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Sonhos Azuis – CAPÍTULO VI

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Ao chegarem na revendedora, os dois irmãos de coração não avistaram o tal fusquinha azul. João para desconsolado, olha para todos os lados, vê todo tipo de carro: esportivos, utilitários, novos, seminovos, velhos, muito velhos, de todas as cores e modelos… porém a materialização de seus sonhos azuis não estava lá. Por um instante sente o chão desaparecer de seus pés, uma lágrima quase rola em seu rosto… Suas esperanças caíram no abismo, estava condenado a ficar, sabe Deus mais quanto tempo a pé… Não lhe agradava outro carro, queria aquele azulão, foi amor a primeira vista. Sua reflexão melancólica foi interrompida pela voz de Teófilo:
Cadê teu fusca, home de Deus?
Sei lá!… Acho que já venderam, vamos embora…

No segundo passo em direção a rua, ouve-se uma voz feminina e doce, que soou como música aos ouvidos do pobre e desanimado João dos sonhos Azuis:
Em que posso ser útil, senhores?
Como num passe de mágica, João paralisa e lentamente, nosso sonhador volve-se para trás novamente, ao som daquelas cordas vocais que penetraram seus ouvidos em direção ao coração, fato que, por um segundo o fez esquecer de toda a tristeza que invadia seu peito naquele momento. Agora encontrava-se frente a frente com o exemplar mais maravilhoso do sexo feminino que já havia visto: Seus cabelos longos, incrivelmente lisos e negros como a noite chegavam a reluzir com o sol da manhã e mover-se lentamente com a brisa, presos por uma discreta tiara, tergiversando um rosto puro e angelical de pele morena… Aqueles olhos negros e brilhantes pareciam penetrar sua alma como uma flecha que apesar de dolorida, era incomensuravelmente prazerosa… Um sorriso encantador, meigo e contagiante que alegraria até mesmo um cortejo fúnebre, composto por uma dentição perfeitamente formada. Um corpo escultural pelo que deixava-se revelar debaixo de um terninho azul-marinho e camisa branca… Todo este monumento perfeitamente acomodado sobre um par de pés de princesa que calçava sapatos pretos, conduzindo-a ao encontro dos dois jovens… Nosso sonhador azul não conseguia desviar o olhar daquela formosura personificada, mas seus ouvidos puderam ouvir a voz de Teófilo, que subitamente o faz voltar ao mundo real:
João, ela tá falando com a gente!

Quem?

A moça.

Há, sim! – E voltando-se novamente para sua mais nova musa – Bom-dia, senhorita!

Bom-dia! Posso ajudá-los?

Acho que não, queria testar um fusca que vi ontem, mas parece que já venderam…

Que pena, foi vendido ontem, no final da tarde.

Neste momento, João estremeceu por dentro, achando que tudo estava perdido, quando a moreníssima vendedora continuou:

Era um vermelho, né?

Não! Ontem eu olhei um fusca azul, estava aqui, perto da cerca…

O azul?… Ontem esteve aqui um senhor dando uma olhada, mas acabou levando um carro mais novo e financiou em trinta e seis vezes.

Entendo! Mas onde está o fusquinha azul então?

O Adam foi com ele para casa ontem.

Adam!?… Foi com ele que eu conversei na tarde de ontem.

Você é o João?

Sim, sou eu…

Adam disse que você viria hoje. Daqui a pouco ele chega. Quer aguardar?

Sim!

Dentro de meia hora ele deve estar aqui, vamos entrar. Vocês aceitam um cafezinho?

Claro! – Olhando para o crachá – Obrigado Iracema!

As ordens!

João parecia mais leve com a possibilidade de voltar para casa a bordo de seu sonho azul, enquanto entravam no escritório, não pode deixar de observar novamente Iracema que parecia desfilar a caminho da porta, como numa passarela… Nem sentiu o gosto do café, poderia estar frio, fraco e amargo que não faria diferença diante da beleza inenarrável que a sua frente observava. Sobre o teclado do computador, deslizavam dedos finos, de unhas bem cuidadas em duas mãos de fada que lhe deixavam quase extasiado.

Enquanto isso – estorvava Teófilo perguntando para a moça– podemos dar uma olhada nos outros carros?

Fiquem a vontade, se precisarem de ajuda é só chamar.

E lá se foram os dois irmãos de sentimento, se distraírem um pouco com os outros modelos a venda. Teófilo, não se conteve:

Você não tirava os olhos da moça, João!

Bonita, né? – Na verdade, ele queria dizer linda, maravilhosa, formosa, extraordinária, sobrenatural… e tantos outros adjetivos que aquela beldade merecia…

Será que meu melhor amigo está apaixonado?

Magina! Já não dou mais bola para estes sentimentos ilusórios…

Aquela meia hora parecia demorar uma eternidade… João dividia-se entre a ansiedade de ver o fusquinha azul e levá-lo para casa e a vontade quase incontrolável de voltar ao escritório para aproximar-se novamente da vendedora, mas conteve seus impulsos e permaneceu observando os demais veículos à venda… De vez em quando, com o canto dos olhos fitava o escritório discretamente e por duas vezes, cruzou seu olhar com aqueles olhos negros que o fizeram quase perder o rumo da conversa com seu amigo.

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