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Tag: leite

Sobre o leite derramado

 Já comentei aqui o fato de se procurar toda e qualquer quinquilharia, que na verdade torna-se útil, nas lojas de 1,99, ou de 1,00… Na verdade, por um real não se encontra quase nada, nestes shoppings do povão…
 Pois eu sou um frequentador assíduo deste tipo de comércio, lá encontro tudo o que preciso, e quando não preciso, invento uma utilidade para aquele artigo que normalmente torna-se muito atraente…
 Numa tarde ensolarada de inverno, coloquei aquela roupinha domingueira e saí a pé pela cidade, assoviando uma canção qualquer de Roberto Carlos, cumprimentando amigos, parando nas vitrines para ver as promoções… Coisa de pobre mesmo!… Até que parei numa loja de um real. Adentrei ao recinto, como quem não quer nada, e na verdade não queria mesmo, cumprimentando o povo, peguei uma cestinha e comecei minha busca pelo desconhecido… Tinha certeza que precisava, mas não sabia do quê… Era a magia do comércio, do consumismo, que me dilacerava a alma naquele momento, fazendo-me um ser humano que não se contentava em voltar para casa sem levar alguma tralha de um real para incrementar meu lar… É porta-isso, porta-aquilo, tampa para isso, tábua para aquilo, pendurico para a cozinha, para o banheiro, para o quarto, bacia de todos os tamanhos, penicos também, gêneros alimentícios com qualidade ao mesmo nível do preço, bichinhos de pelúcia… Pelúcia?… Brinquedos de todo tipo, ferramentas quase descartáveis, copos de todos os times, xícaras com todas as frases possíveis e imagináveis… Uma infinidade de trecos que deixam qualquer um louco, principalmente quando se trata de um colecionador de bugigangas como eu…
 Na seção de plásticos, encontrei vários artigos úteis e bonitos para tornar a vida de um trintão solteiro mais confortável, porém, algo me chamou especial atenção: um porta-leite, onde se coloca a caixinha que fica presa e o manuseio é feito por intermédio de uma alça… Pensei comigo: “Por que comprá-lo, por que não comprá-lo, por que comprá-lo?”… Não comprei-o-o… No momento, minha consciência dizia que aquilo seria supérfluo, ou seja, teoricamente, posso viver muito bem sem ter um porta-leite em casa… Ao chegar em minha residência oficial das quatro estações, descarreguei as mercadorias e tratei de cumprir com minhas obrigações do restante do dia. Nem lembrava mais do tal artigo de plástico supérfluo.
 No dia seguinte, ao ruído insistente e irritante do despertador, acordei, tirei a ramela do “zóio”, lavei este rostinho que Deus me deu e comecei a preparar o café… Ao pegar o leite na geladeira, a caixinha escapou-me das mãos, inundando a cozinha com aquele líquido branco e que, em pouco tempo tornar-se-ia extremamente mal-cheiroso… Fazer o quê?… Era preciso limpar aquela bagunça e, como vinte por cento do meu corpo havia sido atingido, o banho seria algo inevitável para não ficar cheirando queijo azedo o dia todo…
 Todo este inconveniente e atraso poderiam ser evitados se eu tivesse um simples, barato e prático porta-leite… Tudo seria diferente se eu tivesse dado ouvidos à minha intuição consumista… Existe uma força subumana neste locais de vendas de tralhas, pois tudo o que precisamos, encontramos lá… E o que não precisamos, passamos a necessitar a partir do momento em que nossos olhos são direcionados a um artigo que se encontra a mostra…

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br
Jornal Informe – O diário Regional

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