para a real independência do país e de si mesmo em todos os aspectos.

Por esta situação, sem menosprezar cada cidadão que tem um salário baixo ou alto, imagino que o nosso Brasil não pode avançar no campo social, econômico, técnico–científico, cultural com esta e tantas outras diferenças, e enquanto a maioria do povo não for valorizada.

Em pleno século XXI em todos os setores público ou privado é a dominação de poucos que emperra a mudança e o crescimento e há a preocupação, em maior escala, com os interesses de pequenos grupos em detrimento de um povo que soma mais de 180 milhões de pessoas.

Por outro lado, há um discurso rançoso que ainda reluta em manter–se vivo de que algo nunca esteve tão bem quanto está hoje, mesmo após quinhentos e sete anos da invasão pelos portugueses e como sempre um pequeno grupo no domínio da situação.

Essa insistência no discurso e não na prática tem feito absolutamente nada de concreto para que a maioria da população viva em condições de igualdade e acesso, a não ser, migalhas que ao invés de nos alimentar por completo vão nos sufocando e deixando – nos sem força para reagir.

Por todas estas razões e argumentos, gostaria de conclamar a sociedade para uma reflexão sobre algumas diferenças que são escandalosamente insustentáveis para uma nação que é economicamente dependente de pequenos grupos mundiais e assim, quando perguntarem como está o seu salário você tenha autonomia para dizer que está ótimo e que você vive em um país onde a igualdade e o acesso são garantidos realmente para cada um dos 180 milhões de brasileiros.

E viva a igualdade e as oportunidades…

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