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Tag: sonhos azuis

Sonhos Azuis – CAPÍTULO VIII

– Será que o vendedor vai demorar muito com este fusca? Não aguento mais esperar. Vou para casa e volto a tarde. Você me acompanha, Teófilo?

– Você que sabe, João… Já que estamos aqui, não custa esperar!
De repente, quele charme em pessoa chamado Iracema levanta-se novamente e dirige-se até onde se encontravam os dois.
– Adam avisou que já está chegando… Só mais uns minutinhos, João…
– 0Obrigado!

O microempresário engomadinho não demorou muito a apontar na esquina com aquela sucata azul da cor de seus desafetos, falando baixinho para si mesmo:

– Ufa! Parece que minha mulher ainda não passou por aqui… Acho que consegui salvar meu casamento e quem sabe fecharei negócio com este chato do João!

Nosso sonhador de sonhos azuis já contemplava aquele que seria seu primeiro e mais amado carro… Entrava esplendoroso pelo portão: azul… da cor do céu… da cor do mar… da cor de seus sonhos… Ainda não acreditava no que via: era ele, o fusquinha que invadiu seus pensamentos durante a tarde que passou, embalou seus sonhos na noite anterior e agora estava em sua frente, guiado pelo Adam, que descia do carro já puxando conversa com seu cliente:

– Bom dia João! Desculpe a demora…

– Que nada! Isso acontece…

– Vamos fechar negócio?

– Podemos testá-lo primeiro?
– Claro! Podem dar uma volta… a Iracema os acompanha.

Aquilo fez João perder o fôlego por um instante… Que vergonha! Uma mulher linda e maravilhosa daquela o vendo dirigir?… Ele que fez o teste de volante a recém… E se fizesse alguma imprudência, arranhasse as marchas, trocasse o freio pelo acelerador?… Mesmo com vergonha, aceitou a proposta de “test drive” acompanhado pela moça que lhe acaba de arrancar suspiros, porém teve uma ideia melhor.

– Pode ser!… Você dirige, Teófilo?

– Por que eu? O carro é para você…

– Ainda estou um pouco inseguro…

– Tudo bem!

E assim o fizeram. Teófilo e João foram na frente e Iracema no banco de trás. Enquanto dirigia, Teófilo apontava as características da dirigibilidade do fusquinha:

– Está com uma pequena folga no volante, mas isso é fácil de arrumar… Arranha um pouco a segunda marcha, você terá que pegar o jeito… Não funciona o temporizador do limpador de para-brisas… Espere! Posso parar aqui um pouco? Tenho que comprar ração para minha cachorrinha.

– Pode! – Interfere Iracema – Enquanto você compra a ração, damos mais uma volta. Desta vez o João dirige…

O nosso sonhador teve mais uma morte súbita e tornou a vida… Aquilo significava uma vexame!… Como faria para dirigir ao lado daquela beldade de olhos escuros e cabelos lisos negros como a noite?… Ele não sabia, mas estava duplamente apaixonado: pelo fusca e pela vendedora. Sentia-se um adolescente tímido que não sabe lidar com suas paixões… Tinha medo de interagir com o carro dos seus sonhos… Tinha medo de conversar com a mulher dos seus sonhos… tinha medo de demonstrar o medo que sentia em estar ali, diante dos dois.

– Iracema, será que não vou passar vergonha? Fiz a carteira de motorista há pouco tempo.

– Não esquenta! Eu não sei dirigir, portando estou num nível abaixo do seu… Liga logo esta máquina!…

– Estranho!… Uma vendedora de carros que não sabe dirigir…

– Sou uma simples funcionária, que aliás está com sua cabeça a prêmio…

– Como assim?

– Nada não! Esquece…

Meio inseguro e contrariado, João dá a partida e segue devagar para diminuir o risco de cometer erros nas manobras.
– Isso está me parecendo armação… – Pensava ele com as mãos firmes no volante e os olhos atentos no trajeto.

A volta foi maior que o necessário, durou tempo suficiente para nosso sonhador acostumar-se com o fusca e com a morena… Logo já estavam a vontade, conversando sobre tudo. Enquanto conversavam, Iracema observava cada detalhe do João: Os cabelos curtos e um tanto ondulados castanho-escuros, as sobrancelhas grossas quase se encontrando, os olhos cor de mel que ficavam ainda mais bonitos por detrás das lentes dos óculos, a boca carnuda, o sorriso encantador, a pele branca típica de um luso-descendente, as mãos um tanto delicadas, porém firmes no volante do possante azulão… No dedo anelar direito, um anel de Tucum que lhe chamou especial atenção. Não exitou em perguntar:

– Você é seminarista?

