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Sonhos Azuis – CAPÍTULO XIII

Como vai o professorzinho, Cema?

Perguntava Adam, ironicamente, logo cedo, enquanto ajeitava a gravata no colarinho, segurando alguns papéis no antebraço…

Você deve estar brincando comigo… Quem me chama de Cema é o meu amor…
Pensei que não estivessem mais juntos…
Por que?
Há dias que não vejo aquele monte de lata azul vindo te buscar…
Há dois dias, mais especificamente… Mas é bem verdade que você raramente está aqui no final do expediente. Quase sempre tenho que fechar esta espelunca sozinha…
Desculpe! Parece que temos alguém nervosa por aqui…
Ele está cuidando da mãe no hospital…
Que futuro você acha que vai ter com este cara?
Em primeiro lugar, não é da sua conta… Em segundo lugar, estou com ele por amor…
Será que ele te ama mesmo?
Claro que sim!
Então porque está te abandonando aos poucos?
Está cuidando da mãe dele, já disse!
Quando alguém ama de verdade, abandona tudo para viver o amor…

Iracema é salva daquela conversa desagradável com a chegada de um cliente… Adam o atende, enquanto isso seu pensamento viaja… Por um momento imagina que as palavras de Adam possam ser verdadeiras. A mãe do João não está nada bem, mas ele tem outros irmãos que poderiam cuidá-la… Sente medo de perdê-lo para uma velha que está a beira da morte… Seu coração apaixonado começa a cultivar dúvidas e mais dúvidas sobre a sua relação com o professor sonhador de sonhos azuis… O fusquinha já não parecia tão aconchegante como antes, estava batendo a lataria, algumas vezes precisava ser empurrado para pegar no tranco, visto que estava com a bateria fraca, não tinha aparelho de som, como o carro do Adam e de tantos outros que conhecia e vendia… Parece que seu amor agora era instável… Precisava resgatar o João, ou o perderia para sempre. Por outro lado, se continuasse com ele, teria que ajudá-lo a cuidar de sua mãe por toda a eternidade, caso sua doença melhorasse, ou conviveria com uma pessoa que por muito tempo choraria a morte da velha… De qualquer forma, era melhor garantir que não perderia este que ainda era o grande amor de sua vida: Aquele que causou uma profunda transformação em seu caráter e sua personalidade. Nunca mais foi a mesma pessoa depois que conheceu o João… Nunca mais brincou com o amor como se fosse um jogo de cartas. Outra Iracema nasceu no dia em que conheceu aquele jovem sonhador de sonhos azuis…
Adam volta ao balcão sem realizar a venda, mas não parecia nervoso por isso:

Sabia que estou sozinho?
E sua mulher?
Acabei de me separar… Não dava mais certo… Muito ciumenta…
E os filhos?
Ficam com ela, poderei vê-los de vez em quando…
Sinto muito!
Já que seu professorzinho anda meio distante, não gostaria de jantar com um homem de verdade, hoje?
Sinto muito de novo!…
Ele não te merece!
Não me obrigue a ser mal educada com você…

Salva, novamente por um cliente, a moreníssima encosta os cotovelos na mesa, apoiando o queixo com ambas as mãos e põe-se a observar seu patrão que tentava realizar a primeira venda do dia. Via-o diferente das outras vezes: mais bonito, mais elegante… Sempre de terno e gravata, sempre impecável… Nem se comparava a calça jeans, camisa social e colete usados por seu professorzinho. Percebia Adam charmoso pela primeira vez… Observava o jeito de parar, com uma mão na cintura e a outra no queixo… Os cabelos castanho-claros, quase loiros, sempre bem penteados, a barba bem feita diuturnamente, seu perfume, seu sorriso, seus olhos verdes… Tudo, de repente começou a lhe chamar a atenção. A antiga Iracema ressurgia, por um momento, das cinzas. Teve ímpetos de aceitar seu convite para jantar, mas manteve a postura de funcionária. Subitamente volta a si e percebe que está prestes a cometer mais uma besteira em sua vida… Já havia cometido tantas e nunca terminaram bem. Agora que tinha firmado compromisso com um único homem e já estava de casamento marcado para fevereiro do próximo ano, precisava manter a postura… Mesmo abalada, a atitude de boa moça precisava prevalecer…
Mais uma vez, o cliente sai sem comprar um veículo… Mais uma vez Adam volta, cheio de charme ao balcão:

E então, vai aceitar meu convite?
Um outro dia!

Não quis ser deselegante desta vez. Um “não” poderia parecer grosseria, assim ela se livrava da situação e não criava atrito com seu patrãozinho… Na verdade, não respondeu negativamente por falta de coragem, ou porque seu coração, em dúvida depois de tanto tempo, não deixava…

O próximo cliente, você atende… E trate de começar a vender mais, se não cabeças vão rolar… E você sabe que cabeça rola primeiro… A corda sempre arrebenta do lado mais fraco, querida!
Tudo bem!

Aquilo soou como uma ameaça em seus ouvidos, situação que deixou seu coração ainda mais dividido…
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