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Tag: Inclusão

O Céu é Lindo!

Publicado em:
07/03/2008 – www.cacador.net

Durante muito tempo ouço falar na importância da inclusão das pessoas portadoras de necessidades especiais na sociedade e, sobretudo, na escola que é o meu cotidiano… Mas o que eu tinha visto até então não passava de teorias e mais teorias, no meu trabalho nunca havia me deparado com alguém especial… Outro dia, observando as escolas onde trabalho, percebi que poucas pessoas pensam na importância de se manter em ordem os aspectos físicos que dão as condições necessárias para os portadores de necessidades especiais se locomoverem o mais confortavelmente possível: Numa delas não visualizei uma única rampa de acesso às salas, somente aos sanitários… Parece-me que um cadeirante teria que assistir aulas no banheiro, para poder ter seu direito de ir e vir garantido…

Noutra escola, equipada com rampas de acesso a todos os pisos e salas-de-aula no mesmo nível dos corredores, porém sem adaptações nos sanitários… Neste caso, o cadeirante tem acesso exclusivamente à sala, devendo deixar suas necessidades fisiológicas para sua casa. Fiquei muito triste ao ver destruído um dos corrimãos da rampa: acho que o vândalo que fez isso (espero que não seja nosso aluno, mas provavelmente é) nunca teve em sua família nenhum portador de deficiência, porque se o tivesse, saberia que em algum momento aquele corrimão naquela rampa seria útil para alguém melhorar sua locomoção… Parece que a inclusão ainda não inclui como deveria.

Este ano estou vivendo uma experiência quase inédita em minha vida: voltei a trabalhar com alunos de ensino fundamental e pela primeira vez, na rede municipal, como ACT (admitido em caráter temporário), onde encontrei, na sexta série um aluno especial, o Marcelo, que enxerga as belezas da vida com os olhos da alma. Graças a Deus e a este menino, acabo de descobrir uma nova forma de linguagem: O Braille. Trata-se de um alfabeto baseado numa seqüência de pontinhos em auto-relevo que torna possível a leitura através do tato… Que coisa boa! Esta era a chance que eu precisava para pôr em prática tudo o que aprendi sobre inclusão na universidade e nos vários cursos durante minha carreira.

Mas só eu aprender, não seria o suficiente… Era preciso que toda a turma tivesse pelo menos uma base, desta forma “diferente” de escrita. Então disponibilizei uma cópia do alfabeto Braille para cada aluno e pedi que meu amigo escrevesse algumas frases simples afim de seus colegas, inclusive eu, tentarem traduzir… A grande surpresa ainda estava por vir: Todas as frases que traduzimos tinham por base a palavra “lindo”, com as devidas concordâncias. Mas o que mais me surpreendeu e me deixou profundamente emocionado foi esta frase: “O céu é lindo!”. Qualquer pessoa a classificaria como uma frase “tosca” para um aluno de sexta série, não fosse o fato de ele ser deficiente visual.

Este momento, para mim, valeu por todos os cursos de aperfeiçoamento (que muitas vezes são feitos visando somente o certificado) e tudo o que debatemos sobre inclusão na faculdade… Mas o deficiente sou eu, porque foi preciso um “cego” me dizer que o céu é lindo para que eu despertasse para a beleza infinita e azul do universo que nos rodeia. Acabo de comprovar o dito popular: “o pior cego é aquele que não quer ver”.

PS: Nunca mais reclamo do desconforto dos óculos, ou das lentes de contato embaçadas…

Márcio Roberto Goes
Míope, mas feliz!

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Preto no Branco


Está na moda a inclusão das pessoas com necessidades especiais na escola… Pena que a humanidade se deu conta da importância de um perfeito convívio do ser humano, respeitando diferenças e necessidades só agora que virou moda (e lei…). Hoje temos uma maior atenção ao ser humano enquanto pessoa e cidadão, dando menos importância para a cor ou raça… Pelo menos na teoria.

Presenciei um exemplo concreto da inclusão na sala de aula, outro dia conversando com uma colega da rede municipal de ensino. Ela conta que, obedecendo a uma lei municipal, todas as escolas públicas municipais de Caçador adotaram o quadro branco em sala-de-aula… Que maravilha!… Adeus ao pó branco no chão, às mãos ressecadas, à seqüência de múltiplos espirros em virtude da rinite alérgica que muitos professores adquiriram “de graça” durante sua carreira e a tantos outros inconvenientes que só o giz é capaz de provocar no ser humano, principalmente nos professores, que dependem desta ferramenta indispensável, mesmo nas aulas mais dinâmicas. Nossos mestres, não tendo outro recurso, principalmente os alérgicos, como eu, são obrigados a comprar o próprio giz,visto que as “entidades” mantenedoras das escolas públicas não disponibilizam de giz anti-alérgico.
Parece que a qualidade de ensino tão prometida por tantos governos não abrange a saúde do professor, e temos que suportar ainda a visita de alguns “espertinhos” que entram em nossas escolas e em uma hora de palestra tentam nos convencer de que precisamos de suplemento alimentar para zelar de nossa saúde, podendo adquirí-lo pela taxa simbólica de quase duzentos reais por mês (não é por nada, mas esse valor excede nosso precioso vale alimentação).
Queixas à parte, voltemos à minha conversa com a colega da rede municipal: Disse-me que as escolas, agora disponibilizam de dois quadros, um branco e outro negro, um em cada parede da sala… Parece politicamente correto, afinal não é porque temos um quadro branquinho e bonitinho, que vamos abandonar o negro (que na verdade é verde): isso seria, no mínimo, uma atitude altamente racista para uma escola que procura incluir e respeitar as diferenças. O único problema é que o uso da lousa fica a mercê da livre escolha do professor e o aluno é obrigado a “dançar conforme a música”, ora virado para o branquinho, ora virado para o negão.
Minha imaginação fértil, porém verossímil, já visualiza os alunos, no início da aula fazendo apostas para descobrir que quadro o professor da primeira aula vai utilizar. Digamos que seja o branco: todo mundo virado prá cá… Na segunda aula é o quadro-negro: todo mundo virado pra lá… Na terceira, novamente o branco, todos para cá… E assim por diante, durante as cinco aulas do turno, numa gangorra insuportável.
Mas nada é de todo mal: resolvemos assim uma contestação insistente dos alunos, que sempre pedem aulas “diferentes”, além de saberem que a cada aula podem, sem medo de repreensão, deslocarem-se ao menos para virar o corpo, a cadeira e a mesa…
Qual é a razão de existirem divergências quanto ao uso do quadro branco? Afinal, livrar-se das inconveniências do giz é um sonho da maioria dos professores… Ou será que fazer o aluno de “bobo” ainda está acima do sonho do quadro branco e do pincel, substituindo o pó e a tosse seca?… Será que é por causa do custo do pincel, relativamente maior que o do giz?… Ou porque o giz não precisa ser tampado quando está em desuso para não evaporar?…
Independente da razão, a maior lição que tiramos deste fato é a inclusão, respeitando as diferenças entre brancos e negros, afinal, ninguém gostaria de responder um processo por abandonar o bom e velho quadro negro, só porque um branco “engomadinho” tomou o seu precioso lugar.
Márcio Roberto Goes
Comigo é preto no branco…
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