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Sonhos Azuis – CAPÍTULO XIV

João dos sonhos azuis chega apressado ao hospital e pergunta ao porteiro por sua mãe:

Hora de visita é só a tarde…
Só queria fazer uma troca de acompanhante.
O outro acompanhante tem cinco minutos para descer.
Obrigado!

Aquelas escadas pareciam não ter fim… João subia pensando nas possíveis situações que o esperavam… Será que sua mãe teria melhorado?… Será que dormiu bem?… Ficaria mais alguns dias?… Quantos?… Estaria liberada?… A tosse havia passado?…
Na porta do quarto encontra Anita que o recebe com um abraço estranhamente apertado:

Precisamos conversar, meu irmão.
Depois, agora quero ver minha mãe… Como está minha véia?
Melhorei um pouco… Tô só no soro…
Vê se não se entrega… A senhora já venceu tantas batalhas, não é agora que vai perder, né?

Anita observava tudo com lágrimas nos olhos, um tanto distante para sua mãe não perceber. Parecia que já sabia de alguma coisa que ainda não havia sido contada para o João…

Vem cá, meu irmão!

Puxando João para fora do quarto, encostou-se no corredor a uma distância em que sua mãe não pudesse ouvir:

O que houve, maninha?
A doutora esteve logo cedo examinando a mamãe e o raio X…
E daí, me conta… Ela vai ficar muito tempo no hospital?
É difícil falar…
Fala logo! Tá me deixando nervoso…
Lembra da sua suspeita?
O quê?… É câncer?…
Exatamente! Câncer no pulmão… E é mais grave do que suspeitávamos…
Mas hoje em dia, qualquer câncer tem cura… Pode-se fazer cirurgia, quimioterapia, até transplante…
Não! O tumor é maligno e já está avançado… Nossa mãe não tem muito tempo de vida… A doutora vai encaminhá-la o mais rápido possível para a capital.

Aquilo doeu como um punhal em seu coração… João sentiu um nó na garganta… Tudo estava consumado… Sua vida daria uma volta de trezentos e sessenta graus sem sua mãezinha. Mas não havia tempo para chorar, ele precisava cuidar de dona áurea naquele dia… ela não podia perceber nada… Fez um esforço sobrenatural e agiu como se nada tivesse acontecido.
Finalmente, conseguiram encaminhamento para Florianópolis, onde sua mãezinha estaria em boas mãos, com uma estrutura que diminuiria seu sofrimento inevitável… A temperatura estava um pouco baixa para uma primavera naquela manhã. Dona áurea seguiu viagem na ambulância acompanhada por dois enfermeiros e sua única filha, Anita. João despediu-se com um beijo na testa…
A bênção, minha mãe!
Deus te abençoe, meu filho!
Coragem, véia Áurea… A senhora vence mais essa!
No fundo, ele sabia que não venceria. Temia ser a última vez que beijava a fronte e tomava a bênção de sua mãe… Queria que tudo aquilo fosse mentira… Queria acordar, subitamente, daquele pesadelo… Gostaria que fosse possível uma cura, uma recuperação… Não estava preparado para perder aquela que lhe deu a vida…
Uma semana depois, nosso sonhador abasteceu seu fusquinha da cor de seus sonhos e partiu para Florianópolis, acompanhado de Iracema e dois de seus irmãos… Anita já estava lá e o quarto irmão morava perto da capital, podendo visitá-la todos os dias… Nosso sonhador passou aquele que seria o último dia na companhia de sua progenitora. Voltava para sua cidade esperançoso de que sua mãe pudesse passar o natal em casa, mas no fundo sabia que a volta não seria da maneira que ele imaginava… Poco tempo depois, aconteceria o inevitável…
Dona Áurea era uma católica convicta, devota de Nossa Senhora, amante da oração e da caridade, jamais se deitava para dormir sem rezar o terço, trabalhava em vários movimentos da Igreja, como: apostolado da oração e pastoral da saúde, admirava e cuidava das plantas como pedras preciosas. Só tinha dois vícios, o chimarrão, que sempre partilhava com a vizinhança, e o cigarro, grande antagonista de sua vida.
Esse vilão que a acompanhou durante quase toda a sua vida terrena de sessenta e oito anos, lhe rendeu este câncer no pulmão, que a levou ao Hospital Nereu Ramos em Florianópolis, onde passaria os últimos dias de sua vida, acompanhada de sua única filha mulher.
Logo no primeiro dia de internamento, na entrada do hospital, profetizou com a seguinte frase, já na cadeira de rodas, diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus em tamanho real:

Oh meu Senhor Jesus, eu me entrego a Ti, seja feita a Tua vontade…

Durante vinte e oito dias em meio a soro, dreno, inalação e tubos de oxigênio, contagiou médicos, enfermeiros e pacientes com seu jeito otimista e cômico de ver a vida. Certa vez sentiu a presença de um anjo que a ungiu com óleo os pés, as costas e os ombros. Fato que fez ela e a filha acreditarem na cura até então utopia.
Os dias passavam e o oxigênio tornava-se cada vez mais raro para aquela senhora, deixando nossas duas guerreiras cada vez mais próximas, mais humanas e mais divinas.
Foi num domingo ensolarado e quente, que aconteceu a cura de nossas duas guerreiras: Estavam elas no quarto do hospital, o oxigênio de Áurea regulado na capacidade máxima, já não fazia mais o efeito necessário para mantê-la viva, seu pulmão fora todo dilacerado e escoado pelo dreno. A filha, vendo que a hora estava próxima começa a rezar o terço com o rosário entre as mãos dela e da mãe, que com muito sofrimento ainda tenta acompanhar as contas daquela oração que foi sua grande defensora durante toda a vida…
Dois anjos em forma de criança aparecem na janela chamando aquela guerreira para sua maior e última vitória… Uma leve brisa enche o quarto até então sufocado pelo calor e pela carência de ar puro, trazendo o sopro de uma vida nova.
Atendendo ao chamado, ela deita sua cabeça pela última vez, sobre o leito, tendo em suas mãos o rosário e as mãos trêmulas de sua filha também guerreira. Seu semblante de sofrimento e dor agora é sereno, de uma serenidade tamanha, que nos faz acreditar que a vida vale a pena e que nenhum sofrimento é maior que a nossa capacidade de vencer.

 

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