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Tag: capitalismo

Crise perfeita para sistema perfeito

Sempre hesito em escrever sobre temas maçantes e exageradamente abordados pelos meios de comunicação, pois quando todo mundo pensa entender de determinado assunto, existe uma larga possibilidade de virar “achismo”… Todavia, aqui vai minha opinião sobre o assunto do momento:
 O mundo está em crise. Os Estados Unidos da América estão com “gripe” e todo o planeta espirra, mesmo sem saber ao certo o motivo… Só sabem que devem “espirrar”, porque os que se julgam “donos do mundo” estão com gripe… Aff!… Nem bem terminei o segundo parágrafo e já cansei dessa conversinha!… Sabemos que a crise está na cabeça das pessoas… Principalmente das “poderosas”… e infelizmente, no Brasil, os donos do capital usam dessa desculpa para demitir os trabalhadores e  superfaturar seus produtos.
 É no mínimo, incoerente perceber que quando tudo vai bem, quem ganha são os empresários, mas quando tudo vai mal, só quem tem perdas consideráveis são os trabalhadores, que não têm nada além de sua mão-se-obra para oferecer, afinal, em mais de quinhentos anos de história, os menos valorizados foram sempre aqueles que movem a máquina, que fazem o milagre da produção. Na visão capitalista, o empresário não pode diminuir um milímetro de seus lucros ( que já não são dos menores), mas no momento de crise, o proletário não é consultado antes de ser massacrado e até demitido, tendo sua cidadania abortada e sua dignidade estuprada em nome de uma crise abstrata…
 Desde que eu trabalhava numa grande empresa madeireira de Caçador que eu ouço dizer que ela está “quebrando”, mas até hoje só a tenho visto crescer, haja vista o grande fluxo de caminhões que sobem carregados de matéria-prima e descem cheios de portas… De quem são estas portas?… Do trabalhador?… Do caminhoneiro?… Não! São para exportação, na grande maioria… E aqui no Brasil, sobretudo para as mãos calejadas dos trabalhadores que moldaram aquelas toras até virarem portas, ficam apenas as sobras, o refugo, o lixinho desprezado pelos gringos…
 Os engravatados têm o “top de linha”, apesar de nunca terem participado da linha de produção, no entanto, as mãos que produzem e engordam a economia, sempre ficam com o refugo, descontado dolorosamente de seu salário.

crise
 É assim que funciona o capitalismo. Toda a riqueza nas mãos de poucos e a maioria esmagadora tem que se virar com as sobras…. É este sistema selvagem que encontra-se em crise… Aliás, o próprio sistema alimentou esta crise durante muito tempo e agora fugiu ao controle. Isso só aconteceu porque a renda não foi distribuída e o pobre trabalhador inocente é o mais torturado moralmente, através da psicologia do medo: medo de perder o emprego, a dignidade, o sustento da família. A ele, resta apenas a esperança de um dia a humanidade acordar para a realidade e aprender a repartir… Pois enquanto não existir a partilha, sempre haverá alguém se julgando melhor que os outros e tirando maior proveito de todas as situações. Enquanto os poderosos continuarem se escondendo atrás do capital, sempre haverá alguém, de cara limpa, sofrendo por tentar ser justo, sendo martirizado pelo sistema.
 Só existem ricos, porque existem pobres… Só existem pobres porque isso interessa para  alguns que não querem perder nenhuma fatia de suas riquezas… Só existe crise, porque, durante muito tempo alguém lucrou mais do que deveria… Para que alguém lucre, é necessário que alguém perca… Quem lucra? Os que sempre lucraram… quem perde? Os que sempre perderam… É o capitalismo: O sistema perfeito que agora está em crise… Mas, sistemas perfeitos não entram em crise…

 

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br
Jornal Informe do Contestado, Caçador – SC

