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Tag: amor

As igrejas da Igreja

“Tu és pedra e sobre ela, edificarei minha Igreja…” Mt 16, 18

Com estas palavras, Jesus delegava a Pedro a difícil missão de prosseguir com sua obra aqui na Terra… Poucas palavras dentro de um contexto histórico, filosófico e religioso que, com o passar dos tempos, deu margem a inúmeras interpretações… Uns dizem ser Pedro o primeiro papa, outros acreditam que o papa é o anticristo, outros ainda nem têm consciência disso e vivem sua fé melhor do que se soubessem de todos os detalhes…

A verdade é que, em quase dois mil anos de história, muitas coisas aconteceram e me parece que Jesus não sonhou com a maioria dos acontecimentos, em seu nome, depois de sua morte e ressurreição: Guerras sangrentas, perseguições, venda de indulgências, cruzadas, inquisição… Um profundo desrespeito ao que não comunga com a mesma fé… Imagino Jesus, à direita de Deus, angustiado dizendo: “Pai, pelo amor de Deus, ou seja, pelo Teu próprio amor, deixa eu descer de uma vez pra avisar este povo que não foi isso que ensinei a eles…” E Deus, na sua infinita paciência, sinalizando com a mão para esperar mais um pouquinho… De fato, a Bíblia diz que nem o próprio Jesus sabe a hora que deverá voltar à Terra numa nuvem, ao som das trombetas e tals…

Hoje, não vemos muita diferença em relação a idade média. O único detalhe é que, em nome de Jesus, existem milhares de denominações que se dizem: igreja… Pior: cada uma delas acha que é a única certa… Todas elas, em alguns aspectos, continuam vendendo indulgências, condenando quem não acredita da mesma forma, perseguindo e matando moralmente quem não anda na mesma linha… Ou seja, as igrejas continuam incontestáveis… Mas, como não contestar algo que se dividiu tanto durante a história?

O amigo e a amiga leitora devem estar pensando que enlouqueci, pois todos sabem que sou Católico Apostólico Romano Praticante. Não é verdade, ainda não estou louco, apesar de ter laudo do psiquiatra… Continuo professando a mesma fé, mas me parece que muitos irmãos desta e de outras Igrejas, inclusive lideranças de paletó, gravata, ou batina, deturbaram o sentido da palavra: cristão… Portanto, percebo várias igrejas dentro da mesma Igreja, seja Católica, ou Evangélica e resolvi classificá-las…

A igreja do Louvor: É aquela que louva, treme, chora, dança, cai e levanta na presença do Senhor. Maravilhosa! Os fiéis desta classificação dizem se sentirem muito bem depois que saem de um encontro, ou culto, vão para casa e querem levar o amor de Deus a todas as pessoas ao redor. Agradecem pela casa, ou casas… pelo carro, ou carros… e outros bens materiais que conseguiram pela providência divina… Porém, em muitos casos, não enxergam o irmão necessitado diante do nariz e, quando o ajudam, tentam convencê-lo de que só terá sucesso quando se converter para sua placa religiosa…

A igreja do divino lucro: O dízimo é bíblico e necessário para a manutenção da igreja enquanto instituição, afinal, existem gastos como energia elétrica, abastecimento de água, materiais e produtos de limpeza, manutenção e impostos (Será?)… Porém, alguns fiéis só contribuem financeiramente por acreditarem que terão um retorno também financeiro para seu dízimo pelas mãos de Deus. Comparam, mesmo que involuntariamente, o Criador com uma instituição bancária que vai guardar seu dinheiro. e devolver com juros… Pouquíssimos cristãos entendem o dízimo como partilha, generosidade, ou seja, contribuir de forma espontânea e generosa para a manutenção da casa de Deus. E o dízimo não nos absolve de ajudarmos alguém necessitado. Este dinheiro deveria ser dado generosamente para manter os custos da igreja e não para receber de volta como bens materiais. Deus não faz negócios capitalistas…

A igreja da avareza: percebe-se que, muitos líderes de todas as igrejas cristãs comungam desta ideia e se mantêm escondidos num terno, ou numa batina, para arrecadar o máximo possível e sustentar seus votos de pobreza… Nas mãos destes reverendos, até os imóveis da instituição são alugados a terceiros para arrecadar fundos e, quando seus fiéis, sobretudo jovens, necessitam das dependências físicas, muitas vezes abandonadas, recebem a ordem de usar somente aquilo que não estiver ocupado por aqueles que nem sabem pra que serve uma igreja…

