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Sonhos azuis – CAPÍTULO XV

 

Cinco horas da tarde… O telefone toca:
Alô!… João?
Oi Anita! Como estão as coisas?…
Nada bem!… Mamãe acabou de falecer… Vai arrumando as coisas por aí…

A partir daí, nosso sonhador só ouviu o choro de sua irmã ao telefone… Ele também não se conteve. Precisou sentar para recuperar o fôlego… Não acreditava no que havia ouvido. Sua mãe, sua heroína, seu exemplo de vida agora estava esticada, sem vida numa cama de hospital a mais de quatrocentos quilômetros de distância… Com o coração partido foi até e funerária mais próxima a fim de preparar o velório… Era preciso apressar-se, pois seria uma longa viagem de ida e volta até a capital. Chamou Iracema depois do expediente para ajudá-lo a avisar os familiares e amigos. Muitas pessoas vieram visitá-lo em casa enquanto o corpo não chegava… O primeiro a chegar, foi seu amigo de todas as horas, Teófilo que ficou até próximo da meia noite com ele:
A que horas chega o corpo, João?
Está previsto para as quatro da manhã…
Então as quatro estarei lá na casa mortuária!… Até amanhã… Força amigo!

Despediram-se com um longo e caloroso abraço que só os melhores amigos sabem dar.
A noite foi muito longa para João e Iracema que dormiu em sua casa. Nosso sonhador de sonhos azuis não conseguiu dormir mais que quinze minutos até a hora de ir para a capela mortuária esperar sua mãe que agora voltaria sem vida.
O carro da funerária chegou com uma hora de atraso, seu melhor amigo já estava lá e permaneceu durante todo o tempo com ele.
Ao ver o corpo de sua mãe, João ficou paralisado… Não conseguiu ter reação alguma naquele momento… sua mente e seu coração não acreditavam que naquele caixão de madeira estava o maior e melhor exemplo de sua vida reduzido a nada… frio, imóvel, estático… Não era sua mãe, a não ser pelo semblante sereno que mesmo depois de morta deixava revelar em seu rosto.. Anita veio junto no carro da funerária e assim que desceu, João a recebeu de braços abertos. Choraram um no ombro do outro… Anita estava inconformada, achava que devia ter feito alguma coisa, mas não conseguiu. Nosso sonhador juntou o restinho de forças que ainda tinha para dizer corajosamente:

Maninha, querida… Mamãe descansou… Seria muito egoísmo nosso querer que ela permanecesse viva e sofrendo só para nos agradar… Agora ela está mais perto de Deus, suas orações serão ainda mais fortes… Vai poder interceder por nós aqui na Terra…

Ouvindo estas palavras, Anita sentou-se perto do caixão que já havia sido posto na primeira sala da casa mortuária…

Vá descansar um pouco, maninha!
Não, João… Vai ser pior. Tenho certeza que não conseguirei dormir sossegada…

Logo amanhece o dia e começam a chegar as homenagens em forma de flores e coroas. Um amigo da família pergunta:

Precisa de alguma coisa, João?
Sim! Hortênsias… Minha mãe gostava muito de hortênsias.

Menos de uma hora depois, o caixão estava rodeado de hortências azuis… Da cor do céu, da cor do mar, da cor dos sonhos do João… A missa de corpo presente aconteceu as quatro da tarde, com a capela lotada… Nunca se tinha visto tanta gente num velório de uma pessoa tão simples… Apesar do momento, o cemitério chegava a ficar bonito com tanta gente e tantas flores, sobretudo hortênsias azuis, que deram um toque de personalidade para aquela celebração.
O caixão estava agora a caminho de sua derradeira morada e a única pessoa que não fazia parte da família que ficou até o último tijolo, foi Teófilo, seu melhor amigo que ainda o acompanhou até sua casa, só saindo de lá com a certeza de que tudo estava bem.
Aos poucos, Iracema foi levando suas coisas para a casa de seu noivo e quando João se deu conta, já estava morando com a morena dos olhos negros… Nosso sonhador estava contente com a proximidade do casamento, porém não se recuperara da perda irreparável de sua progenitora e conselheira… Iracema se sentia acuada com aquela situação. Parecia que João só vivia das lembranças de sua mãe e esquecia de viver o presente com ela.
A bem da verdade, jamais um ser humano se recupera da perda de uma mãe, ainda mais quando estão sempre muito próximos e unidos… João sabia disso, tentava se acostumar com a ideia, mas sabia que jamais sua vida voltaria a ser como era antes… Por alguns meses deixou de viver as coisas boas da vida para mergulhar no sofrimento da ausência de sua mãezinha. Esqueceu-se até de seus mais desejados sonhos azuis, que ainda eram tantos… Sonhava quase toda noite com sua mãe: ainda estava viva, mas só ele percebia isso, as demais pessoas presentes em seu sonho não viam nem ouviam, muito menos sentiam a presença de dona Áurea… Muitas vezes pedia a benção antes de dormir, ou antes de sair de casa e não recebia nenhuma resposta… Certa manhã, levantou-se da cama com a sensação de que ia encontrar sua mãe na beira do fogão de lenha, tomando seu chimarrão como sempre… Mas não passou de ilusão.
De qualquer forma, a saudade de sua mãe não era total, pois sempre a encontrava em seus sonhos… E diuturnamente lembrava das últimas palavras que ouviu dela ao telefone, cinco horas antes de sua morte:

Deus te abençoe, meu filho!…

 

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