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SAUDADE SIM, TRISTEZA NÃO


Esta é a história de duas guerreiras, que venceram na fé e no amor todos os obstáculos que a vida lhes trouxe.

Dona Áurea era uma católica convicta, devota de Nossa Senhora, amante da oração e da caridade, jamais se deitava para dormir sem rezar o terço, trabalhava em vários movimentos da Igreja, como: apostolado da oração e pastoral da saúde, admirava e cuidava das plantas como pedras preciosas; tinha cinco filhos, sendo quatro de sangue e um de coração, todos criados a custa de muito trabalho e dedicação. Só tinha dois vícios, o chimarrão, que sempre partilhava com a vizinhança, e o cigarro, grande antagonista de nossa história.

Esse vilão que a acompanhou durante quase toda a sua vida terrena de sessenta e oito anos, lhe rendeu um câncer no pulmão, que a levou ao Hospital Nereu Ramos em Florianópolis, onde passaria os últimos dias de sua vida, acompanhada de sua única filha mulher.

Logo na entrada do hospital, profetizou com a seguinte frase, já na cadeira de rodas, diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus em tamanho real: “Oh meu Senhor Jesus, eu me entrego a Ti, seja feita a Tua vontade”.

Durante vinte e oito dias em meio a soro, dreno, inalação e tubos de oxigeno, contagiou médicos, enfermeiros e pacientes com seu jeito otimista e cômico de ver a vida. Certa vez sentiu a presença de um anjo que a ungiu com óleo os pés, as costas e os ombros. Fato que fez ela e a filha acreditarem na cura até então utopia.

Os dias passavam e o oxigeno tornava-se cada vez mais raro para aquela senhora, deixando nossas duas guerreiras cada vez mais próximas, mais humanas e mais divinas. Aliás, algo que o sofrimento tem de bom é a capacidade de tornar as pessoas mais fraternas.

Foi no dia dezenove de dezembro de dois mil e quatro, um domingo ensolarado e quente, que aconteceu a cura de nossas duas guerreiras: Estavam elas no quarto do hospital, o oxigeneo de Áurea regulado na capacidade máxima, já não fazia mais o efeito necessário para mantê-la viva, seu pulmão fora todo dilacerado e escoado pelo dreno. A filha, vendo que a hora estava próxima começa a rezar o terço com o rosário entre as mãos dela e da mãe, que com muito sofrimento ainda tenta acompanhar as contas daquela oração que foi sua grande defensora durante toda a vida…

Dois anjos em forma de criança aparecem na janela chamando aquela guerreira para sua maior e última vitória… Uma leve brisa enche o quarto até então sufocado pelo calor e pela carência de ar puro, trazendo o sopro de uma vida nova.

Atendendo ao chamado, ela deita sua cabeça pela última vez, sobre o leito, tendo em suas mãos o rosário e as mãos trêmulas de sua filha também guerreira. Seu semblante de sofrimento e dor agora é sereno, de uma serenidade tamanha, que nos faz acreditar que a vida vale a pena e que nenhum sofrimento é maior que a nossa capacidade de vencer.

Tenho certeza que, como filho mais novo, vou levar seu exemplo por toda a vida, com saudades sim, mas tristeza não, porque a vida dessa guerreira foi marcada por muito sofrimento, vencido com otimismo e alegria de viver, que contagia até hoje, parentes e amigos.

Márcio Roberto Goes

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