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Tag: Rádio caçanjurê

Nostalgia radiofônica

Por conta da divulgação do meu romance de folhetim visitei, esta semana, os estúdios da Rádio Caçanjurê AM e da 92 FM…

A recepção de cara nova, a sala do chefe, agora reciclada, onde no dia nove de setembro de mil novecentos e noventa e seis, às onze horas da manhã, eu recebi a triste notícia da minha demissão, a nova sala da chefe, outrora um depósito, a manutenção, o atual departamento de jornalismo… A antiga sala do mestre Joair dos Santos Lima, apesar de um pouco diferente, permanece lá a espera do jornalista mor de Caçador. A impressão que dá é que ele logo volta, vai sentar naquela cadeira, ajeitar os bigodes e fazer jornalismo na velha máquina de escrever… Voltei no tempo, eu era sonoplasta do jornal, rodava as entrevistas num rolo de fita gigantesco que, às vezes apanhava e distorcia a voz do entrevistado, via através do aquário o seu Joair se segurando pra não rir… Hoje, o entrevistado sou eu e minha voz é fielmente captada por um aparelho minúsculo nas mãos da comadre Rita Martini, que começou a carreira um pouco antes de mim e ainda permanece lá, com Denilson Araújo, Luiz Roberto Damaceno, contundido, a Anne que sinto não conseguir escrever corretamente seu sobrenome, o Flavinho e, é claro, a Tia Ita que me recebeu com a hospitalidade de sempre e me levou conhecer as novas instalações das emissoras de rádio caçadorenses…

Na sequência, não tive como deixar de parar na discoteca, repleta de vinil em desuso e, quem diria, cheia de CDs também obsoletos. Novamente, minha criatividade nostálgica desenhou em meu cérebro a imagem daquele operador de som, apelidado por um dos locutores de Garibaldo,  perdido no meio dos bolachões, segurando o disco com a mão até que o locutor anunciasse a música e a agulha, que já estava no ponto, pudesse transitar livremente sobre a superfície do vinil e levasse ao ar o pedido do ouvinte… Isso até enroscar e o sonoplasta ter que dar uma sopradinha de leve na agulha para que ela pulasse o furo… Quantas vezes o sopro era mais forte que o necessário e a agulha ia parar na última faixa, obrigando o operador a abrir o microfone e o locutor a improvisar diante da situação quase constrangedora…

Paramos no estúdio da 92 FM: Tudo diferente, um locutor diante de um computador, cujo monitor de LCD é fixado na parede. Tudo programável, tudo agilizável. Dá até tempo de bater um papinho com a visita, o bloco de comerciais é programado automaticamente. Tem até uma câmera que transmite as imagens em tempo real pela internet… Me senti no BBB… Deus me livre! Sem falar na porta de vidro, que deu um designer todo moderno para a emissora…

E a Caçanjurê? Meu ganha-pão durante três anos de minha vida… Não está mais lá. Agora, de um lado do aquário, é CPA (centro de produções de áudio), do outro é estúdio reserva… Retrocesso de tempo em minha mente de novo: Lá estava eu, dez quilos mais magro e catorze anos mais moço, fones nos ouvidos, microfone a frente na mesa redonda, acordando o povo com o “Cheiro de Terra” e tomando chimarrão com o pessoal no Entardecer na Querência. Durante mais de dois anos conversei com os ouvintes dentro de um estúdio isolado acusticamente, tendo um sonoplasta do outro lado do vidro como companhia… Às vezes, era necessário assumir a técnica também, levava o microfone para o outro lado do aquário e fazia tudo sozinho. Os comerciais eram rodados em três cartucheiras. Os cartuchos utilizados eram de fita K7 que enrolava e desenrolava no mesmo rolo, parando com um bip, que às vezes, vazava no ar, armazenados em uma torre rotatória ao lado da mesa de som. Cada comercial, ou vinheta ocupava um cartucho, portanto, o sonoplasta precisava dar o play em cada comercial separadamente. Um servição que era cumprido agilmente a cada trinta segundos. Por vezes, estava no ar, sozinho, enquanto falava com o povo, puxava um cartucho para a próxima vinheta e sem perceber, a torre toda vinha abaixo. Quem ouvia em casa devia pensar que estava desmoronando a rádio, tamanha era a barulheira… Mas o ruído maior era a mijada do chefe depois…

E onde era o CPA, agora funciona o estúdio da Caçanjurê. Lá encontrei meu amigo Flávio Henrique, solitário, sendo ouvido pela cidade inteira. A tecnologia não precisa mais do trabalho do operador… Tudo me pareceu diferente, novo e de uma estranheza que nos faz pensar o quanto a humanidade evolui sem perceber… Flavinho está no ar, é o show da manhã… Sem aviso prévio me chama para bater um papo ao vivo… Apesar de um pouco enferrujado, consigo dar meu recado… É preciso muito talento para falar na latinha sem saber quem está ouvindo do outro lado… Ser radialista é amar a solidão que reúne multidões, é preciso isolar-se fisicamente do mundo ao seu redor para que o resto da população tenha acesso a ele, se torna necessário abdicar a própria liberdade, momentaneamente para que seus ouvintes sejam livres para analisar as informações audíveis através dos amplificadores. É essencial renunciar ao direito de ir e vir, para que sua voz ecoe em todos os cantos da cidade e penetre nos mais diversos e longínquos lares, ganhando também o mundo através da Internet… Este radialista meia boca que vos escreve tomou outros rumos. Sou imensamente feliz como professor e escritor. Mas, confesso, naquele momento me deu um nó na garganta, uma saudade gigantesca e uma imensurável contrição por não fazer mais parte do mundo fascinante da radiodifusão…

Mas eu não poderia deixar o recinto sem antes relembrar o cafezinho da tia Ita. As xícaras ainda são as mesmas, o cafezinho continua saboroso e a hospitalidade não se corrompeu com o passar do tempo…

A Rádio Caçanjurê é patrimônio histórico de nossa querida Caçador, a história dela se confunde com a história de muitos caçadorenses, incluindo este que vos escreve, cujos olhos avermelham-se neste momento e as lágrimas teimam em escorrer pelo rosto, numa homenagem passional e nostálgica deste que, por três anos, fez parte de sua equipe…

Márcio Roberto Goes

www.portalcacador.com.br
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