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Sonhos Azuis – CAPÍTULO VII

 

Adam é um bem sucedido empresário, herdeiro dos negócios de seu pai que começou comprando, reformando e vendendo carros usados, dando início a uma revendedora, hoje autorizada e perfeitamente documentada de veículos… Porém, mesmo vivendo mais um fim de ano, os negócios não andam nada bem para este jovem empreendedor que luta para aumentar seus lucros, apesar de já ter dinheiro o suficiente para viver confortavelmente por muito tempo. Emprega duas pessoas em sua garagem de revenda, um rapaz e uma moça. Por conta do movimento fraco, deu férias para o rapaz, mas fez um brilhante e sinistro jogo psicológico com a moça, dizendo-a que seria despedida caso não fizesse ao menos uma venda em uma semana… Nosso microempresário acorda, desafortunadamente mais tarde neste dia:

Bom dia, querida! Que hora são?
Oito e meia, meu amor!
O que?… Eu já deveria estar trabalhando! Disse para minha mulher que voltaria de viagem ainda hoje e que passaria em casa antes de ir para a revendedora… Deixei o carro na garagem da revenda para não levantar suspeitas, mas se a loja abre sem mim, minha mulher pode passar por lá e vê-lo, pensando que eu me encontro no recinto… Poderá entrar para falar comigo e tirar satisfações, visto que não passei em casa antes.
Não aguento mais esta situação. Você trate de escolher: ou eu , ou ela…
Querida, você sabe que te amo, mas para mim é difícil abandonar meus filhos…
Cansei de mendigar seus carinhos. Para mim chega! Me deixe em casa!
Mas meu bem…
Adam, há dois anos que você me engana e eu fico sempre com as sobras.

É, parece que aquela manhã de verão não amanheceu nada bem para nosso engravatado, mas ele poderia resolver o assunto com a amante depois. O importante agora era chegar o mais rápido possível na loja para tocar os negócios antes que sua mulher suspeitasse qualquer coisa, visto que seu escritório de contabilidade ficava no caminho da revendedora e se ela visse o carro do marido o tempo poderia fechar de vez.

Cadê meu celular?…
Na cabeceira da cama…
Mais essa agora. Tenho que ligar para a loja. Espero que aquela inútil já esteja lá…
Inútil? Até ontem ela era sua funcionária mais querida… O que houve? Ela não quis fazer o teste do sofá como eu?
Ah! Não amola!

Sua amante, esticada seminua, na cama daquela suíte de motel de luxo, ria despreocupadamente, um riso sarcástico, quase infantil, enquanto Adam tentava se justificar ao telefone:

Alô! Iracema?!
Bom dia, Adam… Temos um cliente querendo comprar o fusquinha azul…
E você não foi capaz de fechar negócio com ele, sua desnecessária?
Seria, se o carro estivesse aqui…
Onde está, afinal?
Esta com você, lembra?
Certo!…

Arrependeu-se da gafe, mas tentou não demonstrar… Não fica nada bem um patrão admitir o erro diante da plebe. Mesmo estando sentado a beira de uma cama de motel, com alguém que não é sua esposa, é preciso manter a classe que só os nobres têm.

… Já estou indo! Tive que passar na oficina fazer uns reparos… Carro velo é um problema, até foi bom aparecer um comprador, assim nos livramos desta bucha…
O que digo para o cliente?
Diga que já estou a caminho…

Ao voltar-se para a loira de olhos azuis, ainda na cama, exibindo um corpo bem desenhado e estonteante, percebe, pela primeira vez, o descaso em seu olhar que parecia tão excitante na noite anterior. Tiveram momentos de pura delícia, entregaram-se de corpo e alma para os prazeres carnais e imorais que só as coisas proibidas têm o poder de proporcionar aos mortais superiores do capitalismo selvagem. Há dois anos tinham a mesma rotina, nas horas vagas encontravam-se às escondidas, realizaram várias viagens juntos. Mas agora, ela estava decidida a acabar com aquela história, afinal já havia conseguido sugar de seu amante um apartamento, um carro zero e uma vida relativamente confortável, resultado de um único esforço: oferecer-lhe o melhor dos prazeres carnais… E isso a ninfeta tirava de letra. Adam dirige-se a ela em tom nervoso e egoísta:

Vista-se!… Tenho que ir para a loja o mais rápido possível.
Eu não tenho pressa…
Mas eu tenho… – Segurando-a pelos ombros- Tenho muita pressa. O meu casamento está por um fio, meus negócios não vão nada bem e você ainda tem humor suficiente para ser irônica comigo?…
Ai! Não faz assim que eu gamo, gato!…
Chega!… – jogando-a contra a cama – Vista logo esta droga de roupa que eu estou atrasado. Deixo você em casa… Seja discreta… Ainda bem que não estou com meu carro…
Havia esquecido que saímos com aquela lata velha azul… – vestindo vagarosamente a roupa – Odeio a cor azul!… É muito melancólica, me causa náuseas…
Você sabe ser deselegante quando quer…
Sou a amante… Esqueceu?… Tenho direito de ser complicada sem que meu parceiro ache isso o cúmulo.
Pois isso não me agrada mais!

Já vestidos os dois na lata velha azul, da cor das melancolias da filial loira, Adam resmunga reclamando o dia terrível que o esperava depois de uma noite maravilhosa. Não sabia o que fazer para correr contra o tempo… Sabia que tinha que passar pelo centro da cidade antes de ir para a revendedora, mas desta forma, passaria obrigatoriamente em frente a loja, podendo ser visto com outra mulher, e o pior, com outro carro… carro não, uma condução azul. Tudo isso para mascarar a situação… Preferiu dar a volta pela rodovia, fazendo o dobro do percurso. Estaciona a condução uma quadra antes do prédio da bonequinha loira:

Tchau querida!… Quando nos vemos novamente?
Por mim, nunca mais. Ou você me assume, ou não me procure mais!
Não tenho tempo para balelas, desça logo…

Ela desce indignada, mas sem perder a pose, jogando a bolsa sobre os ombros, ajeitando o vestido e batendo os calcanhares na calçada. Adam sai cantando pneu no asfalto rumo a revendedora para salvar uma venda e um casamento…

 

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