Aperte "Enter" para pular para o conteúdo

Sonhos azuis – CAPÍTULO XXII

 

 

Estranho… Já é o terceiro dia e a Cema nem me ligou para dar notícias do curso…

Desabafa João em visita ao Teófilo naquela tarde de quinta-feira em que ambos tinham folga:
Não se preocupe, amigo! Com certeza está tudo bem… Tirou aquelas minhocas da cabeça?

Minhocas, não!… Todas as evidências levam a comprovar minhas suspeitas…

Ligou para a revendedora?

Ainda não, mas cada vez que passo lá não vejo o carro do Adam…

Mas o portão está aberto?

Sim!

Então alguém está na loja… Porque não entra para se certificar de que ele está na cidade. Seja lá quem for que esteja cuidando do estabelecimento, poderá te dar esta informação….

Seja lá quem for que esteja lá, deve ter ordens para mentir para mim, se minhas suspeitas estiverem corretas…

Mas não custa tentar…

Meio ressabiados, a bordo do fuscão da cor do céu e das desconfianças do João, os dois amigos vão até a revendedora, onde são recebidos por um atendente estranho:

Boa tarde senhores! Em que posso ser útil?

Em seu crachá, lia-se: “Robson Smit – Vendedor”… Era o mesmo sobrenome do Adam

Boa tarde! O Adam se encontra?… Semana passada estive aqui vendo alguns carros e gostaria de ver se fechamos negócio hoje…

Pode ser comigo mesmo!

Não! Gostaria de continuar negociando com ele!

Qual seu nome?

João da Silva…

Robson lembrou-se logo das recomendações do irmão: Não ligar para ele, em hipótese alguma e não dizer para ninguém onde ele estava, principalmente para um tal João do fusca azul…
Ele teve que sair…

Tudo bem, eu espero…

O senhor não gostaria de voltar amanhã?

Não! Prefiro esperá-lo!

Mas ele não volta hoje…

Certo! Eu volto outro dia…

Quer deixar recado?..

Não precisa… Obrigado!

Estava comprovado: O atendente reserva não falara a verdade: alguma coisa estava sendo escondida de João… Completaram-se os sete dias de gestação da desconfiança do João e da preocupação de Adam que não via nenhum resultado ao tentar convencer Iracema a mudar de ideia… Tentara de tudo, até prometer mais um aumento de salário, mas nada adiantava…

Na manhã daquela terça-feira, enquanto os dois amantes já estavam na estrada, quase chegando a Caçador, João se preparava para o trabalho: Cada gole de café aumentava sua angústia… – “Por que ela não deu notícias?… Será que chega hoje conforme o prometido?…”- Pensava ele enquanto abotoava o jaleco… Escovou os dentes demoradamente e seguiu lentamente até sua máquina azul, da cor de suas melancolias…
Te deixo na rodoviária?

Dizia Adam para a índia dos cabelos cor da noite sem luar, ainda na estrada:
Não precisa! Já está na hora do João sair para trabalhar… Vai me dar folga hoje?

Claro! Você se dedicou muito neste curso…

Entendo…

Enquanto isso, João entra no seu veículo da cor do céu, coloca a pasta no banco de trás e dá a partida… Adam e Iracema já ultrapassam a entrada principal de Caçador… João dirige de vagar e distraído em direção ao trevo que dá acesso à rodovia que o levará até a escola… Adam a cento a vinte por hora se aproxima do mesmo trevo… João a sessenta, ouvindo rádio, com o pensamento distante nos seus sentimentos cheios de conflitos… João saindo… Adam voltando… João sinaliza para a esquerda… Adam para a direita… João obedece a placa de “ Pare”… Adam está na preferencial… João viaja nos seus pensamentos… Adam passa… Por um instante os veículos se cruzam, mas os olhares não. Nosso sonhador de sonhos azuis estava muito preocupado para prestar atenção nos carros que cruzavam o trevo em direção contrária. Ainda bem… acabara de se livrar de mais uma angústia…
Olha, Adam!… Um fusca azul… É o João!

Por que esse professorzinho tinha que passar por aqui justamente agora?

Será que ele nos viu?

Espero que não!

João segue seu trajeto absorto em suas preocupações até a chegada na escola. Sua aluna mais querida o encontra no portão com o abraço de sempre:

Oi professor! Como vai?

Tudo bem, querida… E você?

Também estou bem! Sua mulher já voltou de viagem?

Ainda não… E o estranho é que não me mandou nenhuma notícia nestes dias!…

Não acredito que ela fez isso com o senhor!… Quando ela chega?

Hoje!

Então logo vão matar as saudades!…

Na verdade, estou até com medo do reencontro…

Ela tem feito o senhor sofrer, não é?

De certa forma sim…

Pois eu acho que ela não é merecedora do seu amor!

Aquelas palavras ecoaram em seus ouvidos durante as três únicas aulas que tinha naquela manhã. Achava tudo aquilo muito estranho, além de tudo, pegou-se desabafando com uma aluna… Não era certo, mesmo sendo sua aluna mais querida, não deixava de ser uma aluna e ele não deixava de ser um professor…

Ao final da terceira aula, pega seu material e segue para o estacionamento. Em frente ao fusca da cor de seus sonhos, encontra-se a aluna mais querida, cabisbaixa com seus olhos azuis escondidos pelo lindo cabelo loiro, sentada no para-choques:

Desculpe, professor! Mas eu não podia deixar de te dar mais um abraço hoje. Sei que está precisando e de certa forma eu devo obrigação ao senhor…

Obrigado, querida… Logo estarei bem! Tudo vai passar! Acho que minha esposa já chegou…

Nenhum deles entendeu o porquê, mas naquele momento escorreu uma lágrima dos olhos de sua aluna mais querida, parecia tomar as dores de nosso sonhador… Parecia prever algum tipo de sofrimento por parte de seu mestre… João voltou alheado em seus pensamentos, dentro de sua condução azul da cor de sua falta de sono, rumo a sua casa do outro lado da cidade… Não sabia o que encontraria lá… Não sabia o que fazer com seu coração apertado… Só sabia que já não era mais o mesmo… Iracema também…

 

 

 

Seja o/a primeiro/a a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *