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Tag: infância

Porco com batatas

Sempre gostei de animais. Quando tinha cerca de doze anos, tínhamos um porquinho e, por se tratar de um bairro próximo ao centro, era necessário limpar muito bem o chiqueiro todos os dias para não haver nenhum mal cheiro que atrapalhasse a qualidade de vida dos vizinhos. No verão, a sequência da higienização era ainda maior. Eu era encarregado da limpeza da residência oficial daquele suíno que se tornou um de meus melhores amigos de infância, ocupando o lugar ocupado pela dinastia de cães chamados Bilu e o periquito que vivia no meu ombro quando eu tinha remotos cinco aninhos…

Meu porquinho gostava tanto de mim que, ao me ver, chegava a abanar o rabinho em alta velocidade. Todos os dias, eu calçava a bota de borracha, puxava a mangueira do poço até sua casa e ligava o motor para transladar a água até aquele local. Lavava todo o ambiente, depois dava banho no meu amigo que gostava a ponto de deitar-se para receber carinho na barriga, depois enchia o coxo da mais deliciosa lavagem que, para ele era um manjar dos deuses… Era muito bom cuidar de outra vida animal e poder, mesmo involuntariamente, identificar o humano dentro dele… Um quadrúpede, originalmente fedorento e com hábitos não muito higiênicos, me ensinava a cada dia aquilo que a humanidade toda precisava e ainda precisa aprender: o amor ao próximo…

Nossa relação suína era altamente humana e ganhava de muitas pseudo-amizades que vemos por aí entre seres humanos racionais com o encéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores… Por várias vezes tentei abraçar meu porquinho, perdi o equilíbrio e fui parar no chão, na mesma altura e situação dele… Apesar de tudo, não parecia tão mal assim viver num chiqueiro…

Acima do chiqueiro, que ficava ao pé de um pequeno morro, havia uma plantação de batatas-doces, cuidadosamente preparada por minha mãezinha querida… Ocorre que um dia caiu um toró e o morro quase veio abaixo em forma de enxurrada. Era água que não acabava mais, nunca tinha visto tanta chuva em tão pouco tempo. As batatas-doces desceram o morro junto com a terra vermelha e invadiram a casa do meu amiguinho… Da janela, eu olhava preocupado, sem saber o que fazer. Minha mãe não me deixava sair naquela chuva para socorrê-lo, temendo que eu fosse levado também pela enxurrada… Então eu ficava olhando a chuva cair e amedrontado pela possibilidade de perder meu amigo no meio da tempestade…

Mas depois da chuva vem a bonança e, quando tudo acabou, voltei ao chiqueiro para ver se conseguia encontrar algum vestígio do meu porquinho e grandiosa foi minha surpresa quando o vi atolado até a barriga, imóvel e, sem nenhuma preocupação com o resto do mundo, comendo batata-doce trazida durante a chuva…

Mais uma vez, aprendi com ele… Aprendi que nem toda tempestade traz desgraças… Aprendi que podemos tirar proveito das situações, aparentemente, negativas… Aprendi que, se olharmos com atenção ao redor, sempre encontraremos as batatas-doces no meio da enxurrada. Mesmo que estejamos imóveis e atolados até a barriga, sempre existe uma possibilidade de sobrevivência… Aprendi a ver desafios em cada situação complicada… E, acima de tudo, aprendi que se nos jogarem lama de cima para baixo, é possível encontrar, no meio da amargura humana, uma batata-doce que alimente nossa esperança e nos dê forças para reagir e tirar o pé da lama…

Só não consegui entender a razão pela qual minha família me tirou de casa um dia cedo e, quando voltei, meu melhor amigo já estava sem vida na geladeira, parte dele na panela e algumas migalhas de amizade transformadas em salame…

Márcio Roberto Goes

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O muro da minha infância

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Vivi três décadas e meia no bairro Sorgatto. Lá está enterrado meu umbigo… De lá, guardo lindas e ternas lembranças: A velha casa de madeira, o pomar nos fundos do terreno que o atual morador ainda conserva, o carreiro de hortênsias até a porta da cozinha. O limoeiro que ainda sobrevive, enfim, o cheiro, o sabor, as cores da minha infância estão lá e isso jamais será mudado em meu coração, ou apagado de minha mente…
Vi a rua Estados Unidos se transformar durante os trinta e cinco anos que vivi naquele endereço: Foi aterrada por duas vezes, recebeu construções que, na sua maioria ainda estão lá, foi revestida calçamento de paralelepípedo… Depois de algum tempo, nossa residência foi agraciada por uma calçada que ainda resiste ao tempo e um muro que não passa de quarenta centímetros de altura e, por algum tempo, foi sobreposto por uma cerca-viva…
Constantemente, na infância e na adolescência, durante a noite, me refugiava naquele muro para refletir, curar saudades, temores, rancores, angústias e até o estresse. Por vezes, simplesmente deitava no pequeno muro e ficava em transe só observando a imensidão do céu, identificando as constelações e viajando nas minhas utopias, até que me despertava novamente com uma lambida carinhosa do Bilu, que parecia me chamar de volta para a vida com o amor incondicional que só um cachorro de estimação é capaz de sentir… Mesmo depois que as cercas-vivas cresceram, ainda assim, sentava na calçada e ficava pensando, admirando a imensidão do céu.
Às vezes, era interrompido pelo ruído dos automóveis, raros à noite naquela rua, pelos passos compassados de algum bebum que voltava da bebedeira, ou mesmo alguém que voltava do trabalho…
Hoje percebo o quanto meus pensamentos ingênuos, despreocupados e utópicos naquele muro, ajudaram no meu crescimento pessoal. Um muro que não cumpria sua função de separar nossa família do resto do mundo, por conta de sua baixa estatura, me fazia viajar na imaginação e curar qualquer enfermidade da alma… Às vezes, minha mãe ia, pé ante pé, até a varanda se certificar que eu ainda estava lá. Deixava que ela acreditasse que eu não percebia o seu cuidado… Eu sabia que poderia viajar pelo universo, mas jamais fugiria dos cuidados carinhosos de minha progenitora…
Por vezes, sinto falta daquele muro. O mundo se torna mais cruel à medida que amadurecemos e abandonamos os hábitos da infância e adolescência. Às vezes, se faz necessário voltar no tempo e se fazer ingênuo novamente, contemplar o universo, viajar nas esperanças, temores e utopias…
Meu endereço já não é mais o mesmo, o mundo não é o mesmo, eu não sou o mesmo… Mas o pequeno muro de minha infância permanece vivo em meu coração, me fazendo olhar para o infinito e contemplar o universo, agora com uma estrela especial: minha mãezinha que, certamente, de vez em quando sai, pé ante pé na varanda do céu para me cuidar e se certificar que estou bem, deitado no muro e sonhando, como sempre fiz…

Márcio Roberto Goes

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