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Sonhos Azuis – CAPÍTULO XXIII

 

Chegando em casa, João é recebido pela sua esposa que lhe parece um tanto indiferente, mesmo assim mantem o sorriso:
Oi, Cema! Como foi a viagem?

Boa! Muito proveitosa…

Nosso sonhador de sonhos azuis estranha a falta de detalhes no relato da viagem:

Por que não deu notícias?

Meu celular estava sem bateria, além do mais estava muito ocupada…

Posso ver o certificado?

Que cerificado?

Do curso… Você viajou para fazer um curso… Ao final de todo curso, os participantes recebem um certificado…

Vem pelo correio.

Quando?

Não sei! Por que tanto interesse num pedaço de papel?

Um pedaço de papel que prova que você fez um curso… A que horas você chegou?

Perto das oito…

Quase que me pega em casa ainda… Estava recém saindo para trabalhar…

Eu vi!

Como?…

Iracema percebe a bola fora, mais do que de pressa disfarça:

Não me amola! Vou para a cama, preciso descansar…

Antes, quero te fazer uma pergunta: Não tem nenhum ônibus de Florianópolis a Caçador neste horário. Com que transporte você voltou?

Por favor, preciso descansar!…

Sem maiores satisfações, a morena traíra entra no quarto batendo os calcanhares de brava, enquanto João acompanha tudo calado. Depois de um momento extasiado, Nosso sonhador começa a preparar o almoço para sua amada enquanto prepara o coração para uma conversa mais séria. Aquela uma hora e meia até a refeição do meio-dia, parecia não ter mais fim, entre um tempero e outro, João se pegava pensando no pior… Será que esta mulher está me traindo?… O que farei se for verdade?… Como viverei sem ela?…

O almoço está pronto, meu amor!

Sua esposa sai do quarto com cara de quem não descansou um minuto sequer, vai até o banheiro, joga uma água no rosto e senta-se à mesa com ar disfarçado…

Fiz aquele macarrão que você gosta…

Unhum!

Depois da quinta garfeada, João não suporta a agonia e pergunta:

Tá acontecendo alguma coisa?

Por que?

Você está estranhamente diferente…

Nada, só estou cansada. Ainda bem que o Adam me deu folga hoje…

Você viu o Adam Hoje?

Hã?

Tem alguma coisa estranha nesta história…

O que?

Tá acontecendo alguma coisa. O que é?

Não quero falar agora!

O que está acontecendo, Iracema?

Você não está preparado!

Estou, pode falar…

Nada, não! Paranoia sua! Você tá colocando chifres em cabeça de cavalo…

Será que o cavalo em questão não sou eu?

Para João!

Me diga, o que está acontecendo?

João, pela primeira vez, desde o casamento, acaba perdendo a paciência com sua amada. Iracema, acuada, obriga-se a antecipar sua sentença:

Quero me separar de você!…

Ela estava certa: Seu marido não estava preparado para receber tal notícia. João não contem as lágrimas, mas logo recuperou o fôlego:
Por que quer fazer isso comigo Cema?

Não me faça perguntas. Quero a separação e pronto!

E tudo o que vivemos juntos?… Lutei contra minha família para ficar com você e agora você me abandona assim?… Qual é a razão dessa decisão?

Chega! Nada do que você me disser, vai fazer eu mudar de ideia!

Você tem outro?

Tenho…

Pronto! Aquela foi a gota d’água. Tudo estava consumado. João sabia que seu casamento poderia ter salvação, mas se existia a traição é por que o amor abandonou aquele lar há muito tempo… Não tinha mais o que fazer, transcendia a sua vontade de pobre e miserável sonhador de sonhos azuis. Lá do fundo do seu coração, toma coragem para dizer as palavras que serviram de consolo para ele mesmo:
Hoje você dorme no quarto de visitas… Procure o mais breve possível outro lugar para morar…

Não! Saio hoje mesmo desta casa. Só te peço uma coisa: que me leve até a revendedora, amanhã venho buscar o resto de minhas coisas…

É o Adam?

O quê?

O teu amante, é o sem-vergonha do Adam?

Já disse para não me fazer perguntas…

Enquanto Iracema arrumava as malas, João dos Sonhos Azuis chorava baixinho imaginando como seria a vida dali para frente… Todos os seus sonhos de constituir uma família perfeita estavam sendo jogados, cruelmente, no abismo… Todos os seus sonhos azuis abortados de seu coração e lançados ao lixo, por causa de uma aventura: loucura da cabeça daquela safada ingrata, fazendo com ele o mesmo que fez com seus padrastos e seus namorados no passado. Nosso sonhador era agora mais uma vítima da Iracema… Pensava que poderia mudá-la, sempre acreditou na mudança das pessoas, afinal um professor sempre acredita… Mas não conseguiu… Foi vitimado, martirizado, mutilado pelo coração cruel e desumano de uma mulher que não fez mais que brincar com seus mais sublimes sentimentos, fato que era uma constante na vida dela… Pelo jeito, voltava a ser… Além do mais, tudo desmoronou, afinal perdera as duas mulheres mais importantes de sua vida: a mãe e a esposa…

Depois das malas prontas, conforme o combinado, levou-a até a revendedora.

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