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Sonhos Azuis – CAPÍTULO VIII

– Será que o vendedor vai demorar muito com este fusca? Não aguento mais esperar. Vou para casa e volto a tarde. Você me acompanha, Teófilo?

– Você que sabe, João… Já que estamos aqui, não custa esperar!
De repente, quele charme em pessoa chamado Iracema levanta-se novamente e dirige-se até onde se encontravam os dois.
– Adam avisou que já está chegando… Só mais uns minutinhos, João…
– 0Obrigado!

O microempresário engomadinho não demorou muito a apontar na esquina com aquela sucata azul da cor de seus desafetos, falando baixinho para si mesmo:

– Ufa! Parece que minha mulher ainda não passou por aqui… Acho que consegui salvar meu casamento e quem sabe fecharei negócio com este chato do João!

Nosso sonhador de sonhos azuis já contemplava aquele que seria seu primeiro e mais amado carro… Entrava esplendoroso pelo portão: azul… da cor do céu… da cor do mar… da cor de seus sonhos… Ainda não acreditava no que via: era ele, o fusquinha que invadiu seus pensamentos durante a tarde que passou, embalou seus sonhos na noite anterior e agora estava em sua frente, guiado pelo Adam, que descia do carro já puxando conversa com seu cliente:

– Bom dia João! Desculpe a demora…

– Que nada! Isso acontece…

– Vamos fechar negócio?

– Podemos testá-lo primeiro?
– Claro! Podem dar uma volta… a Iracema os acompanha.

Aquilo fez João perder o fôlego por um instante… Que vergonha! Uma mulher linda e maravilhosa daquela o vendo dirigir?… Ele que fez o teste de volante a recém… E se fizesse alguma imprudência, arranhasse as marchas, trocasse o freio pelo acelerador?… Mesmo com vergonha, aceitou a proposta de “test drive” acompanhado pela moça que lhe acaba de arrancar suspiros, porém teve uma ideia melhor.

– Pode ser!… Você dirige, Teófilo?

– Por que eu? O carro é para você…

– Ainda estou um pouco inseguro…

– Tudo bem!

E assim o fizeram. Teófilo e João foram na frente e Iracema no banco de trás. Enquanto dirigia, Teófilo apontava as características da dirigibilidade do fusquinha:

– Está com uma pequena folga no volante, mas isso é fácil de arrumar… Arranha um pouco a segunda marcha, você terá que pegar o jeito… Não funciona o temporizador do limpador de para-brisas… Espere! Posso parar aqui um pouco? Tenho que comprar ração para minha cachorrinha.

– Pode! – Interfere Iracema – Enquanto você compra a ração, damos mais uma volta. Desta vez o João dirige…

O nosso sonhador teve mais uma morte súbita e tornou a vida… Aquilo significava uma vexame!… Como faria para dirigir ao lado daquela beldade de olhos escuros e cabelos lisos negros como a noite?… Ele não sabia, mas estava duplamente apaixonado: pelo fusca e pela vendedora. Sentia-se um adolescente tímido que não sabe lidar com suas paixões… Tinha medo de interagir com o carro dos seus sonhos… Tinha medo de conversar com a mulher dos seus sonhos… tinha medo de demonstrar o medo que sentia em estar ali, diante dos dois.

– Iracema, será que não vou passar vergonha? Fiz a carteira de motorista há pouco tempo.

– Não esquenta! Eu não sei dirigir, portando estou num nível abaixo do seu… Liga logo esta máquina!…

– Estranho!… Uma vendedora de carros que não sabe dirigir…

– Sou uma simples funcionária, que aliás está com sua cabeça a prêmio…

– Como assim?

– Nada não! Esquece…

Meio inseguro e contrariado, João dá a partida e segue devagar para diminuir o risco de cometer erros nas manobras.
– Isso está me parecendo armação… – Pensava ele com as mãos firmes no volante e os olhos atentos no trajeto.

A volta foi maior que o necessário, durou tempo suficiente para nosso sonhador acostumar-se com o fusca e com a morena… Logo já estavam a vontade, conversando sobre tudo. Enquanto conversavam, Iracema observava cada detalhe do João: Os cabelos curtos e um tanto ondulados castanho-escuros, as sobrancelhas grossas quase se encontrando, os olhos cor de mel que ficavam ainda mais bonitos por detrás das lentes dos óculos, a boca carnuda, o sorriso encantador, a pele branca típica de um luso-descendente, as mãos um tanto delicadas, porém firmes no volante do possante azulão… No dedo anelar direito, um anel de Tucum que lhe chamou especial atenção. Não exitou em perguntar:

– Você é seminarista?

– Não!…

– Ainda bem! Eu não gostaria de ficar com um seminarista…

Aquelas palavras deixaram transparecer que havia reciprocidade de sentimentos naquele veículo automotor ano 71… Porém, João conteve-se e manteve a postura, fazendo-se de ingênuo:

– Por que a pergunta?
– Porque você está usando este anel preto… Pensei que só os seminaristas e os padres usassem.
– Este é um anel de Tucum e significa compromisso com as causas populares. Um dia eu posso te contar a história toda dele… Mas eu uso porque acho bonito mesmo.
Nosso sonhador de sonhos azuis também sabia deixar as coisas no ar. Deixou clara a intenção de revê-la numa outra ocasião… Passaram então no pet shopping para pegar o Teófilo que voltou de mãos vazias.

 

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