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Tag: silicone

Peitão

 

Ela era linda! Corpo perfeito (pelo menos para os pseudo-padrões), rosto bonito, olhos estonteantes… Mas tinha um defeito, aliás muitos defeitos, como todos os seres humanos os têm. Não podemos escapar deles. Mas imperfeição trata-se de um ponto de vista: o que é defeito para uns, pode ser qualidade para outros… Como as mulheres nunca sabem quais são os quesitos considerados qualidades pelos homens de verdade, procuram mascarar aquilo que acreditam ser feio com quilos de maquiagem, roupas que valorizam esta, ou aquela parte do corpo, barriguinha a mostra, bermudas e microssaias menores que o cinto… Ou seja, procuram mostrar aquilo que desperta os machos e quando não têm, preferem mascarar, ocultar a essência… Os principais defeitos dela eram: orgulho, sentimento que nos faz ver os outros de cima para baixo e a vaidade excessiva, que nos deixa irremediavelmente descontentes com aquilo que somos e aquilo que temos. Estes, juntos, dão origem a um terceiro, muito querido pelo capitalismo, aliás, criado por ele: o consumismo…

A menina bonita contemplava seu lindo corpo nu no espelho, enxergando aquilo que ninguém mais via ao seu redor, mesmo quando estava quase devidamente vestida: uma celulite aqui, uma estria ali, uma pintinha indesejada acolá… De repente, seus olhos param naquele lugar que nos alimenta nos primeiros meses de nossa vida terrena, algo divino, capaz de fazer um bebê com cara de joelho virar o xodó da família através do leite materno… Mas ela não via todas essas vantagens, só percebia seus seios muito pequenos… “Os homens não gostam”, pensava ela acariciando os mamilos. Estava depressiva, percebia-se feia, descontente… Seu corpo não era perfeito. Não se sentia feliz. Os homens jamais quereriam namorá-la, ou simplesmente pegá-la daquele jeito… A jovem linda, então chorou de desgosto por não poder agradar aos olhos e às mãos de seus possíveis pretendentes. Precisava estufar mais o sutiã e as mãos do ficante. Necessitava chamar a atenção para os desejos mais promíscuos dos homens ao seu redor. Queria ser sexy… gostosa… Não bastava um rosto bonito, um corpo (agora quase) perfeito… Queria mais… Queria ser desejada pelos homens mais pegadores, mas para isso era preciso ter peitos maiores… Só queria ser linda o suficiente para não perder nenhuma chance com o sexo oposto…

Depois da sessão depressão, a garota que já agradava aos olhos alheios, se vê tomada pelo orgulho, vaidade e consumismo. Envolvida por estes sentimentos, procura então um médico a fim de melhorar a autoestima e turbinar seus peitos… Consulta feita, cirurgia marcada… a solução para todos os seus problemas estava a um passo de se realizar… Um ato cirúrgico e duas próteses de silicone seriam o suficiente para que os machos mudassem o conceito sobre aquela fêmea infeliz até então…

Depois da cirurgia, o pós-operatório que quanto maior o avanço da medicina, menor é seu tempo… Processo feito, recuperação sofrivelmente vencida. Novamente, encontra-se nua no espelho, contempla aquela obra magnífica da ciência que transformou duas laranjinhas em melões suculentos e chamativos… Agora estava linda, gostosa, apetitosa, nutritiva: Uma cavalona!… Seus seios pareciam ter sido esculpidos no torno, de tão perfeitos… Precisava divulgar o resultado com urgência. Foi às compras: mais decotes, menos sutiã, mostrava quase tudo, deixava um pouco para as mentes criativas masculinas imaginarem, mas se desse mole, certamente comprovariam in loco… Nunca pegou tanto, nunca foi tão pegada… Estava feliz… Sempre tinha companhia… Todos os machos queriam acariciar seus peitos, sonhavam em cair de boca naqueles melões simétricos, durinhos, empinados, sempre olhando o infinito. Ela era agora uma mulher de peito… Havia satisfeito seus mais profundos desejos sexuais e os dos seus parceiros também, não queria mais nada além de curtir a vida…

E eis que vieram os sintomas: a ardência nos seios perfeitos, a febre, a infecção… O médico de novo, os exames e a constatação: seu sonho de um corpo perfeito se rompeu. Os melões não eram tão perfeitos assim, tinham um grave defeito de fábrica que jamais seria considerado virtude por alguém: silicone industrial, de qualidade contestável, impróprio para o uso no corpo humano… A indústria fez o mesmo que aquela mulher para esconder seus defeitos: mascarou, maquiou, enganou… Agora ela era a vítima. Outra vez na mesa de cirurgia. Era preciso retirar, urgentemente os peitões tão sonhados por ela para que não causasse maiores danos. A recuperação foi muito mais dolorosa… Onde estavam agora aqueles que caíram de boca nos seus melões artificiais?… Por onde andavam os homens que lhe fizeram companhia e trocaram prazeres carnais? O que seria dela agora, sem seu atrativo principal?…

Seu maior erro foi achar que, chamando a atenção para o sexo, seria feliz… Só queria ser popular… E conseguiu! É capa de jornal! Teve implantada uma prótese da empresa que agora está proibida de comercializar seus produtos no Brasil… Mas todos daqueles que usufruíram de seus dotes corporais, agora somem. A eles não interessa a fama, o que importa é que, em algum momento de suas vidas, puderam se gabar  que pegaram uma mulher gostosa…

Ela vive a amargura da derrota e do abandono. O corpo é só a casca… “O essencial é invisível aos olhos”, dizia a raposa ao pequeno príncipe na obra de Exupery… Ela cuidou demais da casca e esqueceu-se da essência… Mascarou a realidade a fim de escondê-la. Mas a realidade agora é outra, está mutilada, em nome da vaidade e do consumismo…

Um homem de verdade, olharia sim para seus peitões, mas quando seus desejos descessem dos olhos para a genitália, passariam, inevitavelmente pela avaliação do coração. Este não julga somente o que vê, mas pesa muito o que sente. Portanto, minhas queridas, se quiserem um príncipe encantado, é necessário ter comportamentos e sentimentos de princesa, do contrário terão companhia na balada e na cama, mas ficarão solitárias nas intempéries da vida, principalmente quando a casca for danificada…

Pena que ainda não inventaram uma prótese que aumente o coração, a fim de podermos ver melhor aquilo que os olhos não enxergam…

Márcio Roberto Goes

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