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Sonhos azuis – CAPÍTULO XI

No dia seguinte, nosso protagonista apaixonado dos sonhos azuis não conseguia tirar aquela morena do pensamento. Tudo o que imaginava para seu futuro, envolvia aquele par de olhos negros em um rosto angelical de pele morena ladeado por cabelos longos e negros, da cor da noite… Sua preocupação se dividia em revê-la mais tarde e nas crises de tosse que continuavam acompanhando sua progenitora.

Mamãe, o chá não está resolvendo… Vamos ao médico!
Prá quê?… Ele vai me receitar um monte de remédios e xaropes que não vão resolver, fique tranquilo que logo ficarei boa… Deve ser este tempo seco, mas estou tomando água o tempo todo para lubrificar a goela…
Vou dar mais uma volta de fusca…
Se cuida, meu filho…
Por três vezes passou em frente a revendedora, mas não teve coragem de parar… Tinha medo de atrapalhar o trabalho de sua nova razão para viver, afinal as coisas estavam preocupantes para o lado dela também. Precisava vender mais para continuar garantindo o emprego.

A linda morena, por sua vez, também não parava de pensar na noite anterior enquanto observava a chuva que começava a cair, e seu coração tão calejado rendia-se aos caprichos da paixão… Pela primeira vez, sentia-se amada novamente desde que perdera seus pais… Porém, lá no fundo de seus pensamentos tinha medo deste sentimento que lhe assolava o coração e a alma tão repentinamente… Temia não fazer-se feliz, temia não fazer o João feliz… Tinha medo de magoar-se, tinha medo de magoar o pobre e apaixonado mancebo. Ainda não sabia se o amor que sentia em seu peito era verdadeiro… Ainda não sabia se o amor de seu príncipe moreno dos olhos cor de mel revelava também um sentimento verdadeiro…

Por um instante, o filme de sua vida passou em sua frente: Lembrou-se de todas as travessuras feitas na infância e adolescência. Fugiu da casa de seus tios por duas vezes, só para deixá-los preocupados e criar a ilusão de que assim teria uma importância maior na vida deles… Era a mais cobiçada do bairro… Os meninos faziam fila para dar-lhe um selinho e ela tomava aquilo como uma inocente brincadeira. A menina cresceu e sua inocência diminuiu, porém continuava sapeca… Mas os riscos agora eram maiores, pois tudo que um adulto faz, tem repercussão infinitamente maior que as atitudes de uma criança ou adolescente. Já teve envolvimento com outros homens, brincou com os sentimentos deles, tinha-os como descartáveis… Eles precisavam dela, porém não parecia que ela precisasse deles, a não ser para o sexo… De repente tomou consciência de suas atitudes passadas e em silêncio, propôs-se uma mudança: tentar ser a mulher dos sonhos do João, fazê-lo feliz, ser feliz também… Já não lhe causava mais prazer o fado de brincar com os sentimentos alheios…

Iracema percebeu então no João, a solução para todos os seus problemas. Poderiam casar-se, ela sairia definitivamente da casa dos tios ingratos, tornar-se-ia independente, teria finalmente um lar, um marido amoroso que a tratasse como merecia… Poderia constituir família e descobrir a felicidade, enfim… Seu exame de consciência foi repentinamente interrompido pela voz de seu patrão:
Parabéns pela venda ontem!

Obrigada!
Aquilo lhe causou certa estranheza… Adam nunca lhe tinha feito um elogio, mesmo quando os negócios do engomadinho iam bem. Além do mais, com tantos carros melhores, mais novos e mais valorizados na loja, por que seria elogiada, justamente pela venda de um monte de lata velho, redondo e azul?… De qualquer forma, o fusquinha vendido ontem era da cor do céu, da cor de suas esperanças ressuscitadas e da cor da salvação de seu emprego… Aquilo fez Iracema mudar seus conceitos sobre seu patrão, antes tão intransigente e amargo, agora um pouco mais relacionável…

Seis e meia da tarde, calor de vinte e oito graus naquele vinte de dezembro… Encosta na frente da revendedora aquela mancha azul-celeste, da cor dos desafetos do Adam, da cor da esperança de Iracema, da cor dos sonhos do João que adentra ao estabelecimento com um sorriso estampado no rosto, há tempos não visto… Cumprimenta Adam e espera ansioso pela liberação da sua morena. Adam aproxima-se de Iracema resmungando a meia boca:
Você está namorando esse professorzinho?

Sim! Algum problema?

Não! Só para perguntar…
De fora do balcão, João cumprimenta a razão do sua alegria:
Oi Cema!

Oi amor! Já estou indo!…
Antes de entrar no carro, Nosso apaixonado João a convida para fazer um lanchinho a noite, mas antes passa em casa para que ela e sua mãe sejam apresentadas…

Oi, mãezinha? Melhorou?
Sim, meu filho! Acho que era a poeira, a chuva de hoje a tarde acabou com minha tosse…
Se cuida, minha véia!… Olha, esta é Cema, minha namorada…

De cara, dona Áurea não gostou muito da morena dos cabelos negros cor da noite, cor de sua preocupação, cor de sua desconfiança… As mães sempre enxergam muito além da percepção de seus filhos, ainda mais uma senhora experiente de sessenta e oito anos… Porém conteve-se:
Muito Prazer!

O prazer é meu!
Por meia hora, a jovem foi submetida ao interrogatório típico das mães que recém conhecem sua nora: Onde mora… Quantos anos tem… Quem são seus pais… Onde trabalha… Como conheceu seu filho…

Em seguida, passam na casa de Iracema para ela tomar banho e se trocar para a ocasião. Ao sair do quarto, parecia ainda mais linda: Pela primeira vez, João a via sem o uniforme de trabalho. Trajava um vestido azul, da cor de seus sonhos um pouquinho escurecido, revelando enfim as curvas perfeitas daquela morena dos cabelos lisos e cheirosos, com os ombros e as costas a mostra, deixando nosso sonhador ainda mais apaixonado.

Fizeram seu primeiro lanche a sós, numa lanchonete simples do centro da cidade… A sobremesa: Amor… dentro do fusquinha azul, da cor de seus sonhos e do prazer mútuo que pela primeira vez sentiam com aquela intensidade. O vestido já não importava mais, pois começavam a conhecer-se um ao outro integralmente, e para isso, as roupas não eram bem-vindas.

Com os bancos reclinados, contemplavam a lua cheia pela janela, trocando carícias que já previam o próximo ato… Estavam felizes: João, sentia-se jubiloso pelos dois sonhos realizados: o carro e o amor… Cema, pela primeira vez em muitos anos, sentia-se feliz na companhia de outra pessoa… Estava selado o compromisso entre duas almas que se completavam através de suas diferenças. O restante do mundo não interessava. O momento era de intensa paixão… E quando dois seres estão apaixonados tudo fica mais bonito…

No fundo do pensamento de ambos, se desenhava um futuro feliz, um namoro curtinho, um casamento longo, casa própria, filhos… Uma nova família… Não conversavam sobre isso, mas os olhares revelavam as intenções mais coesas…
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