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Sonhos azuis – CAPÍTULO XVIII

 

No começo tudo é algodão doce, depois, com a convivência, começam as desavenças. Um conhece os segredos, as qualidades, os defeitos e, por consequência, os pontos fracos do outro…

Num domingo, João descontraído assistia ao Esquenta na rede Globo: Regina Casé chamou umas mulatas para mostrarem samba no pé, em trajes menores, aqueles usuais das escolas de samba. Como já assistia ao programa, não teve nenhuma reação, continuou fitando a telinha da poderosa do “Plim! Plim!”, sem maiores preocupações… Reação de verdade teve a Iracema quando adentrou a sala e viu seu marido olhando aquilo na televisão:
Quer dizer que você assiste a este programa só para ver essas muié pelada?

João conteve sua ira súbita, própria de quem leva a fama sem merecer e respondeu educadamente:
Não meu amor, estou já há algum tempo assistindo TV…

Ela continuou reclamando. O jeito foi mudar de canal…

O que está acontecendo? – Pensava nosso sonhador de sonhos azuis – Não era assim há algum tempo…

Parecia que estava tudo bem, que seriam um casal perfeito, sem brigas, desavenças e controvérsias. Mas o tempo, ainda que curto prova mutas coisas aos seres humanos apaixonados, inclusive o fato de as paixões serem passageiras… Feliz de quem consegue substituir a paixão pelo amor…

Já não pareciam tão felizes nossos pombinhos dos sonhos azuis… Ao saírem de carro, Iracema cuidava cada olhar do João quando parava nas esquinas… Ele olhava para a direita, olhava para a esquerda e, se passasse uma mulher bonita, mesmo que ele não olhasse com segundas intenções, estava feita a encrenca. Iracema não esquecia o fato por muito tempo… A primeira dama dos sonhos azuis desconfiava de tudo o que se relacionava ao seu marido. Nos pensamentos de Cema, quando ele se vestia bem, era para ver uma suposta amante, se precisava sair sem ela, estava evitando. Se era educado com suas amigas, estava dando mole… João esquecera então o que era dar um abraço apertado em alguém que não fosse sua mulher… Mudou o jeito de se vestir, começou a controlar as palavras, já não se divertia mais na presença dos amigos, não contava piadas, não cantava… Seus sonhos azuis foram escurecendo, tudo pela sua amada que lhe controlava os horários, o perfume, a hora de ver TV, ou navegar na Internet… Quando ele se demorava no computador, sua mulher já queria justificativas, quando se atrasava um pouco para voltar do trabalho, a desconfiança se fazia presente…

Ele tentava ser agradável com as pessoas, cumprimentá-las despreocupadamente nas ruas, buzinar para os conhecidos, sorrir e abraçar ao encontrar-se com grandes amigos, mas tudo ia acontecendo com uma frequência e intensidade cada vez menores, em prol de uma tentativa para manter um casamento feliz…

Apesar de tudo, mantinha-se fiel a sua moreníssima de olhos negros, recusava os assédios e se afastava de mulheres que pudessem revelar qualquer intenção que despertasse desconfiança de sua amada…

João era outra pessoa: Sorria diferente, falava diferente, caminhava diferente, se vestia diferente… Tudo minunciosamente fiscalizado pela sua índia amada e idolatrada…

Mas o casamento se mantinha intacto, em nome da moral e dos bons costumes…
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