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Tag: toctoc

Toc, Toc…

   

Depois de mais de uma década calçando só sapatos, resolvi mudar… inovar… arriscar… Saí em busca de um tênis, mas precisava ser barato, confortável, bonito, resistente e combinar comigo…

Fiz um rastreamento por toda a avenida Barão do Rio Branco, dispensei uma tarde do meu precioso tempo para isso, acompanhado de minha companheira para todas as horas que me ajudou muito na decisão final… Provei todo tipo de tênis, de todos os modelos, várias cores e valores, de todas as marcas, com cadarço, com velcro, preto, branco, azul, cinza, marrom, vermelho, carijó, mestiço, de zebrinha, xadrez… Nenhum me agradou: Este não era confortável, aquele, muito caro, o outro não era bonito, outro ainda não me agradava no modelo, ou na cor… alguns preenchiam todos os requisitos menos um: o preço… Em todas as lojas procurava conter minha imensa vontade de provar um sapato, já que deste tipo de calçado não é difícil encontrar um que me agrade…

Quase a ponto de desistir, entrei numa dessas lojas populares que vivem “fincando fogo” nos estoques… É queima disso pra cá, queima total daquilo pra lá… Peraí!… Se for pra queimar, é melhor dar para alguém que precise. Pois seguindo a lógica do meu cérebro criativo, socialista e meio louco, se é necessário queimar algo a todo instante, é porque tem de sobra… E se sobra para alguns, certamente falta para outros… Mas não é bem assim. A realidade é muito mais cruel: Quem tem de sobra, não quer perder, ainda que seja obsoleto, mas quem não tem, deve esperar a boa vontade daqueles quem têm queimar os estoques e, mesmo assim, corre o risco de ficar sem, pois tudo depende daquilo que o capitalismo transformou no vilão do povo: o dinheiro…

Nesta loja que estava queimando tudo, entrei, meio “ressabiado”, com medo de pegar fogo também e provei alguns tênis… Um deles, finalmente parecia preencher todos os requisitos do meu gosto exigente e da minha namorada inovadora. Era preto com detalhes em cinza… Provei-o, andei um pouco no tapete mágico, contemplei-o no espelho próximo ao chão, caminhei mais um pouco… “Confortável, bonito e barato. A minha cara!… É esse mesmo! Embrulha que eu vou levar!”…

Aliviado, certo de ter feito um bom negócio e contente, saí pelas ruas da cidade expondo o logotipo da loja numa sacolinha branca com a caixa do meu novo tênis dentro, até encontrar meu branquelo 79 no estacionamento da catedral… O fusquinha levou este que vos escreve até sua residência oficial enquanto eu já não suportava a ansiedade que assolava minha alma para inaugurar meu novo calçado… Já me imaginava fazendo “Nhec!… Nhec!” com aquela sola de borracha macia nos corredores da escola, chamando a atenção para a novidade…

Mas, ao usá-lo oficialmente pela primeira vez longe do tapete mágico da loja, só se ouvia: Toc!… toc!… toc!… Ué?… Isso é um tênis com barulho de sapato!… Será que estou diante de um calçado com crise existencial?… Será que fui enganado pelo tapete mágico?… Ou serão as duas coisas ao mesmo tempo?… Só sei que a imagem era de um tênis, mas o áudio era de sapato… “Poxa vida!”… Pensava eu desolado ao subir as escadas do Wandão… “Será que fui iludido pelo consumismo outra vez?”

Meus pensamentos indignados foram interrompidos por um aluno no corredor que esclareceu todo o mistério:

“Olha! Que legal o sapatênis do professor!…”

Parece que, mesmo sem querer, comprei metade de um par de sapatos… Metade de mim continua o mesmo…

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

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Jornal Informe – O diário Regional

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