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Um cristão comunista

 

cristaocomunista1
 Por volta das dez e meia, voltava eu da missa dominical e entrava em meu quarto a fim de me trocar… Sabe, tirar aquela roupa domingueira e pôr a roupa de gente normal ficar em casa… Pois bem, nem terminava de desabotoar minha camisa quando meus cães farejadores de gente anunciavam a presença de algum ser humano desconhecido deles… Fui atender. Eram dois senhores, meia idade, camisa e calça social, óculos, cada um com uma pasta preta, pareciam um tanto cansados, já haviam caminhado um bom tando naquela manhã, um deles tomou a iniciativa de puxar a conversa:
– Bom-dia! Tem um minuto da sua atenção?
 Diante de uma pessoa tão educada, é impossível negar alguns minutos de minha preciosa atenção… Tratavam-se de Testemunhas de Jeová, e estavam falando de Jesus de porta em porta… Ouvi com atenção e conversamos muito mais do que alguns minutos… Ora! Todos sabem que sou Católico Apostólico Romano. Por que então eu devia dar trela para eles?… Bem! Todos sabem também que sou comunista, e entre outros aspectos, os comunistas defendem a pluralidade religiosa.
 Mas é possível existir um comunista cristão? Ou ainda, um comunista Católico Apostólico Romano?… Apesar de muitos líderes da Igreja não acreditarem, é possível sim… e digo mais: O próprio Jesus ensinou muitas coisas que hoje são adotadas pelo comunismo, um grande exemplo disso foi a “multiplicação” dos pães, que nada mais é do que a partilha. Quando todos colocarem em comum o que têm, todos terão muito mais do que o suficiente para sobreviver. Isso tudo os cristãos pregam a todo momento, sejam evangélicos ou Católicos, adeptos da Teologia da Libertação, das CEBs ou da Renovação Carismática… Todos, absolutamente todos pregam a partilha, o comunismo também.
 É bem verdade que, com o decorrer da história, os capitalistas conseguiram deturbar os fundamentos de Marx, tornando-o quase um anti-Cristo, mas isso aconteceu porque haviam muitos gigantes capitalistas que jamais admitiram e jamais admitirão perder parte do capital para partilhar com aqueles que não têm nada. Essa é a luta comunista, colocar tudo em comum, para que todos tenham dignidade e qualidade de vida. Jesus pregou isso há dois milênios… Esse é o sonho da sociedade perfeita… Não quero acreditar que Jesus era Capitalista, e não o era.
 Por fim, gostaria de destacar a importância de se difundir o cristianismo de porta em porta, coisa que muitos católicos não têm coragem, e de recebermos bem estes missionários, fazer a nossa parte, já que a deles está sendo feita. E nesta semana em que o PCdoB completa oitenta e sete anos de Brasil, no mesmo dia do aniversário de Caçador, gostaria de terminar com duas perguntas feitas a mim por um sacerdote quando eu expunha a dificuldade de assumir minha ideologia na Igreja:
 Atualmente, Jesus Cristo escolheria o comunismo, ou o capitalismo?
 Para um cristão, é melhor ser comunista, ou hipócrita?

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br
Jornal Informe, Caçador – SC