A igreja do status: Formada por pessoas extremamente vaidosas, embora não admitam. Os adeptos desta ramificação, só aparecem nas celebrações quando acham conveniente: batizados, casamentos, velórios, natal, páscoa… Como se Deus precisasse de data, ou ocasião, para ser procurado. Para estes pseudo-cristãos, o fotógrafo é mais importante que o celebrante, ou pregador, a roupa é mais importante que o sacramento, ou o momento de fé… O culto e a missa não passam de um show. Tudo é lindo e maravilhoso, mas sua vivência de fé termina ao dar o primeiro passo fora da igreja e, em alguns casos, não acontece nem mesmo dentro do templo…

A Igreja da partilha: A melhor de todas… Aliás, a única, a meu ver, que vive o Evangelho de Jesus… Pregada e vivida pela teologia da libertação, no caso da Igreja Católica, mas pode-se perceber adeptos deste verdadeiro cristianismo em todas as Igrejas que pregam o Evangelho de Jesus Cristo. A Igreja da partilha leva o Evangelho e as obras a toda criatura que estiver ao redor, sobretudo os que têm fome física e moral, buscam justiça social e libertação das amarras do capitalismo selvagem que só dá poder a quem já é poderoso…

Ali, na Igreja da Partilha, estão os verdadeiros cristãos, que dobram os joelhos em oração sim, mas também estendem a mão a quem precisa, além de orientá-los religiosa e politicamente… Sim, igreja é política, não aquela partidária, mas a política em si, que organiza a vida das pessoas… Os adeptos desta ramificação cristã, nunca se calam diante das injustiças… Estão sempre na luta em favor das causas populares. Seus líderes estão no meio do povo, falando sua língua, comendo seus alimentos e vivendo sua cultura, não precisam de roupas especiais para viverem seu ministério, evangelizam sempre e, às vezes, usam palavras…

Esta que chamo a Igreja da Partilha já existe, é conhecida por alguns, desconhecida por tantos, compreendida por poucos e vivida por pouquíssimas pessoas… Mas é a única que verdadeiramente converte e traz benefícios coletivos… A Igreja da Partilha…

Márcio Roberto Goes

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Amados amigos

Este texto pode parecer só mais um de tantos que já escrevi… Mas é especial e único, pois é remetido a grandes amigos, aqueles que têm um cantinho todo especial e exclusivo no meu coração: Meus queridos e amados alunos de ensino médio da Escola Estadual de Educação Básica Wanda Krieger Gomes…

Quando resolvi ser professor, já ao optar pelo magistério no ensino médio durante a década de 1990, aceitei tal desafio com uma condição: Que eu pudesse ser, no mínimo, amigo dos meus alunos… Há doze anos atuo como professor na rede pública estadual e, por alguns momentos também na municipal… Em toda escola que passei, deixei nascer grandes amizades que até hoje estão vivas e presentes em minha vida. Porém, a paixão avassaladora pela educação nasceu mesmo ao me deparar com uma escola que, apesar de já estar há alguns anos em funcionamento, não tinha sede própria. O prédio foi inaugurado no dia 26 de fevereiro de 2006, desde então sou professor efetivo do querido Wandão; o abacatão do Martello que agora apagou-se com tinta marfim, cobrindo obras de arte e sonhos dos nossos alunos brilhantes, meus grandes amigos…

Meus queridos, vocês são a personificação da “Escola dos meus sonhos”… Foi com vocês que aprendi, mesmo contrariando as estatísticas, que é possível uma educação diferente, dinâmica e humana na nossa escola… Na companhia de alguns de vocês, passei por várias escolas da região proferindo palestras, falando, ouvindo, cantando e encantando no melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas: A escola pública… Fomos até cantar na rádio e no Festival da canção: Lá, não tinha diferença entre professor e aluno, éramos iguais, torcíamos um pelo outro e comemoramos juntos nosso esforço que, infelizmente, não rendeu a classificação… Mas valeu pela experiência que eu gostaria de repetir em breve…

