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Tag: desfile

Desfile de contrastes

 Desde que me conheço por gente, vejo falar em desfiles do dia sete de setembro em homenagem à Pátria… É o dia em que todos se encontram na avenida principal para ver, ou apresentar-se, ao ar livre em homenagem à terra que os viu nascer. Começa sempre com aquela melodia maravilhosa de Francisco Manuel da Silva que deu vida, ritmo e sentimento ao poema de Joaquim Ozório Duque Estrada… O hino Nacional, julgo ser um dos mais bem construídos textos poéticos de todos os tempos em Língua Portuguesa, fazendo aquilo que só os poetas e os cronistas mais abusados fazem: dar às palavras um sentido e um sentimento que a maioria dos seres ao seu redor não dariam, usando de recursos como as figuras de linguagem ou a inversão da ordem direta.
 Porém, já faz cerca de três anos que não compareço nem para assistir, nem para desfilar… Depois que descobri o verdadeiro sentido da palavra Pátria: “O país onde nascemos, o torrão natal…”, de acordo com o dicionário Aurélio digital… Isso quer dizer que a minha Pátria não é a mesma de “los hermanos al rededor”, ao passo que eu amo esta terra, mas não preciso amar as fronteiras vizinhas, apesar de fazerem parte do mesmo continente e do mesmo planeta, e estarem repletas de seres humanos como eu e você…
 Permitam-me discordar do Aurélio e de mim mesmo, já que me contradigo em relação a outros textos que escrevi com os olhos fechados pelo preconceito nacionalista. Sou brasileiro, agradeço a Deus por isso, amo meu país, me emociono cada vez que canto ou ouço o hino nacional que sei de cor e de coração, mas amo também a humanidade, sem acepção de cor raça, nacionalidade ou Pátria, afinal, um brasileiro não pode valer mais que um argentino ou estadosunidense, nem menos… As fronteiras são o resultado da bestialidade e do egoísmo humanos…

Fonte: www.google.com.br
Fonte: www.google.com.br

 Está na hora de convencermos nossa consciência de que nossa Pátria é o planeta, e que devemos tratá-lo com amor e cuidado… Não era isso que eu via no final de cada desfile de sete de setembro, quando ainda participava: Latas e garrafas ao chão, guardanapos que só foram valorizados enquanto úteis para proteger as mãos da sujeira que se dirigia até a boca e depois eram descartados nas vias públicas… sujeira para cá, sujeira pra lá… Tudo isso depois de prestadas homenagens lindas e emocionantes à “Pátria amada mãe gentil”… Que mãe, por mais gentil que fosse, ficaria feliz com um tratamento desses?… Tiramos nossos filhos da cama muito cedo no feriado para levá-los até a avenida, expostos a todo tipo de intempérie, para vê-los desfilar só para termos o orgulho de dizer depois: “Olha, aquele é meu filho!…” Que lindo ver nossas crianças batendo o pé para aquelas gravatas infetas que compõem o palanque oficial, cheio de discursos bonitos, mas igualmente fétidos!… Que maravilha saber que, enquanto desfilamos e mostramos nosso amor incondicional à Pátria, milhões de pessoas passam fome ao redor do mundo, mas não nos interessa, pois não fazem parte desta faixa de terra que chamamos de nossa Pátria… Aliás, aqui também, muitas pessoas não têm o suficiente para manter uma alimentação digna e tudo o que fazemos é sentir pena e continuar a bater o pé na avenida, amando e idolatrando a terra, mas desprezando a maioria do povo que nela vive…
 Porém, neste ano as crianças não precisaram ser obrigadas e desfilar na avenida que idolatra os contrastes sociais, somente as forças armadas e alguns outros segmentos. Ainda bem! Mas a intenção continua a mesma…
 Infelizmente, a bandeira nacional e a Pátria só são lembradas nas solenidades oficiais e na Copa do mundo, no restante do tempo, a mãe gentil e o planeta são esquecidos e maltratados desumanamente pelos seres humanos…

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br
Jornal Informe da tarde – O diário Regional

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