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Sonhos Azuis – CAPÍTULOXII

 

No dia seguinte, ele não tirava Cema da cabeça… Ela não esquecia da noite maravilhosa que passara ao lado do João… E assim permaneceram, rotineiramente, por algum tempo. Encontravam-se quase todo dia, só folgaram nas festas de fim de ano, porque já tinham combinado com suas famílias, cada qual passou as festividades junto dos seus… João, como há muito tempo não acontecia, conseguiu passar o Natal e o fim de ano com sua mãe e os quatro irmãos… Iracema, acompanhou as festividades com seus tios, que já não pareciam mais tão terríveis assim: Amando o João, ela aprendeu a amar também seus padrastos.
João e Iracema: um casal que se completava com suas diferenças, loucamente apaixonados um pelo outro… O mundo parecia parar quando estavam juntos… Aquele amor parecia ser eterno, nada os abalaria, nada os venceria, nada destruiria esta relação baseada em muito carinho e dedicação. João dos sonhos azuis nunca antes estivera tão bem e feliz, em todos os aspectos… Nunca mais seria o mesmo, jamais sofreria novamente por amor… Estava vivendo a melhor fase de sua vida…
Seis meses se passaram. Era inverno. João já havia se efetivado como professor em uma escola pública no centro da cidade, graças ao concurso que fizera três anos antes. Cema continuava como vendedora de carros. João, todas as manhãs passava no trabalho dela antes da hora do almoço, por vezes almoçavam juntos. Algumas vezes ele dormia na casa dela, outras ela dormia na casa dele… Raramente passavam um dia sem se ver e quando isso acontecia, ficavam pendurados ao telefone durante horas… Esta era a rotina de nosso casal de sonhos azuis…
Numa manhã de frio, João acorda com a tosse de sua mãe, que aparentemente voltava com mais força que no ano passado:

Tossindo de novo, mamãe?
É! Quase não dormi esta noite… Mas logo passa, meu filho, se Deus quiser.
Se cuida, minha véia!

O café parecia mais amargo naquele dia, engolia o pão com dificuldade enquanto ouvia aquela tosse insistente de sua mãe agravando-se sem dar tréguas. Sentiu um grande aperto em seu coração, mas procurou não demonstrar… Poderia não ser nada, só uma crise de tosse típica dos fumantes… Nada que um chá caseiro não resolvesse.

Tô indo! Bença, mãe?
Deus te abençoe, meu filho…

Não conseguiu se concentrar direito no trabalho: alunos e colegas perceberam que João não estava bem… Ele tentava disfarçar, mas não conseguia… Seu coração, ainda apertado, parecia estar prevendo algo muito impactante em sua vida. Só pensava em sua mãe, sabia dos riscos que um fumante corre, principalmente ela que não largava o tabaco desde os treze anos, e já nos sessenta e oito, aos poucos, dava sinais de rendição.
Onze horas e quarenta e cinco minutos da manhã… Nosso sonhador de sonhos azuis sai da escola ansioso, passa na revendedora e leva sua namorada par almoçar em casa. Chegando lá, Cema também percebe a situação da mãe dele:

O que houve, dona Áurea?
Não sei, deve ser uma gripe muito forte!

João, percebendo que a situação se agravava, sabia que deveria tomar uma atitude:

Mãe, hoje à tarde estou de folga. Vou levá-la ao médico… Depois do almoço esteja pronta, quando eu levar a Cema, levo a senhora junto e passamos no posto de saúde.

Assim o fez. O médico a examinou e prescreveu alguns remédios, entre eles um xarope para a tosse… Enquanto Áurea tomava o xarope, a tosse foi amenizada… Isso por uma semana, depois a situação voltou a ser como antes…
Durante quatro meses a tosse continuava e os médicos que a examinavam receitavam remédios e mais remédios que, de forma alguma resolviam o problema.
João já não dormia direito, só pensava em solucionar o problema de sua mãe, mas não via nenhuma melhora considerável… Praticamente abandonou seu amor, ele e Cema viam-se de vez em quando e por pouco tempo. Pediu ajuda a Anita que atendeu prontamente seu clamor:

Maninho, vamos levar mamãe no plantão do hospital. Hoje, o plantonista é um médico muito bom. Tenho certeza que ele vai resolver de uma vez por todas este nosso martírio, pelo menos poderá dar um diagnóstico mais preciso do que se passa com a velhina.
Tudo bem, Anita. À noite vou levá-la no plantão e você vai comigo. Certo?
Certo!
Só tenho um grande medo… Espero que eu esteja errado…
O quê?
Tenho medo que seja câncer…
Não! Magina… Isso deve ser alguma infecção mal curada. É só dar o diagnóstico certo e a medicação funciona.

Na verdade, Anita tinha o mesmo medo do João… Abraçaram-se e concomitantemente uma lágrima correu em seus rostos… Lágrima de medo e insegurança mútuos. Estavam preocupados, mas não deixavam que dona Áurea percebesse…queriam poupá-la de qualquer preocupação antecipada… Mas o medo existia e a possibilidade era grande.
O médico plantonista examinou a mãe de nosso sonhador e, pela primeira vez, pediu um raio X, que foi feito no próprio hospital… João pode ouvir de longe o médico, com a chapa na mão, falando ao telefone:

Doutora, estou com uma paciente que apresenta algumas manchas preocupantes no pulmão. Poderia examiná-la?

Ao desligar, dirige-se a João e Anita que já estavam de mãos dadas e rosário no meio das mãos, esperando o diagnóstico. O médico então dirige-se a eles:

Vamos ter que interná-la. Chamei a doutora Angélica para examiná-la mais precisamente, só assim poderemos saber com mais precisão o que é que a mãe de vocês tem.
É grave, doutor?
Calma, Anita… Vamos esperar o diagnóstico da doutora

João via suas suspeitas cada vez mais perto da confirmação… Infelizmente… Ele sabia que a doutora em questão era especialista em oncologia. Seu coração ficava cada vez mais apertado e já não tinha mais esperanças de melhora da sua progenitora.
Aquela noite, dona Áurea passou em observação no hospital, acompanhada por sua filha Anita. João foi para casa e levou Cema para fazer-lhe companhia, porém passou a noite em claro…

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