Mas o antagonismo sempre está presente na vida dos sonhadores, por isso, tive que lutar muito para conquistar espaço e a confiança das pessoas que estiveram presentes nas minhas vitórias e derrotas e esta luta, quase solitária, por uma escola mais humana me rendeu algo que antes julgava ser frescura da cabeça das pessoas: O estresse… Este vilão lento e silencioso que, aos poucos toma conta da vida de quem não se conforma com tudo o que vem de cima… Quisera eu ser apático, obediente, conformado… Mas não sou assim, tenho sangue nas veias e um coração no peito que bate constantemente clamando por dias melhores, por uma atenção maior das autoridades para nossa querida educação pública, por uma união maior de alunos, professores, pais e comunidade…

É claro que, com tantas frustrações, além do estresse, tinha que ter um quadro depressivo… “Você não está bem”: Ouvi esta frase do diretor, da Bruninha, de alguns alunos e professores, de parentes e amigos… Enfim, a gota d’água que me levou ao psiquiatra. O diagnóstico: TAG, Transtorno de ansiedade generalizada… Graças a este antagonista, estou afastado do meu mundo… Por um tempo, preciso cuidar da saúde… Infelizmente o lugar onde eu mais gosto de estar é também aquele que mais afeta para o agravamento do TAG…

Portanto, queridos, não os vejo todos os dias, não temos mais longas conversas sobre tudo que remete ao estudo das linguagens, não cantamos mais em espanhol… Mas os tenho em meu coração passional e, em breve, voltarei renovado… Quero agradecer imensamente cada palavra, cada gesto de apoio que venho recebendo de todos vocês. É por vocês que o “professor maluco” continua vivo…

O vilão do TAG será sepultado junto com todas as frustrações de uma educação que só é prioridade no palanque eleitoral… Afinal, a luta continua e conto com a ajuda de vocês nesta batalha…

Márcio Roberto Goes

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Uma meia-água é uma residência. Muitas pessoas vivem assim e nem por isso são menos gente, nem por isso deixam de ter conforto e um lar feliz. Aliás, a felicidade não se mede pelo tamanho da casa, pela qualidade das paredes, forro, ou telhado… Para ser feliz é necessário sê-lo, simples assim, como diria meu amigo Facebook

Pois bem. Estou de casa nova; uma meia-água, com paredes de madeira, carentes de uma reforma já iniciada com minhas próprias mãos, pondo em prática os conhecimentos repassados a mim por um finado carpinteiro que eu chamo de pai… No caminho, obriguei-me a deixar metade dos móveis, visto que não caberiam numa residência de vinte e cinco metros quadrados…

Aprendi que quanto mais coisas temos, menos necessitamos delas, que aquilo que sobra para mim faz falta para outra pessoa e, sobretudo, que a generosidade é a mais importante qualidade dos seres humanos… Fui generoso com muita gente doando os móveis que, aparentemente, me sobraram e muitas pessoas foram extremamente generosas comigo: Ganhei um jogo de cozinha de tamanho proporcional à minha nova casa, o meu ficou na casa antiga para ajudar outra pessoa, tive a ajuda incondicional da companheira para todas as horas, a namorada mais maravilhosa do mundo, minha polaquinha e escritora preferida: a Bruninha que não se importa em arregaçar as mangas, cerrar e pregar comigo… Sofreu até um acidente, acrescentando um coágulo de sangue a seu polegar da mão esquerda por conta de um vento que bateu no prego fazendo-a errar a martelada…

Outras pessoas também foram solícitas doando a mão de obra: O Paulinho que ajudou no assoalho e o Max na retirada de entulhos… Recebi muita ajuda num dos momentos mais importantes da minha vida: Finalmente, a casa própria… Uma meia-água, mas é própria. O meu aluguel “deixou a vida para entrar para a história”*… Agora posso bater no peito e dizer: Este lugar é meu! Devo explorá-lo do jeito que quiser, fazer o que bem entender sem me importar com nenhum locador chato e irritante pedindo meu dinheiro a cada fim de mês… Perdão, leitor! De repente me encarnou o espírito capitalista… Deus que me perdoe!… Na verdade, com exceção de um, não tenho queixa dos proprietários das quatro casas onde morei nestes três anos de aluguel…

