Aperte "Enter" para pular para o conteúdo

Tag: futebol

Jobulani no quintal

 

            Domingo, final da copa… Eu, ao contrário da maioria dos brasileiros, cochilo levemente no quarto de minha residência oficial das quatro estações, enquanto ouço, lá no fundo da bigorna, o jogo entre Holanda e Espanha, ainda virgens de gols nesta partida… Lá fora, algumas crianças jogam uma pelada, também parecem não estar preocupadas com o que acontece no Soccer City…

            Meu cérebro sonolento já não diferencia os ruídos da TV e os da rua, ambos têm sons de bola no pé e vuvuzelas, que, aliás, tomaram conta nas redondezas da minha casa nesta copa…

            De repente, ouço um quicar mais próximo que os demais, meu cão de guarda late incansavelmente, mas minha preguiça é maior que a vontade de ver o que acontece no quintal… Alguém força o portão, mas parece desistir ao ver o cadeado, uma voz de criança balbucia: “Bata palmas”… Ouço então, umas palminhas muito fracas que não conseguem ultrapassar os decibéis da África do Sul… Mas, como toda criança, elas são persistentes e ouço a mesma vozinha dizendo: “Vamos bater palmas juntos!”… Foi o que fizeram:

            Minha preguiça não suportou tamanha persistência e união das crianças em busca de uma bola perdida. O mundo preocupado com quem dos dois será primeiro pela primeira vez campeão mundial, e meus pequenos vizinhos preocupados em recuperar uma bola… Ouço meu nome sendo chamado… Ué? O Galvão me conhece?… Mas não parece a voz do locutor esportivo da poderosa do Plim! Plim!… É uma voz infantil, Aliás, a mesma que se destacou ainda a pouco na multidão e nas vuvuzelas. Está no portão, pensa que eu não ouvi e convida seu amiguinho para chamarem juntos… Não suporto tamanha dedicação, persistência e carinho pelo meu modesto nome, que vem do Latim e significa guerreiro…

Pois o guerreiro, finalmente desperta para o mundo real… Quem se importa com o campeão mundial de futebol? Existe uma partida paralisada em minha rua, a Jobulani da “piazada” está aqui no meu quintal e não tem gandula para recuperá-la… Levanto-me, tiro a “remela do zóio” e trato de fazer minha parte para salvar a diversão da meninada. É preciso vestir uma cara de bravo, apesar de não me agüentar de vontade de sorrir: “Da próxima vez, eu não devolvo”…

Tento voltar a dormir, mas a algazarra não deixa, sobretudo porque agora me tornei um curioso com o jogo da molecada. Na TV, angústia diante de duas traves da melhor qualidade que não se movem… Na rua, duas traves improvisadas com pedras que seguidamente são atravessadas pela bola dantes libertada do meu território… Na África, a Jobulani tem medo da rede… Do outro lado do portão, a infância se materializa destemida e insistente diante dos meus olhos, que agora permanecem bem abertos na janela e o Galvão falando sozinho na sala…

Do outro lado do Atlântico, quase final do segundo tempo da prorrogação, finalmente a pelota encontra uma trave, a da Holanda… Final de jogo, o juiz apita anunciando o novo campeão do mundo… Do outro lado da cerca, quase final de tarde, mamãe apita na janela. É hora de tomar banho e recolher-se… Os holandeses reclamam a derrota… As crianças reclamam o fim da brincadeira… Um escritor maluco, da janela, reclama a falta de assuntos que mereçam uma crônica… É! Todo mundo reclama de barriga cheia!…

Márcio Roberto Goes

WWW.marciogoes.com.br

Deixe um comentário