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Tag: iracema

Sonhos azuis – CAPÍTULO V

Acompanhe desde o início

Nascida em 1994, Iracema é uma jovem sonhadora, perdera seu pai aos cinco anos, vítima de câncer no pulmão, mas ainda guarda as lembranças dele a carregá-la no colo, passeando  na pracinha do bairro, chegando da fábrica onde trabalhava de braços abertos para recebê-la ainda na rua, momento em que rodopiavam alegres antes de entrarem para o café da tarde… Sua mãe também partiu cedo, quando ela ainda era uma adolescente, vítima de um derrame que a imobilizou por alguns meses, antes do último suspiro. Da mesma forma, as lembranças ainda teimam em permanecer em sua mente: lembra de uma mãe dedicada e amorosa, sempre preocupada com a educação e a postura de sua filha mais querida. Acompanhava sua vida escolar assiduamente.  Mesmo depois dos quinze anos, Iracema ainda era segurada no colo, às vezes, e merecia um cafuné de mãe amorosa.

Depois da partida de seus pais, a jovem nunca mais se sentiu amada novamente. Por vezes, mesmo rodeada de pessoas, na casa de seus tios, onde passou a viver, sente uma tristeza profunda em virtude da imensa solidão que invade seu peito, principalmente ao deitar-se para dormir: momento em que todo silêncio torna-se ensurdecedor para quem tem o coração vazio… vazio de amor… de passado… de presente… de futuro… Iracema é assim, vive cada momento sem pensar no futuro, não tem medo de nada, exceto de amar, pois tudo o que tinha de mais precioso já perdera: seus pais. Mesmo assim, ela busca lá dentro de seu coração, um sorriso a fim de parecer simpática aos olhos dos clientes da revendedora onde trabalha.

O nome não é a única semelhança com a personagem do romance de José de Alencar, pois trata-se de uma moça linda e apaixonante, sempre gosta de caprichar no visual, bem vestida e perfumada, como diria o próprio romancista:

“Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. (…) O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.”

De fato, seus pais a batizaram com tal nome, em homenagem à protagonista de uma das maiores obras do Romantismo brasileiro. E veio a calhar, pois além de ser descendente de Kaigángs, um dos cinco povos indígenas mais populosos do Brasil, ela trazia consigo toda a beleza e simpatia inerentes a índia Tabajara do romance.

Mas, como já disse anteriormente, apesar de toda a beleza exterior, ela trazia em seu peito uma grande amargura: Depois da morte de seus pais, não encontrou o mesmo carinho e dedicação por parte de seus tios que a tratavam como empregada… Não parecia, a julgar pelo comportamento deles, que ela era um membro da família. Lá no fundo de seus sonhos, ela alimentava a ideia de, um dia deixar aquela casa e ter uma vida independente, libertar-se das malhas daquela família ingrata e desumana, tornar-se livre, enfim… Mas jamais deixou transparecer esta ideia, guardava para si,  inconscientemente, o momento certo e a pessoa certa para tirá-la daquela situação e oferecê-la uma vida melhor e mais confortável.

Em síntese, Iracema é uma jovem em constante conflito de relacionamentos, de pensamentos e de ideais; ora sonha alto, ora reclama a má sorte do passado, ora vive inconsequentemente o presente, ora espera uma grande mudança no futuro. Uma coisa ela tem certeza, precisa realizar pelo menos uma venda no dia de hoje para não ser dispensada, pois ultimamente não tem dado o melhor de si no trabalho.

Por detrás do balcão, a jovem fica vagando em seus pensamentos e, de vez em quando, dá uma olhadela na garagem e no pátio, sempre que sente algum movimento diferente, esperando que seja algum cliente querendo abandonar a vida de pedestre, ou ainda trocar seu veículo por outro modelo mais novo. Precisa vender para manter o emprego, pois apesar de ser descendente de uma civilização que sobreviveu séculos sem conhecer o capitalismo selvagem, ela vive num mundo capitalista que exercita a lei da oferta e da procura, onde o lucro vale mais que a subsistência. Acaba de abrir a loja, seu patrão ainda está por vir. Quer fazer uma venda antes da chegada dele, para que sua moral comece o dia em alta. Porém, em um segundo pensa que isso não tem importância. Quem já perdeu tudo, perder agora um empreguinho desses não vai fazer nem cócegas…

Pela janela, observa a chegada de dois indivíduos que parecem procurar algo no pátio. Seria sua primeira venda do dia?… Ela estava por um fio, portanto teria que confiar, mais do que nunca na sua sorte e no bolso dos recém-chegados…

 

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