– Não!…

– Ainda bem! Eu não gostaria de ficar com um seminarista…

Aquelas palavras deixaram transparecer que havia reciprocidade de sentimentos naquele veículo automotor ano 71… Porém, João conteve-se e manteve a postura, fazendo-se de ingênuo:

– Por que a pergunta?
– Porque você está usando este anel preto… Pensei que só os seminaristas e os padres usassem.
– Este é um anel de Tucum e significa compromisso com as causas populares. Um dia eu posso te contar a história toda dele… Mas eu uso porque acho bonito mesmo.
Nosso sonhador de sonhos azuis também sabia deixar as coisas no ar. Deixou clara a intenção de revê-la numa outra ocasião… Passaram então no pet shopping para pegar o Teófilo que voltou de mãos vazias.

 

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Sonhos Azuis – CAPÍTULO VII

 

Adam é um bem sucedido empresário, herdeiro dos negócios de seu pai que começou comprando, reformando e vendendo carros usados, dando início a uma revendedora, hoje autorizada e perfeitamente documentada de veículos… Porém, mesmo vivendo mais um fim de ano, os negócios não andam nada bem para este jovem empreendedor que luta para aumentar seus lucros, apesar de já ter dinheiro o suficiente para viver confortavelmente por muito tempo. Emprega duas pessoas em sua garagem de revenda, um rapaz e uma moça. Por conta do movimento fraco, deu férias para o rapaz, mas fez um brilhante e sinistro jogo psicológico com a moça, dizendo-a que seria despedida caso não fizesse ao menos uma venda em uma semana… Nosso microempresário acorda, desafortunadamente mais tarde neste dia:

Bom dia, querida! Que hora são?
Oito e meia, meu amor!
O que?… Eu já deveria estar trabalhando! Disse para minha mulher que voltaria de viagem ainda hoje e que passaria em casa antes de ir para a revendedora… Deixei o carro na garagem da revenda para não levantar suspeitas, mas se a loja abre sem mim, minha mulher pode passar por lá e vê-lo, pensando que eu me encontro no recinto… Poderá entrar para falar comigo e tirar satisfações, visto que não passei em casa antes.
Não aguento mais esta situação. Você trate de escolher: ou eu , ou ela…
Querida, você sabe que te amo, mas para mim é difícil abandonar meus filhos…
Cansei de mendigar seus carinhos. Para mim chega! Me deixe em casa!
Mas meu bem…
Adam, há dois anos que você me engana e eu fico sempre com as sobras.

É, parece que aquela manhã de verão não amanheceu nada bem para nosso engravatado, mas ele poderia resolver o assunto com a amante depois. O importante agora era chegar o mais rápido possível na loja para tocar os negócios antes que sua mulher suspeitasse qualquer coisa, visto que seu escritório de contabilidade ficava no caminho da revendedora e se ela visse o carro do marido o tempo poderia fechar de vez.

Cadê meu celular?…
Na cabeceira da cama…
Mais essa agora. Tenho que ligar para a loja. Espero que aquela inútil já esteja lá…
Inútil? Até ontem ela era sua funcionária mais querida… O que houve? Ela não quis fazer o teste do sofá como eu?
Ah! Não amola!

Sua amante, esticada seminua, na cama daquela suíte de motel de luxo, ria despreocupadamente, um riso sarcástico, quase infantil, enquanto Adam tentava se justificar ao telefone:

Alô! Iracema?!
Bom dia, Adam… Temos um cliente querendo comprar o fusquinha azul…
E você não foi capaz de fechar negócio com ele, sua desnecessária?
Seria, se o carro estivesse aqui…
Onde está, afinal?
Esta com você, lembra?
Certo!…

Arrependeu-se da gafe, mas tentou não demonstrar… Não fica nada bem um patrão admitir o erro diante da plebe. Mesmo estando sentado a beira de uma cama de motel, com alguém que não é sua esposa, é preciso manter a classe que só os nobres têm.