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“BBB” financeiro

 É estranho quando percebemos que o mundo inteiro tenta nos agradar só por interesse. Se pararmos para pensar, veremos que tudo gira em torno do lucro. Um funcionário só serve para a empresa enquanto dá lucro, a partir do momento em que, para mantê-lo, é preciso diminuir a margem de lucro, este funcionário é desumanamente dispensado, pois não é um ser humano aos olhos dos donos do capital: trata-se apenas de um bem de sua empresa, que pode ser descartado a qualquer momento.
 No comércio, tratam-se os seres humanos como clientes, o que não é de todo mal, pois pelo menos existe um certo esforço em manter relações, desde que não exista nenhuma restrição em seu CPF, é claro, pois os números se tornam mais importantes que a própria pessoa conforme passa o tempo. Neste âmbito, podemos destacar os bancos que lutam para manter seus clientes, oferecendo prazos e condições diferenciadas para atendê-los da melhor forma possível e oferecendo-lhes um pseudo conforto financeiro… Na verdade os únicos confortáveis financeiramente ainda são os banqueiros, que têm o dinheiro na mão. E o mais incrível é que, ao ver o comercial de vários bancos públicos e privados na TV, nota-se que todos dizem ter as melhores taxas…
 Pois bem… Havia um banco público estadual em Caçador: O “B”, onde os funcionários públicos estaduais se dirigiam alegremente, todo fim de mês para receber seus salários. Era um banco muito bom, atendimento diferenciado, os funcionários ouviam os clientes com atenção e esforçavam-se o máximo para que o correntista levantasse daquela cadeira feliz, ou pelo menos com um orçamento um pouco mais aliviado. Por conta disso, abusou-se dos empréstimos consignados e financiamentos em geral… De qualquer forma, alguém que fosse conversar com qualquer dos gerentes, com problemas financeiros, era ouvido e atendido dentro do possível, aliás, o gerente conhecia a maioria dos clientes e seus problemas, portanto, sabia também as soluções…
 E eis que um banco de âmbito nacional,  o “BB”, resolve fazer parte deste relacionamento, com o consentimento do “B”, é claro… Mas o jeito “BB”, não é o jeito “B” de ser, então, muita coisa mudou. Primeiro, jogaram o gerente lá pra cima para atender só empresas, afastando-o da prole e para conversar com ele é preciso passar por uma meia dúzia de pessoas. Em seguida, as autoridades resolveram diminuir a margem consignável dos funcionários públicos… Tudo estaria normal, se não fosse o fato de resolvessem aplicar as novas regras nos empréstimos em andamento. Resultado: o “cara” que tinha um empréstimo consignado em andamento, com a margem em folha diminuída, tem descontado a diferença na conta corrente e ao pedir socorro não encontra ajuda, pois agora quem manda no “B” é o “BB”… O endividado fala com o “BB” e o “BB” manda de volta ao “B” e ninguém resolve.
 Para completar, agora é preciso fazer um novo cartão: o cartão BBB, que doravante vai fazer parte da vida dos correntistas do “B”. Aliás, não existe mais o “B”, agora é “BBB”… Em alguns cartazes na agência local, lê-se o seguinte: “O banco dos catarinenses”, com aquelas cores, letras e logotipo do “BB”. Parece que vamos ter uma relação parecida com a das empresas em geral, pois aqueles que não dão lucro ao banco, ou seja, que têm margem negativa, são discriminados e têm um atendimento diferenciado, com uma resposta que já virou rotina: “Não podemos fazer nada!”. A pequena e única coisa boa nisso tudo é que se trata de dois bancos públicos, pelo menos não estamos investindo em capital estrangeiro… Assim espero…
 Este é o BBB financeiro… Transformou as relações com os clientes num jogo cruel e desumano, onde aqueles que não se enquadram nas normas da casa são eliminados e aqueles que ficam, podem ganhar muito dinheiro, com um detalhe: Só ganha quem já tem, quem não tem, deve repartir miséria…

Márcio Roberto Goes
http://www.portalcacador.com.br/

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Combustível voador

 

 João dos Sonhos Azuis está de volta… Pacato, honesto, pobre e sonhador como sempre, protagonizando cenas do cotidiano que poderiam ser perfeitamente vividas por qualquer um de nós, em qualquer lugar do planeta ou desta cidade, igualmente pacata e sonhadora… O nosso amigo sonhador de sonhos azuis, pegou seu fusquinha da cor de seus sonhos e foi até o posto de combustível mais próximo de sua residência, para ver se o “ponteirinho”, finalmente subia um pouco da reserva…
 Chegando lá, cumprimenta a frentista educadamente e sorridente como sempre o faz, afinal, desde que adquiriu seu fusquinha Celestino, ele é cliente daquele posto, portanto conhece todos e os tem como amigos:
– Pode ser no cheque?
– Pode!
– Então, coloca setenta reais, por favor… (caso raro, pois nunca passava dos vinte)…
 Enquanto a bomba derramava no seu veículo da cor de seus sonhos o líquido precioso do qual o Brasil já é autossuficiente há algum tempo (apesar de os brasileiros ainda não terem nenhuma vantagem por isso…), nosso amigo se dirige até o caixa afim de preencher o cheque, carregando o talão com muito orgulho, afinal, o fato de “limpar o nome” e conquistar, finalmente o direito de ter um talão de cheques outra vez, custou muito para ele.
 A moça do caixa o atende educada e com um sorriso que não demora muito a se desmanchar.
– Não posso preencher seu cheque, existem restrições…
– Mas como?… Eu finalmente paguei o que devia no comércio, consegui sair do CCF, SERASA e SPC… Será que ainda não deram baixa?
– Você não tem como conseguir esse dinheiro?
– Não! O pagamento é só no final do mês…
– Então deixe o celular empenhado até que consiga pagar!
– Olha, isso já me aconteceu antes, eu assinei um documento me comprometendo a pagar numa certa data e paguei… Conforme o prometido. Além disso, custa confiar um pouco numa pessoa que é cliente há anos?
– Sinto muito! Teremos que tirar a gasolina…
 E assim fizeram: Bate daqui, chupa de lá, chacoalha acolá… Chegaram até a erguer o Celestino no elevador de troca de óleo para facilitar o trabalho que durou mais de meia hora… Ao terminarem de retirar os vinte e seis litros e meio de combustível voador, João ouve a conversa entre os dois frentistas que fizeram o serviço:
– O que faremos com esta gasolina agora?
– Certamente, a patroa vai mandar pôr no carro dela…
 Infelizmente, o pobre, mesmo sendo cliente fiel, não tem direito sequer a um voto de confiança, enquanto os donos do capital usufruem dos benefícios de um sistema excludente que só direciona os olhos para os vitoriosos… (vitoriosos em quê?…)
 João dos Sonhos Azuis, apesar de já ter pago milhares de litros de combustível para aquele posto, perdeu a abastecida da semana… Ele perdeu a gasolina do Celestino, mas o posto perdeu um cliente assíduo…