Depois de trinta e cinco anos, após perder pai e mãe, um jovem resolve abandonar a casa de seus pais falecidos para que todos os cinco irmãos estejam em igualdade de condições para receber a herança. Inicia-se então um longo processo de inventário e o filho derradeiro fica por três anos pagando aluguel até que a vida lhe proporciona uma oportunidade única de ter a casa própria no bairro Martello escolhido por ele para firmar residência e construir uma vida feliz…

Prazer! Este jovem sou eu e depois de tanto tempo, conquisto o sonho de muitos brasileiros: a casa própria… E não precisei de nenhum programa de financiamento, apesar de acertar o pagamento em suaves prestações… Lembrei-me das olimpíadas da Língua Portuguesa com o tema: “o lugar onde vivo”… Vivo num lugar maravilhoso: vinte e cinco metros quadrados num terreno que fica no maior bairro da cidade, cheio de amores e desamores, tempos e contratempos, qualidades e defeitos inerentes a qualquer outro. Mas é o melhor lugar do mundo, só pelo fato de ser o meu lugar…

*Frase do presidente Getulio Vargas na sua carta de despedida antes do suicídio.

Márcio Roberto Goes

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Sonhos Azuis – CAPÍTULO VII

 

Adam é um bem sucedido empresário, herdeiro dos negócios de seu pai que começou comprando, reformando e vendendo carros usados, dando início a uma revendedora, hoje autorizada e perfeitamente documentada de veículos… Porém, mesmo vivendo mais um fim de ano, os negócios não andam nada bem para este jovem empreendedor que luta para aumentar seus lucros, apesar de já ter dinheiro o suficiente para viver confortavelmente por muito tempo. Emprega duas pessoas em sua garagem de revenda, um rapaz e uma moça. Por conta do movimento fraco, deu férias para o rapaz, mas fez um brilhante e sinistro jogo psicológico com a moça, dizendo-a que seria despedida caso não fizesse ao menos uma venda em uma semana… Nosso microempresário acorda, desafortunadamente mais tarde neste dia:

Bom dia, querida! Que hora são?
Oito e meia, meu amor!
O que?… Eu já deveria estar trabalhando! Disse para minha mulher que voltaria de viagem ainda hoje e que passaria em casa antes de ir para a revendedora… Deixei o carro na garagem da revenda para não levantar suspeitas, mas se a loja abre sem mim, minha mulher pode passar por lá e vê-lo, pensando que eu me encontro no recinto… Poderá entrar para falar comigo e tirar satisfações, visto que não passei em casa antes.
Não aguento mais esta situação. Você trate de escolher: ou eu , ou ela…
Querida, você sabe que te amo, mas para mim é difícil abandonar meus filhos…
Cansei de mendigar seus carinhos. Para mim chega! Me deixe em casa!
Mas meu bem…
Adam, há dois anos que você me engana e eu fico sempre com as sobras.

É, parece que aquela manhã de verão não amanheceu nada bem para nosso engravatado, mas ele poderia resolver o assunto com a amante depois. O importante agora era chegar o mais rápido possível na loja para tocar os negócios antes que sua mulher suspeitasse qualquer coisa, visto que seu escritório de contabilidade ficava no caminho da revendedora e se ela visse o carro do marido o tempo poderia fechar de vez.

Cadê meu celular?…
Na cabeceira da cama…
Mais essa agora. Tenho que ligar para a loja. Espero que aquela inútil já esteja lá…
Inútil? Até ontem ela era sua funcionária mais querida… O que houve? Ela não quis fazer o teste do sofá como eu?
Ah! Não amola!

Sua amante, esticada seminua, na cama daquela suíte de motel de luxo, ria despreocupadamente, um riso sarcástico, quase infantil, enquanto Adam tentava se justificar ao telefone:

Alô! Iracema?!
Bom dia, Adam… Temos um cliente querendo comprar o fusquinha azul…
E você não foi capaz de fechar negócio com ele, sua desnecessária?
Seria, se o carro estivesse aqui…
Onde está, afinal?
Esta com você, lembra?
Certo!…

Arrependeu-se da gafe, mas tentou não demonstrar… Não fica nada bem um patrão admitir o erro diante da plebe. Mesmo estando sentado a beira de uma cama de motel, com alguém que não é sua esposa, é preciso manter a classe que só os nobres têm.

