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Sonhos azuis – Capítulo IV

Leia desde o primeiro capítulo…

 

Bom-dia, Caçador! Sete horas e cinco minutos, temperatura na marca dos dezoito graus. Hoje é dezoito de dezembro. Faltam sete dias para o natal e catorze para o ano novo!…

Dizia insistente o locutor no rádio-relógio meio distorcido na cabeceira da cama, transmitindo o Cheiro de terra da Rádio Caçanjurê.

Era hora de voltar a realidade, despertar para a vida… João estava de férias, mas fazia questão de acordar cedo afim de resolver de uma vez por todas o negócio do veículo. Encontra sua mãe, como sempre, na cozinha tomando chimarrão… Antes mesmo de tirar a ramela dos olhos, joga-se no colo dela, como sempre, rouba sua cuia e sorve todo o líquido… O telefone toca:

– Bom-dia, João!

– Bom-dia, Teófilo!
– A que horas vamos buscar teu fusca?

– Não tá nada certo ainda, mas vou as oito e meia conversar com o vendedor. Se der certo preciso da sua ajuda para trazer o carro. Tenho medo de trazê-lo sozinho. Minha carteira ainda não está pronta.
Pode contar comigo. Estarei lá às oito e meia.
O pior que pode acontecer é voltarmos a pé novamente.

O café da manhã pareceu mais lento naquele dia. João temperava cada mordida com uma dose de ansiedade, em cada gole um pouco de insegurança, mas a esperança permanecia quentinha em seu coração.

Parece estranho tanta bajulação para um veículo fora de linha há muito tempo, mas era exatamente assim que nosso sonhador de sonhos azuis se sentia ao lembrar daquele fusquinha da cor de seus sonhos naquela garagem, ou quem sabe estaria na casa de seu novo dono, o que seria uma lástima, pois significaria a perda do negócio e do seu sonho atual. Cada vez que pensava naquele fusquinha, seu coração sonhador disparava desenfreado, desalinhado e descalibrado: uma mistura de sentimentos: Alegria, pela possibilidade de tê-lo, tristeza pelo medo de perdê-lo e insegurança, por não saber lidar com os outros dois sentimentos.

Ao escovar os dentes, sua ansiedade só aumentava, falava com ele mesmo no espelho, perguntava, respondia, aconselhava-se e ria meio se segurando, pois o mundo exterior não precisava saber daquele momento de retardo mental… Só ele entendia… Afinal só seu eu interior para saber o que fala uma boca com uma escova e creme dental espumante escorrendo pelas beiras:
Não vamos perder essa, João… Não desanime, pois existem milhares de fuscas neste mundo esperando por um comprador, nos fundões de alguma revendedora que o pegou como entrada em um negócio lucrativo…

Creme dental e escova em seus lugares… e o pensamento também, apesar de viajar um pouco nos seus sonhos azuis. Ao passar na cozinha, como sempre, desamarra o avental da dona Áurea só para vê-lo cair enquanto lava a louça do café…

– Tchau, mãe! Quem sabe eu volte de carro…
– Tchau, meu filho! Juízo, viu?

Nosso sonhador de sonhos azuis, despede-se de sua mãe com um beijo na testa.

– Bença mãe! – Ele pedia a benção de sua mãe para tudo…
– Deus te abençoe, meu filho!

Sai a pé… A caminhada ajuda a mente a pensar mais serenamente… Novamente o rosário nas mãos, coração e mente concentrados e enfocados no sonho que estaria muito perto da realidade… Cumprimenta todos, conversa com os conhecidos que encontra. Pelo menos uma frase, uma palavra, uma expressão ele tinha que dizer a fim de que as pessoas conhecidas no seu caminho soubessem da importância que têm para a sua pessoa. E não é só teatro, João é uma pessoa que prima pelas amizades e por mais que demonstre seus sentimentos, sempre acaba pensando que não é o suficiente. Sempre acha que poderia dedicar-se um pouco mais, dizer mais uma palavrinha de carinho, conforto, gratidão, ou simplesmente uma besteira qualquer para arrancar sorrisos de seus interlocutores. Sempre que se despede de alguém, pensa que não foi amigo o suficiente, sempre fica faltando alguma coisa…

Estava renovado, ainda angustiado, mas com as esperanças recicladas. Todos percebiam o sorriso, mesmo que meio forçado, em seu rosto que ainda revelava um restinho de sono…

Uma esquina antes da revendedora, encontra-se com Teófilo, pronto para ajudar no que fosse preciso. Sempre foi assim desde que se conheceram há dez anos no grupo de jovens da paróquia: sempre ajudaram-se um ao outro e aprenderam a repartir tudo. Em algumas ocasiões, recebeu Teófilo em sua casa com uma única fatia de pão que era cortada ao meio a fim de os dois comerem. Em todos os momentos de fartura, ou dificuldade, João e Teófilo estiveram juntos… Aquela manhã, parecia ser o início de mais um dia marcante na vida dos dois irmãos de coração.

Quanto mais se aproximavam da garagem, mais forte batia o coração do João. Ele sabia que tudo poderia dar certo… ou não… Tentava disfarçar, falar de outros assuntos, mas não tirava da cabeça a imagem do besourinho azul, que perseguiu seus sonhos durante toda a noite. Faltava pouco para aquele tormento se finalizar, muito pouco… Só alguns passos…

 

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