 

Márcio Roberto Goes

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É NATAL

 
 É Natal! Toda a cidade, o país e o mundo mobilizados, afinal é hora de pensar nos festejos de fim de ano: reunir a família, comer e beber a vontade, dar e receber presentes, enfeitar a casa e as ruas…
 O trabalhador tem alguns dias de férias… O vendedor tem mais trabalho… O comerciante espera, vitorioso, as vendas de fim de ano… Enquanto isso, o pobre pai de família espera ansioso por um emprego, a fim de ter décimo terceiro e férias no fim do ano que vem, comprar presentes para a família, dar trabalho ao vendedor e engordar o bolso do comerciante, cujo filho tem brinquedos de última geração, roupas de marca, computador, Internet, celular e uma babá que certamente não tem férias e dá todo o amor e carinho que seus pais resolveram terceirizar… O filho do desempregado vive na periferia, onde nem Papai Noel tem coragem de chegar, brinca com o cachorro, gado de osso, terra e pedras às margens do esgoto a céu aberto… Usa roupas que não servem mais para seus quatro irmãos mais velhos e futuramente deverá deixar para os dois irmãos mais novos. Roupas compradas num bazar beneficente promovido por alguma turma de formandos que esperam ansiosos a colação de grau e uma chance para negociar a dívida com a faculdade, ter direito ao diploma e um lugar no mercado de trabalho, para ganhar dinheiro, comprar presentes, dar mais trabalho ao vendedor e engordar o bolso do comerciante…
 É Natal!… Cresce mais a economia de quem não economiza, mas também não reparte… É Natal!… De um lado, miséria, fome e crianças que já não alimentam esperanças de receber presentes do Papai Noel… De outro, luxo e desperdício, e um Papai Noel generoso que, como diz a canção, “não esquece de ninguém”, só dos pobres.
 É Natal!… O aniversariante dorme na manjedoura à espera de alguém que ainda lembre o verdadeiro sentido desta data… Ele vai crescer, desafiar as autoridades, repartir e multiplicar o pão, doar-se aos pequenos e aos pobres, inclusive àqueles que já não recebem a visita do Papai Noel, será condenado à morte de cruz, vai vencê-la e ressuscitar ao terceiro dia a fim de salvar a humanidade… Está completando dois mil e oito anos, não esquece de ninguém, “seja rico, ou seja pobre”… Pena que grande parte da humanidade (ricos e pobres), já esqueceu dEle e prefere acreditar só no Papai Noel, criado e alimentado pelo comércio capitalista que é desumano e valoriza muito mais o “ ter” do que o “ser”.
 “Dorme em paz oh Jesus”, porque é natal… O menino santo e pobre da manjedoura, agora dá lugar ao bom velhinho do trenó que traz presentes para uma seleta fatia da população que não tem tempo de comemorar o aniversário de alguém nascido no meio dos animais e que vive para salvar a humanidade.
 É Natal!… Então, feliz Natal!!!

Márcio Roberto Goes

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