… Já estou indo! Tive que passar na oficina fazer uns reparos… Carro velo é um problema, até foi bom aparecer um comprador, assim nos livramos desta bucha…
O que digo para o cliente?
Diga que já estou a caminho…

Ao voltar-se para a loira de olhos azuis, ainda na cama, exibindo um corpo bem desenhado e estonteante, percebe, pela primeira vez, o descaso em seu olhar que parecia tão excitante na noite anterior. Tiveram momentos de pura delícia, entregaram-se de corpo e alma para os prazeres carnais e imorais que só as coisas proibidas têm o poder de proporcionar aos mortais superiores do capitalismo selvagem. Há dois anos tinham a mesma rotina, nas horas vagas encontravam-se às escondidas, realizaram várias viagens juntos. Mas agora, ela estava decidida a acabar com aquela história, afinal já havia conseguido sugar de seu amante um apartamento, um carro zero e uma vida relativamente confortável, resultado de um único esforço: oferecer-lhe o melhor dos prazeres carnais… E isso a ninfeta tirava de letra. Adam dirige-se a ela em tom nervoso e egoísta:

Vista-se!… Tenho que ir para a loja o mais rápido possível.
Eu não tenho pressa…
Mas eu tenho… – Segurando-a pelos ombros- Tenho muita pressa. O meu casamento está por um fio, meus negócios não vão nada bem e você ainda tem humor suficiente para ser irônica comigo?…
Ai! Não faz assim que eu gamo, gato!…
Chega!… – jogando-a contra a cama – Vista logo esta droga de roupa que eu estou atrasado. Deixo você em casa… Seja discreta… Ainda bem que não estou com meu carro…
Havia esquecido que saímos com aquela lata velha azul… – vestindo vagarosamente a roupa – Odeio a cor azul!… É muito melancólica, me causa náuseas…
Você sabe ser deselegante quando quer…
Sou a amante… Esqueceu?… Tenho direito de ser complicada sem que meu parceiro ache isso o cúmulo.
Pois isso não me agrada mais!

Já vestidos os dois na lata velha azul, da cor das melancolias da filial loira, Adam resmunga reclamando o dia terrível que o esperava depois de uma noite maravilhosa. Não sabia o que fazer para correr contra o tempo… Sabia que tinha que passar pelo centro da cidade antes de ir para a revendedora, mas desta forma, passaria obrigatoriamente em frente a loja, podendo ser visto com outra mulher, e o pior, com outro carro… carro não, uma condução azul. Tudo isso para mascarar a situação… Preferiu dar a volta pela rodovia, fazendo o dobro do percurso. Estaciona a condução uma quadra antes do prédio da bonequinha loira:

Tchau querida!… Quando nos vemos novamente?
Por mim, nunca mais. Ou você me assume, ou não me procure mais!
Não tenho tempo para balelas, desça logo…

Ela desce indignada, mas sem perder a pose, jogando a bolsa sobre os ombros, ajeitando o vestido e batendo os calcanhares na calçada. Adam sai cantando pneu no asfalto rumo a revendedora para salvar uma venda e um casamento…

 

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Sonhos Azuis – CAPÍTULO VI

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Ao chegarem na revendedora, os dois irmãos de coração não avistaram o tal fusquinha azul. João para desconsolado, olha para todos os lados, vê todo tipo de carro: esportivos, utilitários, novos, seminovos, velhos, muito velhos, de todas as cores e modelos… porém a materialização de seus sonhos azuis não estava lá. Por um instante sente o chão desaparecer de seus pés, uma lágrima quase rola em seu rosto… Suas esperanças caíram no abismo, estava condenado a ficar, sabe Deus mais quanto tempo a pé… Não lhe agradava outro carro, queria aquele azulão, foi amor a primeira vista. Sua reflexão melancólica foi interrompida pela voz de Teófilo:
Cadê teu fusca, home de Deus?
Sei lá!… Acho que já venderam, vamos embora…