… Já estou indo! Tive que passar na oficina fazer uns reparos… Carro velo é um problema, até foi bom aparecer um comprador, assim nos livramos desta bucha…
O que digo para o cliente?
Diga que já estou a caminho…

Ao voltar-se para a loira de olhos azuis, ainda na cama, exibindo um corpo bem desenhado e estonteante, percebe, pela primeira vez, o descaso em seu olhar que parecia tão excitante na noite anterior. Tiveram momentos de pura delícia, entregaram-se de corpo e alma para os prazeres carnais e imorais que só as coisas proibidas têm o poder de proporcionar aos mortais superiores do capitalismo selvagem. Há dois anos tinham a mesma rotina, nas horas vagas encontravam-se às escondidas, realizaram várias viagens juntos. Mas agora, ela estava decidida a acabar com aquela história, afinal já havia conseguido sugar de seu amante um apartamento, um carro zero e uma vida relativamente confortável, resultado de um único esforço: oferecer-lhe o melhor dos prazeres carnais… E isso a ninfeta tirava de letra. Adam dirige-se a ela em tom nervoso e egoísta:

Vista-se!… Tenho que ir para a loja o mais rápido possível.
Eu não tenho pressa…
Mas eu tenho… – Segurando-a pelos ombros- Tenho muita pressa. O meu casamento está por um fio, meus negócios não vão nada bem e você ainda tem humor suficiente para ser irônica comigo?…
Ai! Não faz assim que eu gamo, gato!…
Chega!… – jogando-a contra a cama – Vista logo esta droga de roupa que eu estou atrasado. Deixo você em casa… Seja discreta… Ainda bem que não estou com meu carro…
Havia esquecido que saímos com aquela lata velha azul… – vestindo vagarosamente a roupa – Odeio a cor azul!… É muito melancólica, me causa náuseas…
Você sabe ser deselegante quando quer…
Sou a amante… Esqueceu?… Tenho direito de ser complicada sem que meu parceiro ache isso o cúmulo.
Pois isso não me agrada mais!

Já vestidos os dois na lata velha azul, da cor das melancolias da filial loira, Adam resmunga reclamando o dia terrível que o esperava depois de uma noite maravilhosa. Não sabia o que fazer para correr contra o tempo… Sabia que tinha que passar pelo centro da cidade antes de ir para a revendedora, mas desta forma, passaria obrigatoriamente em frente a loja, podendo ser visto com outra mulher, e o pior, com outro carro… carro não, uma condução azul. Tudo isso para mascarar a situação… Preferiu dar a volta pela rodovia, fazendo o dobro do percurso. Estaciona a condução uma quadra antes do prédio da bonequinha loira:

Tchau querida!… Quando nos vemos novamente?
Por mim, nunca mais. Ou você me assume, ou não me procure mais!
Não tenho tempo para balelas, desça logo…

Ela desce indignada, mas sem perder a pose, jogando a bolsa sobre os ombros, ajeitando o vestido e batendo os calcanhares na calçada. Adam sai cantando pneu no asfalto rumo a revendedora para salvar uma venda e um casamento…

 

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Sonhos Azuis – CAPÍTULO VI

 Capítulos anteriores

Ao chegarem na revendedora, os dois irmãos de coração não avistaram o tal fusquinha azul. João para desconsolado, olha para todos os lados, vê todo tipo de carro: esportivos, utilitários, novos, seminovos, velhos, muito velhos, de todas as cores e modelos… porém a materialização de seus sonhos azuis não estava lá. Por um instante sente o chão desaparecer de seus pés, uma lágrima quase rola em seu rosto… Suas esperanças caíram no abismo, estava condenado a ficar, sabe Deus mais quanto tempo a pé… Não lhe agradava outro carro, queria aquele azulão, foi amor a primeira vista. Sua reflexão melancólica foi interrompida pela voz de Teófilo:
Cadê teu fusca, home de Deus?
Sei lá!… Acho que já venderam, vamos embora…

