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Sonhos Azuis – CAPÍTULO X

Dezoito horas e vinte minutos, João chega de carona com Teófilo, talão no bolso, esperança no coração:

Obrigado Teófilo!

De nada! Precisando, é só chamar…

Adentrando ao portão, avista em primeiro plano o fusquinha da cor de seus sonhos, em segundo plano, Adam com um olhar de cobiça e atrás do balcão, Iracema, que olha timidamente e o cumprimenta acenando discretamente com a mão. O microempresário mercenário o recebe no meio do caminho:

E aí João… Pronto para fechar negócio?

Sim! Como faremos?

Você pode dar uma entrada de R$270,00, mais nove cheques no mesmo valor?

Acho que sim!

Então pode dirigir-se até o balcão que minha secretária vai preencher os cheques e predatá-los.

Cada passo que ele dava em direção ao balcão parecia mais um degrau vencido na escala até o paraíso. Ao aproximar-se, pôde sentir o perfume que parecia estar sendo usado especialmente para aquela ocasião pela sua musa dos cabelos longos cor da noite.

Iracema pegou o talão com a mão direita… João não pode deixar de observar: no anelar, um anel de Tucum, igual ao dele. Ela não usava nenhum anel na tarde de ontem – pensava com seus botões – Ou será que não prestei a devida atenção?… Melhor não perguntar nada… Enquanto preenchia os cheques, os dois seguiam uma conversa tímida, mas cheia de segundas intenções:
Ao sair daqui, você vai onde, João?

Vou para casa…

Não tem nenhum compromisso?

Não!

Poderia me dar uma carona até minha casa? Adam não pode me levar hoje…

Era tudo que nosso sonhador queria… Não poderia perder esta chance, ou jamais se perdoaria… Era preciso arriscar, afinal estava fechando um negócio, fato que não o obrigava mais a voltar naquele local, a não ser para acertar a documentação e depois poderia nunca mais ver aqueles olhos da cor da noite e aquele sorriso encantador:
Onde você mora?

Na Vereda dos trevos.

É do outro lado da cidade…

Sim! E a essa hora não tem mais ônibus até lá…

Eu moro aqui perto, no Sorgatto… Mas posso te levar, sem problema algum!

Só preciso organizar uns papéis…

João Esperava com o coração disparado, repleto de ansiedade e insegurança… Não dava para acreditar: Estava realizando dois sonhos no mesmo dia… Aliás pareciam continuar sendo sonhos… Sonhava acordado… Agradeceu a Deus, no fundo de seus pensamentos, enquanto observava a dona dos cabelos negros mais lindos que já vira terminar seu trabalho. Quando voltou à Terra, ouviu aquela voz doce dizendo:

Vamos?… Estou pronta.

Vamos!

Abriu a porta para ela, deu a volta no seu novo carro e entrou. Durante o trajeto de cinco quilômetros até a Vereda, não se conteve, perguntou curioso e admirado:
Por que está usando um anel de Tucum?…

Porque ontem, vi um anel igual na mão do homem mais interessante que já conheci e resolvi fazer uma homenagem.

Você está exagerando… Não sou tudo isso.

Tem namorada?

Não!… E você?

Estou saindo de um relacionamento frustrante.

Quanto tempo faz?

Quase um mês! O cachorro me traiu com uma mulher casada…

Que pena! Você não merece uma coisa dessas…

É! Mas ele não pensava assim… Vira à esquerda na próxima esquina! A terceira casa é a minha…
A casa era azul… da cor de seu fusca… da cor de seus sonhos… Tinha uma varanda grande na frente, onde ficaram por alguns minutos. João se preocupou com a situação.
Seus pais não vão gostar da gente estar conversando na varanda de sua casa…

Meus pais já morreram…

Desculpe!

Moro com meus tios, mas eles não estão nem aí comigo. Voltam só amanhã de viagem…

Mesmo assim, não pega bem… Nós dois conversando aqui… Já anoiteceu… Os vizinhos podem falar…
Não conseguia esconder o nervosismo e a insegurança, típicos do primeiro encontro. Iracema também, porém mostrava-se mais ousada. Foi a primeira a pegar na mão do João e olhar em seus olhos, dizendo ser aquele o dia mais feliz de sua vida. João retribuiu com um abraço longo o suficiente para acariciar todo o tronco de Iracema e sentir seu coração disparado junto ao dele… Estavam tão próximos… O rosto colado um ao outro, a respiração ofegante. Afastaram-se um pouco mantendo o abraço, cruzando os olhares novamente… os lábios tremiam… Nosso sonhador acariciou levemente a face macia de Iracema, aproximando-se um pouco para sentir mais de perto seu perfume, fechou lentamente os olhos… A linda morena, por sua vez, acariciou os cabelos do João até a nuca, puxando-o de vez… Os lábios finalmente se uniram… Foi um longo e apaixonado beijo, terminaram roçando as narinas enquanto João murmurava:
Este é o dia mais feliz da minha vida…

Então temos algo em comum… Queria que esta noite nunca mais acabasse.

Só tem um jeito de não deixá-la terminar.

Como?

Quer ser minha namorada?

Já?… Assim?…

Quer ou não quer?
Iracema estava com o coração e os lábios prontos para dizerem sim, mas resolveu usar aquilo que as mulheres têm de melhor e mais intrigante, uma faca de dois gumes: o charme dos joguinhos de sedução, que deixa qualquer homem louco:
Não sei! Nos conhecemos ontem… Esse é nosso primeiro encontro… ainda não nos conhecemos direito…

Você está livre e eu também! Não é?

Sim!

Então, não temos nada a perder…

Sei lá!

O namoro servirá justamente para nos conhecermos melhor!
Iracema, acabou cedendo aos argumentos do nosso sonhador de sonhos azuis e respondeu seu sim seguido de mais um longo beijo… O penúltimo da noite, pois quando se deram conta, já passava das dez horas e João não havia avisado sua mãe que demoraria tanto… Jamais havia saído sem avisar.
Preciso ir, querida!

Já?… Fique mais um pouco comigo!

Não avisei minha mãe que demoraria.

Está certo! Cuide dela enquanto a tem.

Amanhã, posso buscá-la no trabalho?

Com certeza!

Despediram-se, finalmente com um beijo cheio de carícias… João, sentia-se novamente um adolescente que encontra sua primeira namorada. Ao chegar em casa, descarrega na buzina toda a sua alegria e entra porta a dentro gritando:
Tô namorando, mãe!… Tô namorando!…

Quem é a moça?

A senhora não conhece, mas logo a trarei aqui para vocês se conhecerem… Como vai a tosse?

Melhorou um pouco…

Se ver que não melhora, vamos no plantão consultar…

Não se preocupe, meu filho… Mas, me fale mais de sua namorada.

Calma, mamãe… Logo a senhora a conhecerá…

 

Comeu o jantar que sua mãe havia preparado a sua espera, enquanto contava sobre sua nova aquisição:
Fechei negócio… O fusca já é meu… Vou pagar com nove cheques e hoje já dei uma entrada.

Que bom! Eu também gostei do teu fusquinha… Vou me deitar.

Qualquer coisa me chame… Bença mãe!

Deus te abençoe, meu filho!

 

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