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Tag: galo

Frederico

Galo frederico

Sempre gostei de animais… Sempre gostei de tê-los por perto. Até porque, também sou um animal, eu e todos os outros seres humanos ao meu redor que se julgam poderosos por se considerarem racionais…

Pois bem, depois de sepultar meus dias de aluguel, passei a morar numa meia-água própria no maior bairro da cidade, num loteamento que me surpreendeu pela tranquilidade que contraria tudo o que me diziam sobre o Santa Terezinha… Meu terreno é aberto e, por sua vez, frequentado por todo tipo de animal, racional, ou não… Já recebi visita dos cães famintos que vêm partilhar a ceia arrecadada dos lixos luxuosos e desperdiçados dos homo sapiens ao redor, aliás parece que os racionais aqui por perto nunca ouviram falar em sustentabilidade, ou reciclagem, pois junto com o manjar dos cachorros encontro todo tipo de embalagens que deixaram de ser reutilizadas, ou recicladas só por preguiça de fazer os procedimentos necessários…

Às vezes, me deparo com cavalos pastando tranquilamente no meu quintal, devem ter fugido da chácara aqui perto para provar um pasto diferente. Neste caso, nem reclamo de deixar o mato crescer, pois serve de alimento para outro ser vivo transeunte…

De manhãzinha, desperto-me com o canto alegre e livre dos pássaros que parecem homenagear mais um dia presenteado pelo criador, agradecendo pelo dom da liberdade e do cantar. São felizes por fazerem aquilo que mais lhes agrada: voar e cortar os céus sem medo de predadores, principalmente os humanos munidos de estilingues e espingardas de pressão…

Mas as visitas mais frequentes que recebo são de três criaturinhas simples e que me ensinam muito sobre a vida, pois vivem para comer e se reproduzir, sem terem a noção de que aqueles que as alimentam são os mesmos que as matarão depois para comê-las. Três galináceos: O Frederico e aquelas que penso serem suas duas esposas, a Sissi e a Sussu. Todos carinhosamente batizados por mim e pela Bruninha. O galo Frederico é o menos corajoso, ao me ver, é o primeiro a correr e deixar suas duas galinhas desamparadas. Mas tudo bem, não tenho a intenção de fazer-lhes mal. São meus amigos e, com o passar do tempo já não se incomodam com minha presença…

Já fazia quase uma semana que meus amigos cacarejadores não davam o ar da graça… Eu já estava ficando preocupado… E, finalmente hoje, pela manhã, encontro ciscando no meu quintal a Sissi, sozinha, cabisbaixa, ora dava uma bicada tímida no chão, ora cuidava ao redor. Quando me viu, ficou com cara de dúvida, não sabia se fugia, ou me deixava aproximar. Para não magoá-la, parei e fiquei observando…

Não quero pensar no pior, mas provavelmente foi isso que aconteceu: Meus dois amigos, Frederico e Sussu foram degolados e colocados numa panela para servir de alimento aos animais racionais… Uma lágrima escorreu em meu rosto e meus amigos vegetarianos devem me entender… O ser humano é o único capaz de dar comida e cuidar de outros animais para depois matá-los e comê-los…

O pior disso tudo é que não criamos animais só para matar nossa fome, o fazemos para obter lucro, tratamos nossos semelhantes do reino animal como se fossem produtos, nossos irmãos humanos como consumidores e nos esquecemos que somos todos criaturas. Uma vida não pode valer mais que outra só porque tem raça definida, ou porque é da cor que a sociedade julga superior… Enfim, somos todos semelhantes. A cadeia alimentar é uma realidade da natureza, mas não podemos explorar outras vidas só para nosso conforto, ou para nos sentirmos melhores…

Descanse em paz, Frederico… Descanse em paz, Sissi… Infelizmente, a vida curta de vocês cumpriu a missão de alimentar outro ser vivo, mesmo que este tivesse outras formas de alimento menos cruéis…

Eternas saudades…

 

Márcio Roberto Goes

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