No segundo passo em direção a rua, ouve-se uma voz feminina e doce, que soou como música aos ouvidos do pobre e desanimado João dos sonhos Azuis:
Em que posso ser útil, senhores?
Como num passe de mágica, João paralisa e lentamente, nosso sonhador volve-se para trás novamente, ao som daquelas cordas vocais que penetraram seus ouvidos em direção ao coração, fato que, por um segundo o fez esquecer de toda a tristeza que invadia seu peito naquele momento. Agora encontrava-se frente a frente com o exemplar mais maravilhoso do sexo feminino que já havia visto: Seus cabelos longos, incrivelmente lisos e negros como a noite chegavam a reluzir com o sol da manhã e mover-se lentamente com a brisa, presos por uma discreta tiara, tergiversando um rosto puro e angelical de pele morena… Aqueles olhos negros e brilhantes pareciam penetrar sua alma como uma flecha que apesar de dolorida, era incomensuravelmente prazerosa… Um sorriso encantador, meigo e contagiante que alegraria até mesmo um cortejo fúnebre, composto por uma dentição perfeitamente formada. Um corpo escultural pelo que deixava-se revelar debaixo de um terninho azul-marinho e camisa branca… Todo este monumento perfeitamente acomodado sobre um par de pés de princesa que calçava sapatos pretos, conduzindo-a ao encontro dos dois jovens… Nosso sonhador azul não conseguia desviar o olhar daquela formosura personificada, mas seus ouvidos puderam ouvir a voz de Teófilo, que subitamente o faz voltar ao mundo real:
João, ela tá falando com a gente!

Quem?

A moça.

Há, sim! – E voltando-se novamente para sua mais nova musa – Bom-dia, senhorita!

Bom-dia! Posso ajudá-los?

Acho que não, queria testar um fusca que vi ontem, mas parece que já venderam…

Que pena, foi vendido ontem, no final da tarde.

Neste momento, João estremeceu por dentro, achando que tudo estava perdido, quando a moreníssima vendedora continuou:

Era um vermelho, né?

Não! Ontem eu olhei um fusca azul, estava aqui, perto da cerca…

O azul?… Ontem esteve aqui um senhor dando uma olhada, mas acabou levando um carro mais novo e financiou em trinta e seis vezes.

Entendo! Mas onde está o fusquinha azul então?

O Adam foi com ele para casa ontem.

Adam!?… Foi com ele que eu conversei na tarde de ontem.

Você é o João?

Sim, sou eu…

Adam disse que você viria hoje. Daqui a pouco ele chega. Quer aguardar?

Sim!

Dentro de meia hora ele deve estar aqui, vamos entrar. Vocês aceitam um cafezinho?

Claro! – Olhando para o crachá – Obrigado Iracema!

As ordens!

João parecia mais leve com a possibilidade de voltar para casa a bordo de seu sonho azul, enquanto entravam no escritório, não pode deixar de observar novamente Iracema que parecia desfilar a caminho da porta, como numa passarela… Nem sentiu o gosto do café, poderia estar frio, fraco e amargo que não faria diferença diante da beleza inenarrável que a sua frente observava. Sobre o teclado do computador, deslizavam dedos finos, de unhas bem cuidadas em duas mãos de fada que lhe deixavam quase extasiado.

Enquanto isso – estorvava Teófilo perguntando para a moça– podemos dar uma olhada nos outros carros?

Fiquem a vontade, se precisarem de ajuda é só chamar.

E lá se foram os dois irmãos de sentimento, se distraírem um pouco com os outros modelos a venda. Teófilo, não se conteve:

Você não tirava os olhos da moça, João!

Bonita, né? – Na verdade, ele queria dizer linda, maravilhosa, formosa, extraordinária, sobrenatural… e tantos outros adjetivos que aquela beldade merecia…

Será que meu melhor amigo está apaixonado?

Magina! Já não dou mais bola para estes sentimentos ilusórios…

Aquela meia hora parecia demorar uma eternidade… João dividia-se entre a ansiedade de ver o fusquinha azul e levá-lo para casa e a vontade quase incontrolável de voltar ao escritório para aproximar-se novamente da vendedora, mas conteve seus impulsos e permaneceu observando os demais veículos à venda… De vez em quando, com o canto dos olhos fitava o escritório discretamente e por duas vezes, cruzou seu olhar com aqueles olhos negros que o fizeram quase perder o rumo da conversa com seu amigo.

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Sonhos azuis – Capítulo IV

Leia desde o primeiro capítulo…

 

Bom-dia, Caçador! Sete horas e cinco minutos, temperatura na marca dos dezoito graus. Hoje é dezoito de dezembro. Faltam sete dias para o natal e catorze para o ano novo!…

Dizia insistente o locutor no rádio-relógio meio distorcido na cabeceira da cama, transmitindo o Cheiro de terra da Rádio Caçanjurê.

