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Sonhos Azuis – CAPÍTULO XVII

 

Bom-dia, Iracema!

Bom-dia, Adam!… Sabe que até foi uma boa ideia você me convocar para trabalhar durante minha licença. Assim não preciso passar muito tempo naquela casa monótona…

Ué? Já está cansando da vida de casada?… Hoje ainda é segunda-feira, apenas dois dias depois do seu casamento! Aliás, você estava linda!…

Obrigado!… Depois que te conheci, qualquer outro homem se torna cansativo…

Cuidado! Não me tente!…
Adam aproxima-se com intensão de abraçá-la e roubar-lhe um beijo, A moreninha safada desvia o rosto:
Só porque casou, não quer mais me beijar?

Agora não dá… É muto arriscado… Alguém pode entrar e nos surpreender.

Está a fim de fazer umas horas extras hoje?

Não! Estou de licença… Lembra? É melhor nos cuidarmos um pouco por uns dias.

Acho que não vou aguentar esperar muito tempo!…
Assim falando, Adam fecha a porta do escritório e todas as cortinas,para preparar o ninho da sacanagem ali mesmo no local de trabalho…

Nosso João dos chifres azuis dorme até tarde naquele dia… Ao contrário de Iracema, o seu marido gozou os oito dias de licença garantidos a um funcionário público… Passa o restinho da manhã vistoriando e guardando alguns presentes de casamento que ainda estavam embrulhados. Prepara um almoço especial para seu amorzinho que chegaria faminta do trabalho: “Pobre Iracema – Pensava ele – Nem mesmo casando consegue folgar daquele trabalho quase escravo da revendedora…”

Enquanto cozinha, recorda, como num flashback, alguns dos momentos vividos com sua amada Iracema… A primeira vez que a viu, tímida, na revendedora… O primeiro encontro… O primeiro beijo… a primeira vez que fizeram amor a bordo do fusquinha da cor de seus sonhos… O noivado… A convivência… O casamento…

De repente, lembra-se do acontecido na lua de mel. A pergunta inquietante permanecia em sua mente: “Como é que ela já conhecia o motel?”… Será que ele tinha sido traído pelo grande amor de sua vida?… Na certa ela havia estado lá antes de o conhecer… É uma hipótese… Como saber? Só perguntando. Foi o que fez, durante o almoço, criou coragem e perguntou para sua amada:
Você já conhecia aquele motel em que passamos a noite de núpcias?

Não! Porque essa pergunta agora?

Não lembra do comentário que você fez na entrada?
Iracema estava ciente de que havia falado demais, mas fingiu que não lembrou:
Não! O que foi que eu disse?

Você disse que os quartos daquele motel eram ruinzinhos demais, por isso deveríamos escolher uma suíte… lembra agora?
A morena dos olhos negros buscava uma saída para aquela situação:
Mas em todo motel a suíte é melhor que o quarto… Aliás, em qualquer lugar uma suíte é melhor que um quarto… Pelo menos eu acho que sim…

Você falou com a convicção de quem já conhecia o lugar…

Por que isso agora?… Nós sempre nos demos tão bem!… Vai começar a complicar agora que estamos casados?
João calou-se, mas seus sentimentos não poderiam jamais esquecer aquele pequeno detalhe. Depois que percebeu o comportamento contrastante da Iracema, suas suspeitas voltaram com mais forças: “Essa mulher tá me traindo” – pensava ele enquanto terminava seu almoço…

A tarde foi levá-la para o trabalho e ficou observando de longe qualquer atitude suspeita… após meia hora de espera, sem ver nenhum movimento estranho, volta para casa cuidar da baixela. No final do expediente, vai buscá-la calado, porém desconfiado… Por muito tempo, nosso sonhador guardou este sentimento, quase imperceptível por sua esposa e, às vezes repetia os mesmos questionamentos, buscando uma confissão forçada da traição. Quase sempre terminava em discussão… Quase sempre, quem cedia era o João…

Pobre sonhador de sonhos azuis… Não sabia que seu anjinho moreno dos olhos negros, da cor de seus pesadelos havia desenterrado seu passado e seria ele a próxima vítima descartável das suas garras… Estava cego de amor… Seus olhos percebiam todas as evidências, mas seu coração se negava a aceitar… Estava vivendo um sonho, não queria torná-lo um pesadelo… não queria despertar para a realidade… Mesmo inconscientemente ele escolhia o conformismo: Era mais cômodo, evitava novos e maiores atritos entre um jovem casal…

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