No segundo passo em direção a rua, ouve-se uma voz feminina e doce, que soou como música aos ouvidos do pobre e desanimado João dos sonhos Azuis:
Em que posso ser útil, senhores?
Como num passe de mágica, João paralisa e lentamente, nosso sonhador volve-se para trás novamente, ao som daquelas cordas vocais que penetraram seus ouvidos em direção ao coração, fato que, por um segundo o fez esquecer de toda a tristeza que invadia seu peito naquele momento. Agora encontrava-se frente a frente com o exemplar mais maravilhoso do sexo feminino que já havia visto: Seus cabelos longos, incrivelmente lisos e negros como a noite chegavam a reluzir com o sol da manhã e mover-se lentamente com a brisa, presos por uma discreta tiara, tergiversando um rosto puro e angelical de pele morena… Aqueles olhos negros e brilhantes pareciam penetrar sua alma como uma flecha que apesar de dolorida, era incomensuravelmente prazerosa… Um sorriso encantador, meigo e contagiante que alegraria até mesmo um cortejo fúnebre, composto por uma dentição perfeitamente formada. Um corpo escultural pelo que deixava-se revelar debaixo de um terninho azul-marinho e camisa branca… Todo este monumento perfeitamente acomodado sobre um par de pés de princesa que calçava sapatos pretos, conduzindo-a ao encontro dos dois jovens… Nosso sonhador azul não conseguia desviar o olhar daquela formosura personificada, mas seus ouvidos puderam ouvir a voz de Teófilo, que subitamente o faz voltar ao mundo real:
João, ela tá falando com a gente!

Quem?

A moça.

Há, sim! – E voltando-se novamente para sua mais nova musa – Bom-dia, senhorita!

Bom-dia! Posso ajudá-los?

Acho que não, queria testar um fusca que vi ontem, mas parece que já venderam…

Que pena, foi vendido ontem, no final da tarde.

Neste momento, João estremeceu por dentro, achando que tudo estava perdido, quando a moreníssima vendedora continuou:

Era um vermelho, né?

Não! Ontem eu olhei um fusca azul, estava aqui, perto da cerca…

O azul?… Ontem esteve aqui um senhor dando uma olhada, mas acabou levando um carro mais novo e financiou em trinta e seis vezes.

Entendo! Mas onde está o fusquinha azul então?

O Adam foi com ele para casa ontem.

Adam!?… Foi com ele que eu conversei na tarde de ontem.

Você é o João?

Sim, sou eu…

Adam disse que você viria hoje. Daqui a pouco ele chega. Quer aguardar?

Sim!

Dentro de meia hora ele deve estar aqui, vamos entrar. Vocês aceitam um cafezinho?

Claro! – Olhando para o crachá – Obrigado Iracema!

As ordens!

João parecia mais leve com a possibilidade de voltar para casa a bordo de seu sonho azul, enquanto entravam no escritório, não pode deixar de observar novamente Iracema que parecia desfilar a caminho da porta, como numa passarela… Nem sentiu o gosto do café, poderia estar frio, fraco e amargo que não faria diferença diante da beleza inenarrável que a sua frente observava. Sobre o teclado do computador, deslizavam dedos finos, de unhas bem cuidadas em duas mãos de fada que lhe deixavam quase extasiado.

Enquanto isso – estorvava Teófilo perguntando para a moça– podemos dar uma olhada nos outros carros?

Fiquem a vontade, se precisarem de ajuda é só chamar.

E lá se foram os dois irmãos de sentimento, se distraírem um pouco com os outros modelos a venda. Teófilo, não se conteve:

Você não tirava os olhos da moça, João!

Bonita, né? – Na verdade, ele queria dizer linda, maravilhosa, formosa, extraordinária, sobrenatural… e tantos outros adjetivos que aquela beldade merecia…

Será que meu melhor amigo está apaixonado?

Magina! Já não dou mais bola para estes sentimentos ilusórios…

Aquela meia hora parecia demorar uma eternidade… João dividia-se entre a ansiedade de ver o fusquinha azul e levá-lo para casa e a vontade quase incontrolável de voltar ao escritório para aproximar-se novamente da vendedora, mas conteve seus impulsos e permaneceu observando os demais veículos à venda… De vez em quando, com o canto dos olhos fitava o escritório discretamente e por duas vezes, cruzou seu olhar com aqueles olhos negros que o fizeram quase perder o rumo da conversa com seu amigo.

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