Era hora de voltar a realidade, despertar para a vida… João estava de férias, mas fazia questão de acordar cedo afim de resolver de uma vez por todas o negócio do veículo. Encontra sua mãe, como sempre, na cozinha tomando chimarrão… Antes mesmo de tirar a ramela dos olhos, joga-se no colo dela, como sempre, rouba sua cuia e sorve todo o líquido… O telefone toca:

– Bom-dia, João!

– Bom-dia, Teófilo!
– A que horas vamos buscar teu fusca?

– Não tá nada certo ainda, mas vou as oito e meia conversar com o vendedor. Se der certo preciso da sua ajuda para trazer o carro. Tenho medo de trazê-lo sozinho. Minha carteira ainda não está pronta.
Pode contar comigo. Estarei lá às oito e meia.
O pior que pode acontecer é voltarmos a pé novamente.

O café da manhã pareceu mais lento naquele dia. João temperava cada mordida com uma dose de ansiedade, em cada gole um pouco de insegurança, mas a esperança permanecia quentinha em seu coração.

Parece estranho tanta bajulação para um veículo fora de linha há muito tempo, mas era exatamente assim que nosso sonhador de sonhos azuis se sentia ao lembrar daquele fusquinha da cor de seus sonhos naquela garagem, ou quem sabe estaria na casa de seu novo dono, o que seria uma lástima, pois significaria a perda do negócio e do seu sonho atual. Cada vez que pensava naquele fusquinha, seu coração sonhador disparava desenfreado, desalinhado e descalibrado: uma mistura de sentimentos: Alegria, pela possibilidade de tê-lo, tristeza pelo medo de perdê-lo e insegurança, por não saber lidar com os outros dois sentimentos.

Ao escovar os dentes, sua ansiedade só aumentava, falava com ele mesmo no espelho, perguntava, respondia, aconselhava-se e ria meio se segurando, pois o mundo exterior não precisava saber daquele momento de retardo mental… Só ele entendia… Afinal só seu eu interior para saber o que fala uma boca com uma escova e creme dental espumante escorrendo pelas beiras:
Não vamos perder essa, João… Não desanime, pois existem milhares de fuscas neste mundo esperando por um comprador, nos fundões de alguma revendedora que o pegou como entrada em um negócio lucrativo…

Creme dental e escova em seus lugares… e o pensamento também, apesar de viajar um pouco nos seus sonhos azuis. Ao passar na cozinha, como sempre, desamarra o avental da dona Áurea só para vê-lo cair enquanto lava a louça do café…

– Tchau, mãe! Quem sabe eu volte de carro…
– Tchau, meu filho! Juízo, viu?

Nosso sonhador de sonhos azuis, despede-se de sua mãe com um beijo na testa.

– Bença mãe! – Ele pedia a benção de sua mãe para tudo…
– Deus te abençoe, meu filho!

Sai a pé… A caminhada ajuda a mente a pensar mais serenamente… Novamente o rosário nas mãos, coração e mente concentrados e enfocados no sonho que estaria muito perto da realidade… Cumprimenta todos, conversa com os conhecidos que encontra. Pelo menos uma frase, uma palavra, uma expressão ele tinha que dizer a fim de que as pessoas conhecidas no seu caminho soubessem da importância que têm para a sua pessoa. E não é só teatro, João é uma pessoa que prima pelas amizades e por mais que demonstre seus sentimentos, sempre acaba pensando que não é o suficiente. Sempre acha que poderia dedicar-se um pouco mais, dizer mais uma palavrinha de carinho, conforto, gratidão, ou simplesmente uma besteira qualquer para arrancar sorrisos de seus interlocutores. Sempre que se despede de alguém, pensa que não foi amigo o suficiente, sempre fica faltando alguma coisa…

Estava renovado, ainda angustiado, mas com as esperanças recicladas. Todos percebiam o sorriso, mesmo que meio forçado, em seu rosto que ainda revelava um restinho de sono…

Uma esquina antes da revendedora, encontra-se com Teófilo, pronto para ajudar no que fosse preciso. Sempre foi assim desde que se conheceram há dez anos no grupo de jovens da paróquia: sempre ajudaram-se um ao outro e aprenderam a repartir tudo. Em algumas ocasiões, recebeu Teófilo em sua casa com uma única fatia de pão que era cortada ao meio a fim de os dois comerem. Em todos os momentos de fartura, ou dificuldade, João e Teófilo estiveram juntos… Aquela manhã, parecia ser o início de mais um dia marcante na vida dos dois irmãos de coração.

