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Tag: passarinho

Coração alado

Fonte: moisesaugusto.blogspot.com
Fonte: moisesaugusto.blogspot.com

 

Quarta-feira, logo após o dia de finados. Depois de um feriadão, fica até difícil subir as escadas… Meus pés não obedeciam ao comando do cérebro para mudar os passos rumo ao terceiro piso, onde ficam os cursos de ensino médio, mas meu coração é apaixonado pela educação e, se os pés não obedecem ao cérebro, são submissos ao sentimento passional que os guia até o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas e estar perto da juventude: a sala-de-aula…

Mas minha rotina retomada depois do merecido descanso é bruscamente interrompida por um cadáver em pleno corredor da escola… “Meu Senhor da Glória!” O que é isso?… O pior é que, cada aluno que passava por perto não sossegava enquanto não dava um chute no miserável do defunto que , ao que parecia, era fresco, a julgar pela consistência e indolência daquele corpo cadavérico e solitário de um pobre passarinho…

Aparentava ser um pardal… Meio cinza, meio preto, meio… sei lá… cor de burro quando foge… Ou melhor, cor de passarinho quando morre… Só sei que meu coração passional pela educação se sentiu comovido por aquela cena desumana se desencadeando em minha frente. Interrompi a tortura futebolística necropsial para tomar conhecimento da situação… Pouco adiantou, pois ninguém sabia dizer o que houve com a pobre ave falecida…

Pois bem, meu coração que já quase esquecera do compromisso com os alunos, guiou meu cérebro para buscar uma solução, afinal, ninguém pode trabalhar sossegado sabendo que lá no corredor existe um pobre corpo que perde a inércia por causa de outros corpos que se julgam melhores só porque estão ainda vivos e têm pés maiores que o cadáver em questão, achando no direito de chutá-lo sem dó nem piedade…

Peguei o pobrezinho pela cauda e o desloquei até a direção, a fim de se tomar as devidas providências… Enquanto descia aos olhos admirados dos demais estudantes e professores que por mim cruzavam, pensava em como dar um enterro digno àquele pobre ser que chegou ao fim de seus dias como eu gostaria: dentro de uma escola pública…

Joga no lixo! – Disse o diretor, parecendo não dar a devida dimensão ao problema… Lixo? Devo jogar um pobre animal morto no lixo?… E os sentimentos mais sublimes de amor a vida, onde ficam? Só porque era uma ave bem menor que os seres humanos, não mereceu nem mesmo uma cova, por mais rasa que fosse… Pobrezinho!… Miseravinho!… Meu coração, neste momento quase saltou pela goela de tanto dó, mas tive que cumprir a ordem do meu superior…

Porém, onde jogar? Na coleta reciclável não dá: não era plástico, nem metal, ou papel, tampouco vidro… Era uma vida que, apesar de breve, cumpriu seu papel no mundo dos vivos… E tudo o que tem vida, mesmo depois de perdê-la, é matéria orgânica… Então, a única opção era o lixo orgânico, separado dos outros latões bonitinhos e coloridos, fétido, abandonado num canto da escola de forma que o caminhão da coleta possa recolhê-lo e jogá-lo num lixão. Quiçá ainda sirva de adubo para uma outra vida vindoura, seria melhor que entupir um ralo e causar um alagamento num dia de chuva forte…

Tive meus trinta segundos de gari e levei-o até o lixo, mas antes dei uma última observada naquele pobre corpo cheio de penas e já vazio de vida. Seus pequenos pulmões já não sentiam o vir do oxigênio e o ir do gás carbônico, seus olhos já não enxergavam mais o mundo ao seu redor, já não ouvia o canto de seus amigos… Jamais poderia voar novamente rasgando os céus, coisa que o homo-sapiens nunca conseguiu sozinho, precisou anos de estudo até se criar uma máquina capaz de voar como os pássaros que simplesmente se deixam levar pelos ares. São livres, planam quando querem, não dependem de mais nada, nem ninguém…

Mas a vida é curta, seja para os seres humanos, ou para os pássaros… A morte leva quem voa e quem não voa, não faz nenhuma distinção de sabedoria, ou de habilidades. Quando é chegada a hora, nenhum ser escapa… Como dizia minha finada mãezinha: “Pra morrer, basta estar vivo”…

Márcio Roberto Goes

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