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Sonhos azuis – Último capítulo

Do fundo do meu coração, agradeço a cada um dos 16000 leitores assíduos deste site e do Portal Caçador que acompanharam cada capítulo desta que é a primeira trama prosaica de um cronista que resolveu dar uma de romancista… Gostei da ideia e, com certeza, teremos um novo romance de folhetim com minha assinatura, em breve… Semana que vem, uma jovem escritora, que além de namorada é uma companheira para todas as horas e compartilha comigo a paixão pela escrita, vai revelar seu talento aqui neste portal com o romance Mariah, de autoria de Bruna Tainara Bialeski que faz uma participação especialíssima neste último capítulo…
Mais uma vez, obrigado por valorizarem minha obra e espero que gostem do final desta trama escrita e revisada com o coração de um sonhador que tentou projetar aqui muitos dos sonhos das pessoas ao seu redor…
Com vocês, o último capítulo!

CAPÍTULO XXIV

Adam não aceitou Iracema em sua casa, preferiu pagar um hotel. E ela, por sua vez, foi parar num prostíbulo, obrigada a vender o corpo para sobreviver… João, naquele mesmo dia, registrou, na delegacia o abandono de lar e trocou as fechaduras das portas externas para garantir que Iracema não entrasse lá enquanto ele não estivesse em casa… Não se sabe de onde garrou coragem para tomar tais atitudes, visto que sempre fora pacato, mas as intempéries da vida ensinam o ser humano a ser duro consigo mesmo em alguns momentos…
Naquela noite, João quase não dormiu… Já fazia uma semana que dormia sozinho, mas a situação agora era diferente, aquela cama parecia ter triplicado o tamanho e a frieza. A solidão não dava tréguas e o travesseiro encharcava com suas lágrimas de dor e indignação… Assim foi durante três noites.
Na sexta-feira pela manhã, ao chegar na escola, João visualiza, vindo ao seu encontro, sua aluna mais querida, com um sorriso terno e protetor atípico de uma jovem de ensino médio… Não se sabe porquê, nosso sonhador presta atenção nos olhos da Roseli:
Bom-dia, querida! Seus olhos são verdes?
Sim, sempre foram, professor…
Outro dia, quando você me esperava no fusca eles estavam azuis. Percebi quando você levantou a cabeça e me abraçou…
Quando eu choro eles ficam azuis…
Interessante! Nunca tinha visto nada parecido…

João não queria admitir, mas sabia que sua aluna estava chorando por causa dele. No fundo, ela sabia que seu professor preferido ia sofrer e, antes de qualquer coisa, Roseli pergunta:

E aí, sua mulher já voltou?
Ex-mulher…
O que houve?
Ela me abandonou. Disse que tem outro…

E os olhos de sua aluna mais querida ficaram azuis, da cor de seus sonhos, da cor do céu, da cor do seu fusquinha e de suas esperanças meio apagadas pelos atropelos que a vida lhe proporcionou nos últimos dias… Os dois se abraçaram, choraram juntos meio sem saber os motivos um do outro para tantas lágrimas. Por alguns minutos, assim ficaram, sem se importar com o mundo ao redor… Chamaram a atenção de todos, mas ninguém conseguiria tirar a atenção de um pelo outro…
Um sentimento muito forte tomou conta do coração de nosso sonhador. Não sabia a razão, mas sentia uma imensa tranquilidade nos braços de sua aluna mais querida. Não queria largá-la. Queria tornar eterno aquele momento. Sua mente e seu coração provaram, ao mesmo tempo uma série de sentimentos contraditórios, mas que o faziam sentir-se bem, de uma maneira que há muito tempo não sentia…
Lá por meados da terceira aula, alguém bate à porta da sala de aula, no meio de uma oração coordenada assindética recém escrita e explicada pelo sonhador de sonhos azuis… Ao abrir a porta, se depara com uma aluna que trazia em mãos um papel manuscrito, devidamente dobrado e lacrado:

Mandaram entregar pra você, professor…
Quem mandou?
Alguém que gosta muito de você.