Quanto mais se aproximavam da garagem, mais forte batia o coração do João. Ele sabia que tudo poderia dar certo… ou não… Tentava disfarçar, falar de outros assuntos, mas não tirava da cabeça a imagem do besourinho azul, que perseguiu seus sonhos durante toda a noite. Faltava pouco para aquele tormento se finalizar, muito pouco… Só alguns passos…

 

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Sonhos azuis – Capítulo I

(Onde a ficção se confunde com a realidade)

– “Não!… Não é possível!… Fiz quinze aulas de volante e nunca encostei no cone! Por que, justo no dia do teste eu derrubo a baliza?… Nem eu mesmo me perdoo por esse vexame… Não acredito! O que dirão meus amigos, minha família? Como vou dar-lhes a notícia, já que me saí muito bem em todas as aulas?”… Assim voltava, reclamando para si mesmo o João que acabara de fazer o teste de volante, e mesmo sem saber, tinha a certeza do resultado. Ficou muito nervoso e teve pouca atenção ao realizar o teste… acabou reprovando, pois a Autoescola é exigente, afinal, tem o dever de formar bons condutores de veículos automotores. Mas ele precisava tentar novamente para, enfim, realizar um de seus mais sonhados objetivos…

 

Quinze dias depois, João volta a fazer o teste, após ter realizado mais algumas aulas de volante, desta vez, mais atento… Conseguiu, enfim a aprovação. Uma vitória, pois antes de começar as aulas na Autoescola, mal sabia colocar a chave na ignição. Sem fazer o mínimo esforço para conter sua alegria, João volta para casa, crendo que seria uma das últimas vezes que voltaria a pé, sorridente e quase saltitante de tanta euforia. Tinha vontade de contar a novidade a cada criatura viva que cruzasse seu caminho. Há dez anos que atingira a maior idade, todo esse tempo esperando pelo tão sonhado dia em que teria sua Carteira Nacional de Habilitação em mãos. Agora era só esperar o prazo legal e retirá-la na autoescola onde realizou as provas teóricas e práticas, após alguns dias de curso. Mais um obstáculo vencido em sua vida, que não fora tão fácil assim até o momento para aquele sonhador que nunca perdera as esperanças de ter uma vida melhor e melhorar também a vida de sua família…

 

João… um nome simples e comum, tanto quanto a “Salve Rainha”. Um jovem João, no meio de tantos outros Joãos… Silva, sobrenome também comum, advindo de várias árvores genealógicas… Este é nosso protagonista. Tem muitos sonhos: casar, ter filhos, terminar a faculdade, deixar a vida de peão… sonhos azuis, da cor do mar, da cor do céu… Um de seus sonhos está prestes a se realizar: comprar um carro, seu primeiro… e o mais cogitado é um fusca; pensa que algumas economias sofrivelmente juntadas, sejam o suficiente para a entrada e como seu nome sempre foi limpo, pode financiar o restante em suaves prestações.

Sua mãe, dona Áurea (que significa: da cor do ouro), é a pessoa mais preciosa de sua vida, uma senhora com sessenta e seis anos, amiga da vizinhança e sempre disposta a ajudar no que for preciso… Em sua casa sempre tem chimarrão quentinho e hospitalidade, o que deixa qualquer visitante bem à vontade…Mãe de cinco filhos, sendo João o último e único a morar ainda com ela, que no auge dos seus vinte e oito anos nunca se casou.

