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Sonhos Azuis – CAPÍTULO III

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No caminho para casa, tira o rosário do bolso e começa a rezar, pedindo a Deus que permita que aquele besourinho azul da cor de seus sonhos possa ser seu… Quase uma obsessão… Nem olha para os lados, não percebe a presença dos conhecidos: o amigo da loja de instrumentos musicais, na José Boiteux, sempre vendendo a perder de vista para ele, a moça da loja de presentes perto da ponte de madeira, cartão postal da cidade, onde sempre parava para jogar conversa fora, o amigo da agropecuária onde periodicamente levava seu cãozinho para tomar banho, os jovens da revendedora de autopeças, o colega da eletrônica,  a cabeleireira, sempre com o salão cheio, mas nunca se negava a trocar umas palavrinhas com nosso sonhador, o senhor da frutolândia que lá trabalha com sua família, a moça do caixa do supermercado, ex-aluna, as atendentes da padaria da esquina do cemitério, as pessoas sentadas no banco da praça em frente a Paróquia Nossa Senhora Rainha… Aliás, nem ele lembrou de sentar um pouco naquele banco, bater um bom papo, fazer uma boa leitura, ou simplesmente, descansar a mente… As crianças esperando o horário da catequese em frente a igreja, os transeuntes… O corredor no meio do cemitério e a ponte sobre o riacho que dá acesso ao seu bairro, as crianças brincando na rua, a dona Otacília e o seu Juvenal na varanda da casa verdona da esquina, a dona Regina tomando chimarrão perto do muro…

Nada lhe tirava a atenção dos seus pensamentos sonhadores de sonhos azuis… Quando caiu em si, estava em casa, com o cachorro no colo, conversando com dona Áurea:

Pois é, mamãe. Acho que meu destino é viver a pé mesmo. Não consigo encontrar um fusca descente e um carro mais caro não tenho condições de pagar.
Calma, piá! – Dizia ela enquanto ajeitava o café com pão caseiro, margarina e um doce de abóbora feito pelas suas mãos carinhosas e hábeis – Pra tudo Deus dá um jeito… Se for da vontade dele, este fusquinha azul é seu.

Prendeu seu amigão na coleira, fazendo-o carinho que foi retribuído com algumas lambidas e o balanço da cauda.

Porque é que as coisas parecem tão difíceis para mim, mamãe?
Não está fácil para ninguém. Tenha certeza que existem muitas outras pessoas em situação pior… O café tá na mesa!
Eu só queria uma condução… Será que estou pedindo demais? – Indagava enquanto se ajeitava na cadeira da cozinha – Se não conseguir comprar um carro, vou gastar este dinheiro do acerto com outra coisa… Não vejo a hora de terminar a faculdade e me efetivar em alguma escola pública estadual… O concurso eu já fiz, apesar de me chamarem de louco…
Louco por que?
Porque fiz a prova do concurso sem concluir a faculdade. – Dizia, enquanto preparava seu café com quatro colheres de açúcar e trinta por cento de leite…
Mas você passou, mesmo assim.
Porém, não posso assumir sem diploma. Espero que não me chamem antes de tê-lo em mãos.

Tomava seu café preocupado, o pão descia meio arranhando a garganta, o café não tinha o mesmo gosto… Tudo parece estranho quando estamos angustiados e dependemos das indecisões da vida… Todos os seres a nossa volta parecem se comportar diferente, todos parecem nos olhar com outros olhos, nos sentimos nus diante das intempéries. Parece que o mundo todo está nos vendo e nos julgando, nos condenando por darmos tanta importância a coisas tão simples e fugazes segundo o julgamento dos mais céticos… O raciocínio lógico fica prejudicado e confuso. Não é possível, mesmo com todo o esforço do mundo, perceber que em qualquer situação, ainda existe um lado bom, tudo depende do ponto de vista…

O restante da tarde, João passa calado, refletindo sobre os problemas cotidianos de um professor não-habilitado, contratado temporariamente que todo final de ano fica desempregado, sem nenhuma perspectiva para o ano seguinte… Enquanto contempla as hortênsias azuis, da cor de seus sonhos pela janela da cozinha, lembra de quando terminou, com muito custo o ensino médio, magistério… Emprestou dinheiro para prestar o vestibular, fez a prova e passou… Começou uma faculdade, mesmo desempregado, porém no mesmo ano que iniciou seus estudos acadêmicos, conseguiu, pela primeira vez, um contrato temporário de professor: Uma vitória em sua vida, pois dali tiraria seu sustento, o de sua mãe e o dinheiro para o curso universitário, tudo mudaria em sua vida, não precisaria mais empreitar terrenos para capinar, calejar as mãos no chão de fábrica de uma indústria madeireira perto de sua casa onde trabalhara por cinco longos anos, nem aguentar a exploração reservada para os funcionários do comércio, que têm hora para começar o dia de trabalho, mas nunca sabem a hora de voltar para casa… Estava feliz, por ter uma carteira de motorista, o que naquele momento significava um passo para sua liberdade que sempre quis e pela qual, sempre lutou. Porém estava com o coração apertado sem saber o que seria o dia de amanhã… Estava apaixonado pelo fusquinha azul, mas guardava para si: Tinha medo de ser ridicularizado e humilhado por ter um sonho tão simples, por não sonhar com casa de luxo, ou carro do ano…
À noite, recolhe-se no quarto mais cedo que de costume e volta a sonhar acordado com seu fusquinha azul: ele e sua namorada imaginária sem rosto passeando pela cidade a bordo daquela simpatia de carro, com as janelas abertas, cantando uma canção qualquer e buzinando para os conhecidos.
Adormece… preocupado… porém, otimista, pois sempre exercitou o pensamento positivo em vários momentos de sua vida… Agora estava sonhando, seu subconsciente o transportara para dentro de seu sonho de consumo: Azul, da cor de todos os seus sonhos, estofado preto, volante esportivo, vidros escuros… Regulava os espelhos, o banco, passava o cinto de segurança, batia a chave… Escutava o ronco do motor e sentia o vento pela janela… Dirigia despreocupadamente… Estava feliz, sonhava feliz… Por um momento, num delírio sonhador, seu fusquinha criava asas e voava rumo ao infinito. Lá de cima podia visualizar toda a sua querida cidade: a casa velha de madeira, os túmulos no cemitério, onde também existem diferenças de classes: quanto mais rico o defunto, mais luxuosa sua derradeira morada… A rodovia, a escola onde trabalha… O fusquinha subia cada vez mais e, a sua frente, só escuridão. De repente, um raio de luz, não conhecia aquele lugar, apesar da sensação de já ter estado lá em algum momento… E assim foi a noite toda, passando pelos mais desconhecidos lugares com seu fusquinha azul da cor do céu, da cor do mar, da cor de seus sonhos…

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