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Sonhos Azuis – CAPÍTULO IX

 

Adam, pediu que sua funcionária os acompanhasse propositadamente, para ficar mais a vontade e ligar para sua loirinha querida de olhos azuis:
… Mas querida, eu vou me separar dela… É só uma questão de tempo…
Pode separar… Vai ficar sozinho, porque eu não quero mais aturar um cachorro que se importa com o mundo todo, menos comigo… E não me chame de querida, seu cretino!

Na verdade, ela só procurava um pretexto para terminar tudo… E conseguiu:

Você não pode fazer isso comigo… As coisas não se resolvem assim, de uma hora para outra!
Eu estou decidida!… Pode continuar tua vidinha medíocre com aquela mocreia de cabelo queimado… Tchau! Até nunca mais!…

Queria tentar ligar novamente, mas ouve se aproximar o ruído da lata velha azul, da cor de seus desassossegos. João sai do automóvel meio atordoado pela experiência de dirigir pela primeira vez um fusquinha, ainda mais acompanhado de sua nova paixão. Adam se aproxima:

Então, João… Fechamos negócio?

Precisa fazer alguns reparos. Está aqui a lista…

Certo! Pode levá-lo e passar o dia com ele. Traga-o amanhã para levarmos à oficina a fim de fazermos os reparos.

Quanto está pedindo nele?

Dois mil e quinhentos… À vista podemos negociar um preço melhor.

Em quantas vezes podemos fazer?

Não dá para financiar, mas podemos fechar negócio entre nós mesmos… Trabalha com cheque?

Sim!

Quanto pode pagar por mês?

Não mais do que trezentos…

Aí fica difícil… Mas volte amanhã com o talão e conversamos melhor…

Então combinado… Até amanhã!

Até!

Já dentro de seu sonho azul que estava a algumas folhas de cheque de ser seu, pergunta ao Teófilo, enquanto aciona a chave:
Não tinha ração?… Porque voltou de mãos vazias?

Eu nem entrei na loja!

Por quê?

Só queria deixar os dois pombinhos a sós…

Você não presta mesmo! Aceita um café?

Sim! Mas já é quase hora de almoço…

Então… Aceita um almoço?…

Pode ser…

Foram então para a casa de João que chegou cravando a mão na buzina. Sua mãe, ao ver a barulheira, vai conferir da janela:

O que é isso meu filho?

Não estamos mais a pé, mamãe!

Estou vendo!

Cheguem que o almoço tá na mesa!

Enquanto almoçavam, João chegava a ser insuportável de tanto que falava de seu fusquinha azul: Dizia que era meio durão para dirigir, muito diferente dos carros da autoescola, falava da lataria inteira, apenas com alguns arranhõezinhos… O volante ainda era original, queria trocá-lo por outro um pouco menor o mais rápido possível… Dizia que os estofados eram quase novos… Gostava até do ronco do motor 1500… Destacava que seu fusquinha subia qualquer morro em terceira marcha…

Enquanto conversavam, notou que sua mãe estava com uma tosse insistente:
O que é isso mãe?

Não sei! Amanheci com esta tosse… Deve ser gripe!

É o cigarro!

Não! É só uma tosse passageira.

Se não melhorar, eu a levo ao médico.

Não precisa… Hoje à noite eu fervo um chá antes de dormir e amanhã amanheço bem.

Se cuida, minha véia!… Quer dar uma volta de fusca? Vou levar o Teófilo em casa depois do almoço. Se a senhora quiser, pode vir conosco.

Tenho que lavar a louça.

Nós a ajudamos.

Levaram, então o Teófilo e deram mais umas voltas a bordo daquele fusquinha, foram até a casa de sua irmã mostrar a novidade:
Boa tarde, Anita!…

Boa tarde, João! Tá motorizado agora…

Amanhã vou fechar negócio… Já é quase meu. O que achou?

Tá inteiro, né?

Anita também estranha a tosse de Áurea:
Mamãe, que tosse é essa?

 

Deve ser uma virose. Não se preocupe minha filha.

A senhora precisa se cuidar… Não é mais nenhuma menininha…

Hoje eu tomo um chá antes de dormir e amanhã estará tudo bem.

Depois de alguns minutos de conversa, ao se despedir de João, Anita cochicha em seu ouvido:
Leve a mãe ao médico… Não espere muito.

Farei o possível, mas não quero obrigá-la…

Temos que cuidar de nossa velhinha!

É verdade maninha.

Nosso sonhador de sonhos azuis passa a tarde a bordo do fusquinha da cor de seus sonhos, afim de aprender todas as manhas. Na manhã seguinte, leva-o novamente até a revendedora para os reparos. Quando vê Iracema, parece que seu coração vai saltar pela boca, mas procura ser discreto… O mesmo acontece com ela que pergunta preocupada:
A que horas você vem buscar seu fusca?

Adam me disse que estaria pronto no final da tarde.

Correto! Então pode vir um pouco antes das seis e meia, hora do final de expediente.

Na saída, encontra Teófilo com seu fusca areia que para ao avistá-lo:
Tá indo onde?

Para casa…

Quer uma carona?

Aceito!
Passaram o dia novamente juntos. João não tirava da cabeça seu sonho de fusquinha nem seu sonho de mulher.
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