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SAUDADES DO MEU CADERNINHO


07/03/2007

CAÇADOR ONLINE
10/03/2007
JORNAL INFORME

Outro dia, enquanto tentava alertar meus alunos de ensino médio sobre o assunto do momento: “aquecimento global”, orientando-os inclusive, da importância de se ter um caderno para redação, afim de não desperdiçar folhas arrancadas de seu caderno universitário ou daquele fichário do RDB, ouço vários murmúrios no que tange aos cuidados com o caderno, como encapá-lo, não deixar as orelhas de burro tomarem conta, organizar bem suas produções de texto, traço, margem, linha, parágrafo, etc…
“Tá loco professor, parece primário!” – Gritou indignado, um aluno lá do “fundão”… E mais indignado ainda, respondi:
“O capricho é uma coisa que se aprende no primário, mas é para a vida toda, ou seria inútil aprender algo que não se aplica na vida…”
Recordo-me de uma semana antes do meu primeiro dia de aula, na década de oitenta: Minha irmã mais velha sentou-se à mesa comigo, plástico, durex e tesoura à mão e ensinou-me uma lição que nunca esqueci, mesmo antes de começar minha vida de estudante: Encapar cadernos e livros, identificando-os com nome, série, turma e disciplina. Quero destacar que comecei, aos sete anos direto na primeira série, sem passar pela educação infantil, já que minha mãe encarregara-se de me alfabetizar em casa mesmo, apesar de ter cursado apenas a segunda série do ensino fundamental em uma escola multi-seriada de Lebon Régis, sua terra natal. Foi também, nos meus primeiros anos de escola que aprendi a organizar os conteúdos no caderno e anotar tudo o que eu julgava interessante.
Os tempos mudaram, e hoje vejo jovens desmotivados com a escola e a busca do conhecimento, fato que – confesso – de certa forma, me desmotiva também. Ao apresentar o livro didático de Língua Portuguesa e Literatura, que será nosso companheiro durante as aulas, completei:
“Este ano, possivelmente receberemos exemplares o suficiente para cada um ter o seu, podendo levá-lo para casa…”
Pensei que estava dando uma ótima notícia, mas me surpreendi, novamente com o fundão (uma sala-de-aula não teria o mesmo sentido se não fosse o fundão para torná-la mais dinâmica…) Um aluno, certamente com problemas graves de coluna, reumatismo e artrite crônica me retruca:
“Eu é que não vou carregar este livro pesado todos os dias…”
Desta vez, não agüentei e resolvi usufruir da ironia que Deus me deu:
“Tem razão, meu amigo, sei de muitos casos de alunos que morreram por não suportar o peso do conhecimento que este livro os obrigou a carregar por três longos anos de suas vidas… É uma morte triste, inenarrável, sofrida, incomensurável… A pior morte do ser humano, a morte intelectual, principalmente porque eles precisaram pagar pelo livro. Deve ser por isso que o MEC disponibiliza hoje gratuitamente, diminuindo consideravelmente os riscos de morte e os efeitos colaterais. Se eu fosse você, manteria uma distância de, pelo menos cento e cinqüenta metros deste livro, para não correr o risco de contrair uma doença incurável…”
Infelizmente, este não é um caso isolado. Muitos de nossos estudantes colocam o maior número possível de obstáculos para não precisar carregar o peso do conhecimento, afinal, levar um livro para casa, além da força física, que desloca a coluna cervical, causando um desvio maior que o desequilíbrio causado por viver agarrado à namorada (ou ficante), implica também num esforço sobrenatural de experimentar uma sensação nova: pensar… Depois que inventaram o trator de esteira e a televisão, o ser humano não precisa mais fazer esforço físico nem mental. Encapar caderno e carregar um livro debaixo do braço, tornou-se fato vergonhoso para os alunos de um país que não se envergonha com a qualidade de ensino demonstrada nos últimos exames nacionais.
Márcio Roberto Goes
Minha vida pode não ser um livro aberto, mas é encapado

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