Nascido na década de setenta, João não teve direito nem mesmo a um berço, dormia na cama de casal entre o pai e a mãe, nunca presenciou sequer um gesto de carinho entre eles, desde que se conhecia por gente… Seu pai, também João, cujo nome do filho o homenageava, era um carpinteiro de mão cheia, construíra a casa simples de madeira, onde moravam, com as próprias mãos em três etapas, uma delas quando João já tinha seus cinco anos, idade da sua primeira festa de aniversário, dali pra frente, lembra-se mais nitidamente da vida conturbada em família. Certa vez, teve que juntar os cacos de um prato jogado ao chão por seu pai que chegara bêbado e, por algum motivo não se agradara com a comida oferecida carinhosamente por sua mãe. Cresceu vendo um casal derrotado na sua escolha pelo matrimônio. Áurea casou por obrigação, grávida do primeiro filho, então teve mais três e um adotado. Terminou como termina qualquer relacionamento que começa mal: a separação. A senhora guerreira já não aguentava mais viver com um alcoólatra nervoso e violento e João já não suportava tanto sofrimento de sua mãe. Ambos depois de uma briga do casal por causa da bebida, saíram de casa, passaram uma noite na sua madrinha. No dia seguinte, voltaram com novas ideias para lutar pela felicidade e por uma vida mais confortável. Porém, a convivência estava cheia de feridas que, a cada dia sangravam mais. João, o pai, resolve abandonar a família no dia em que João, o filho completava seus dezesseis anos, logo depois de estragar sua festa de aniversário, chegando bêbado. Os convidados, disfarçadamente, saíram um a um… Naquele momento, João assumia, aos dezesseis anos, o papel de homem da casa e conseguiu, enfim construir, com sua mãe um lar feliz…

Dona Áurea, como toda mãe preocupada com seu filho, não gostou muito da ideia de comprar um carro. Parecia perigoso, principalmente pelo fato de seu filho nunca ter dirigido sozinho antes. Passava por sua cabeça vários acidentes noticiados na TV, rádio e jornais, envolvendo veículos automotores nas estradas do Brasil:

“Tem certeza que você terá condições de pagar, meu filho?”

“Olha mãe, prefiro pagar um financiamento a continuar gastando dinheiro com transporte para trabalhar e estudar”…

“Mas, meu filho, carro dá despesa e você ainda tem a faculdade para pagar.”

“Penso que, apesar de tudo, um veículo será muito útil para nós, mamãe. Poderemos ir e vir a hora que quisermos e para onde quisermos, sem compromisso com horário ou passagem, além do mais, já sou bem grandinho e mereço um pouco de conforto.”

Mesmo contrariado, numa sexta-feira, João começa sua busca por várias revendedoras da cidade. Já estava decidido, queria um fusca, carro simpático e apaixonante, além de ter manutenção barata… Na primeira revendedora, encontra um besourinho branco, ano 94.

“Se você quiser, pode levá-lo para passar o fim de semana com ele, e na segunda-feira, fechamos negócio.” – Disse simpático e interesseiro, o vendedor.

“Não posso! Minha carteira de motorista não está pronta e ainda me sinto inseguro”

“Onde você mora?”

“Fica um tanto longe.”

“Pode levá-lo! No trajeto até sua casa não tem polícia, principalmente se for pelos bairros, desviando o centro e as rodovias.”

“Obrigado! Prefiro não arriscar, mas daqui a pouco volto com um motorista.”

Teófilo, seu melhor amigo, irmão de coração, inclusive, considerado como filho por dona Áurea, é um jovem que tem muito em comum com o João: Não bebe, não fuma, é caseiro, não gosta de relações fugazes, prefere compromissos sérios… Um ano e meio mais novo que João, porém com muita experiência ao volante. Seu melhor amigo foi o primeiro a visitar seus pensamentos quando tentou providenciar um motorista. Teófilo (que significa, amigo de Deus), aceita prontamente, volta com João à revendedora e conduz o fusca até sua casa… Antes resolvem dar uma passeada pelas ruas da cidade, já que ao volante estava agora um motorista de verdade, com carteira e tudo. Durante o trajeto, o fusca apaga duas vezes, numa delas, João precisa descer e empurrar…

O carro é maravilhoso. Tem tudo o que o João sonhava, menos uma bateria forte. No segundo dia teve que fazê-lo pegar no tranco de novo. Um martírio!… Se passasse o fim de semana a pé, os transtornos, com certeza, seriam menores. Abandonou aquela condução em frente a sua casa por todo o resto do sábado e durante o domingo.

Na segunda-feira, depois de fazer o carro funcionar na quinta tentativa, em companhia de Teófilo, devolve o fubicão de tração humana ao vendedor, que apressadamente pergunta, já com a nota na mão e pronto para imprimir o boleto:

“E aí, vamos fechar negócio?”

“Não! A ideia de ter um carro que constantemente precisa pegar no tranco, não me agrada. Também não preciso de um poço de óleo em frente à minha casa, que só serve pra bonito, sem realizar sua tarefa principal que é transportar-nos para onde quisermos.”