Não poderia lê-la de imediato. Estava trabalhando. Segurou-a com as duas mãos por um momento, levando-a até o peito e depois guardou-a, cuidadosamente no bolso do jaleco… Já suspeitava o conteúdo e a remetente…

Obrigado! Em casa eu leio…
Ela quer a resposta…
Segunda. Pode ser?
Tá…

Trabalhou o resto da manhã ansioso e, ao meio dia, a primeira coisa que fez ao chegar em casa foi ler, atenciosamente a carta enquanto esquentava o almoço no micro-ondas. Conheceu a letra e as palavras comumente usadas nas produções de texto de sua aluna mais querida no conteúdo daquele manuscrito:

 

*“Hoje vi o meu professor mais querido triste, sem ânimo para nada. Não vi aquele sorriso lindo, nem ouvi sua voz inconfundível. Sei bem que não é um dia bom para você, mas eu precisava que este dia chegasse para te dizer algo muito importante.
Desde a primeira vez que te vi e ouvi, senti meu coração acelerar, não sabia porque, não tinha ideia que o carinho que sentia por você se transformaria nisso: Amor. Na verdade era só paixão, e eu achei que fosse passar. Mas infelizmente, ou felizmente, não passou. Presto atenção em cada gesto seu, cada palavra pronunciada por sua boca. Sua voz é a mais suave que já ouvi, seu abraço é o mais apertado e caloroso, logo se percebe que não é difícil se apaixonar por alguém assim. Ao vê-lo triste e magoado, me senti na obrigação de lhe contar isso, quem sabe um dia eu tenha a chance que sempre esperei de te fazer feliz. Só não havia contado antes, porque você era comprometido, e não queria atrapalhar seu relacionamento. Mas agora, sei que posso ao menos tentar tirar essa dor de dentro do seu coração. Sei que deve ser estranho ouvir isso de uma aluna de primeiro ano de ensino médio, com apenas quinze anos, uma “menina de bosta”. Mas uma menina que jamais faria você passar por isso novamente. João…Você é o homem mais incrível que já conheci. Deve ser por isso que amo tanto você…”
“Não acredito!”… Pensava ele…
Ela sempre escreve textos maravilhosos falando de amor e das coisas do coração – Falava baixinho enquanto lia – Mas nunca pensei que o destinatário fosse eu..

Agora tudo fazia sentido: Os abraços demorados as carícias discretas, os olhares que sempre o buscavam durante as aulas, a preocupação com a vida sentimental de um professor… Mas, apesar de Roseli mexer com seus sentimentos há muito tempo, preferiu ignorar as palavras daquela carta corajosa e reveladora. Foi com o coração doído que disse a ela na segunda-feira:

Não dá!
Mas porquê? Você está livre agora…
Sou professor e você é aluna. Temos que manter a relação profissional. Acho que você está confundindo as coisas. A diferença de idade é muito grande. Haverá sérios conflitos de gerações, vamos nos complicar aqui na escola além de não haver aprovação por parte das pessoas ao nosso redor e das nossas famílias.

 

Roseli não desejaria sua dor a ninguém naquele momento… Seu mundo caíra e parecia que não havia possibilidades de levantar novamente. Estava loucamente apaixonada. Finalmente teve coragem de se revelar e foi duramente rejeitada…
João sabia que estava machucando um coração puro, mas não queria viver o mesmo tormento que teve com Iracema. No entanto, por alguns dias prestou mais atenção na sua aluna mais querida e percebeu que havia uma diferença monstruosa nos pensamentos e atitudes dela comparados com as meninas da mesma idade na escola. A viu com outros olhos. Era uma mulher, linda por dentro e por fora, sempre sorridente, alegrava o ambiente por onde passava, mostrava-se generosa e atenciosa com ele, mesmo depois de tê-la magoado…
Um dia, na primeira aula, João a encontra triste no seu lugar:

O que houve, querida?… Seus olhos estão azuis… Você chorou?…
Ainda pergunta?… Não esperava que fosse assim. Queria que você me desse uma chance de fazê-lo feliz como a outra não fez…

Os olhos cor de mel de nosso sonhador também encheram-se de lágrimas, mas conteve-se antes que elas escorressem para o mundo exterior:

Precisamos conversar – Disse, após recuperar os sentidos – mas tem que ser fora daqui…

Marcaram um encontro no parque central no domingo a tarde… Garoava. Recebeu sua aluna mais querida no fusquinha que os levou até um lugar mais sossegado, onde o amor tomou conta. Um abraço apertado, troca de olhares, palavras sinceras e bonitas… Um sentimento puro e mútuo tomou conta dos dois corações.. E, finalmente, o beijo… Meio tímido, demorado e maravilhoso como nenhum outro na vida de ambos…
Naquele momento, João dos sonhos azuis volta a ser o que era na sua essência: um sonhador… Fita os olhos de sua aluna ainda mais querida e vê renascer do fundo do seu baú de sonhos azuis aquele jovem sonhador que há muito tempo esteve adormecido para a vida… E volta a sorrir… E volta a viver… E volta a sonhar… Sonhos azuis da cor do céu, da cor de seu fusquinha, da cor do amor… Sonhos azuis…

 

* Trecho da obra de Bruna Tainara Bialeski

 

 

FIM

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