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Sonhos Azuis – CAPÍTULO XVI

De vagar, a vida começava a tomar novos rumos para João. Conseguiu, finalmente efetivar-se numa escola pública na periferia da cidade, continuou sonhando e lutando, agora com mais força, pois tinha sua mãe intercedendo por ele lá no céu… assim acreditava lá no fundo de seus sonhos…

Os preparativos para o casamento foram realizados com muito cuidado por ele e pela Iracema, que a cada dia chegava mais tarde do trabalho. Dizia que tinha que fazer hora extra para colocar em dia alguns papéis… Assim, nosso sonhador de sonhos azuis acreditava estar tendo o melhor e mais duradouro relacionamento amoroso de sua vida… seria eterno… seria inabalável…

O grande dia chegou. Último sábado de fevereiro… O professorzinho estava pronto para casar com sua indiazinha. Era uma brilhante miscigenação, do índio brasileiro, representado por Iracema, descendente de Kaigang, e dos portugueses, representados por João dos sonhos azuis… até parece coisa de José de Alencar…

Enquanto sua noiva sumia de suas vistas a fim de enfeitar-se para a festa, João cuidava pessoalmente dos preparativos: A Igreja estava enfeitada, o som regulado, o restaurante reservado e preparado com música ao vivo… Tudo certo para o grande momento em que nosso Joãozinho deixaria de ser um rapaz solteiro e sonhador para tornar-se um homem e constituir família… Um de seus sonhos azuis, quem sabe o principal deles, estaria sendo realizado naquele dia.

Compareceram cerca de cem pessoas à cerimônia, todos muito bem acomodados nos bancos da Paróquia Nossa Senhora Rainha… A Igreja enfeitada com muitas flores brancas e amarelas, um tapete vermelho ao centro da porta até o altar, de banco em banco corriam tiras de seda branca intercaladas por arranjos de crisântemo e flores do campo… Os convidados, na maioria simples, mas mantiveram a tradição do traje social… Entre os padrinhos da noiva, estava Adam, que acompanhado de uma amiga do casal, parecia mais nervoso que o próprio noivo… João, por sua vez, exibia um terno azul-marinho, colete da mesma cor, camisa branca e gravata cinza, na lapela esquerda, trazia um botom do Sagrado Coração de Jesus, lembrança de sua mãe que de certa forma, ele acreditava estar presente naquele momento…

Finalmente, abrem-se as portas da Igreja ao som da tradicional marcha nupcial. Aparece Iracema com seu tio-padrasto… ainda mais bonita… ainda mais brilhante… ainda mais sorridente, com um vestido branco de longas rendas, ombros cobertos e os cabelos negros da cor da noite soltos, pedido do próprio João, somente uma tiara discreta da mesma cor do vestido o prendia… Lá vinha ela… A cada passo, o coração do João batia mais forte… Nosso protagonista sonhador não pôde conter as lágrimas de alegria que teimavam em cair de seu rosto… Encontram-se no meio do corredor e dirigem-se até o altar.

Teófilo, como não podia deixar de ser, junto a sua namorada, formava um dos casais de padrinhos do noivo e acompanhava atento a cerimônia de enlace do seu melhor amigo com Iracema… Do outro lado, Adam refletia, no fundo de seu coração, indignado: “Como pude deixar isso acontecer?”… Ele se sentia culpado por não insistir no rompimento de relações entre os noivinhos, por outro lado, o fato de continuar sendo amante o redimia de qualquer outro compromisso com sua funcionária mais querida, a não ser os prazeres da carne… Mas de qualquer forma, não era nada agradável para ele, estar ali, naquele momento, participando como testemunha de uma união que já começava por caminhos tortuosos…

Após o “sim” , os convidados foram recepcionados no restaurante que já os recebia com música ao vivo. No jantar, transcorreu tudo normalmente, como de costume, passaram o sapato da noiva e a gravata do noivo a fim de angariar fundos para a lua de mel… Depois da janta, os noivos transitaram pelas mesas cumprimentando os convidados, ao abraçar Adam, a noiva ouviu-o sussurrando em seu ouvido:

Agora vou ter que repartí-la eternamente com este professorzinho?…
Não se preocupe, a melhor parte fica com você…
João, pela primeira vez, sentiu ciúmes ao ver a demora descomunal do abraço entre um padrinho de casamento e a noiva… Sentiu uma imensa falsidade nos olhos e no aperto de mão do patrão de sua morena que agora o cumprimentava, desejando-lhe felicidades nesta nova etapa de suas vidas…

A abertura oficial do baile foi feita com a valsa dos noivos, que dançaram rodeados pelos convidados. Em seguida, o baile transcorreu normalmente com a boa música campeira gaúcha… João não dançou, em respeito a memória de sua mãe, porém Iracema deu a graça da sua companhia a alguns convidados, entre eles, Adam, que mesmo a uma certa distância sussurrava palavras quentes enquanto ela fingia nada estar acontecendo, concordando com tudo acenando discretamente com a cabeça… Nosso sonhador observava tudo calado… Tudo parecia muito estranho, mas pensava que fosse momentâneo em virtude da adrenalina do momento.

Como sempre acontece, os noivos fogem no meio do baile para a tão sonhada lua de mel… Antes de ligar seu fusca da cor de suas expectativas, joão olha nos olhos de sua noiva, e mesmo um tanto inseguro, declara:

Neste momento, estou levando a minha felicidade dentro do meu fusquinha…
Eu também estou muito feliz, meu amor…
Beijaram-se demorada e apaixonadamente. Seguiram então, pela primeira vez para o motel… Na entrada, o atendente, por detrás de um vidro escuro pergunta:
Quarto normal ou suíte?…
A morena dos olhos azuis da cor dos sonhos do João, interrompe cochichando para seu noivo:

Prefiro suíte, amor. Os quartos daqui são muito “ruinzinhos”…
João arregala os olhos admirado… “Como é que ela conhece este motel? – matutava em segredo com seus pensamentos – Nunca estivemos aqui antes!…” Mesmo assim, ignorou suas suspeitas que só faziam aumentar em seu peito e viveu aquela noite intensamente… Fizeram amor como nunca haviam feito antes… Agora eram marido e mulher, nada mais seria proibido… Entregavam-se de corpo e alma um para o outro sem pudores nem preconceitos… Acreditavam ser o casal mais feliz do mundo…

 

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