“Não fique nervoso… – prosseguiu o vendedor – Sentimos muito pelos transtornos causados no fim de semana. Podemos resolver todos estes problemas fazendo uma revisão geral… Ou, se não lhe agrada, temos outros veículos melhores e mais novos…”

“… E por consequência, mais caros… Não! Prefiro ficar a pé e o meu objetivo é um fusca: é mais a minha cara…”

Procurou por alguns dias em várias revendedoras de Caçador, sem sucesso. Nada lhe agradava…Um vazava óleo, outro tinha problemas mecânicos, outro estava com estofados em estado lastimável, outro ainda, apresentava uma décima camada de pintura muito meia boca e precária… Só encontrava bomba: Volante tampinha de margarina com duas voltas e meia de folga, pneus carecas desalinhados e desbalanceados, assoalho podre, lataria pré-histórica, ausência de pedal de acelerador, extintor ou retrovisor, parte elétrica comprometida… tudo em terrível estado de conservação e superfaturado por seus vendedores…

Quando estava quase desistindo, distraidamente passa em frente a uma revendedora, que ainda não havia recebido sua visita por pensar que só tinha carros de valores muito altos, a julgar pelo capricho e beleza de sua fachada (um infeliz engano) , onde viu projetado todos os seus sonhos, fato que o fez pensar diferente: Lá estava ele: lindo, inteirão, polido, simpático e sorridente: Um fusca azul, da cor do céu, da cor do mar, da cor de seus sonhos…

Após alguns segundos, onde o tempo pareceu parar, seus olhos não conseguiam se mover, seu sorriso não deixava de brilhar naquela face sofrida e esperançosa, seus pés já não sentiam o chão… Estava nas nuvens, flutuando diante de uma máquina simples, de tecnologia alemã, criada para a guerra, que se tornou o carro mais popular do Brasil e quiçá do mundo… De olhar estático e admirado, o boquiaberto João é surpreendido por um vendedor simpático e disposto a ajudá-lo.

“Em que posso ser útil, senhor?”

“Hã?… Como?… Ah! Quanto custa aquele fusca azul?”

“Sinto muito, mas já estamos fechando negócio com ele.”

Por um instante, nosso sonhador de sonhos azuis perdeu o chão, desta vez de desgosto. Sempre andou a pé. Nunca tivera a oportunidade de dirigir seu próprio automóvel para se locomover com mais rapidez e conforto. Finalmente, depois de vinte e oito anos, tem em mãos sua carteira de habilitação, conquistada com muita dedicação e perseverança. Nunca conseguiu economizar o suficiente para realizar seu único sonho de consumo… Agora que estava prestes a satisfazer seu ego com um carrinho da cor de seus sonhos, é surpreendido com uma resposta negativa que o deixa remoendo de remorso por acreditar numa ilusão fantasiosa, quase uma obsessão… Pobre João! Era tudo o que sonhara até então… Sua única pretensão de consumo, razão das suas economias… Sentiu uma lágrima correndo teimosa e dolorida em seus olhos, mas conteve-se. Baixou a cabeça e dirigiu-se vagarosamente, sem palavras até a saída da revendedora. Quando pode ouvir, de longe o vendedor dizendo:

“Volte amanhã. Se o cliente não fechar negócio hoje a tarde, conforme o prometido, eu seguro o fusca pra você.”

João, então ergue a cabeça de vagar, sem acreditar no que seus ouvidos acabaram de escutar, respira fundo e trêmulo, vira-se desconfiado para trás, perguntando:

“Está falando comigo?”

“Sim!”

“Quer dizer que ainda tenho uma chance?”

“Amanhã, logo cedo.”

“Combinado! Amanhã estarei aqui às oito e meia.”

Nosso sonhador, vê então, ressuscitar seu sonho azul polido, inteirão, de estofado preto e películas cinquenta por cento nos vidros… Volta para casa com uma esperança renovada em seu peito de sonhador, Queria muito levar seu automóvel, razão de suas economias sofrivelmente juntadas, no dia seguinte… Porém, com aquele frio na barriga que aperta desde os rins até a garganta, expressando o medo de ouvir outra resposta negativa… Talvez não suportaria mais um tombo, mas precisava tentar… era sua última e preciosa chance. Poxa! Todos os seus amigos tinham carro, só ele sempre a pé. Seu sonho era simples: um fusca… Só um fusquinha… Não estava exigindo muito da sorte: “Só um fusquinha” – pensava ele… “Nada mais que um fusquinha…”

 

Capítulo II

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