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Saudade dos oitenta

 

Na década de oitenta do século vinte, pisei pela primeira vez numa sala de aula e dali pra frente a escola pública se tornou proprietária do maior tempo útil da minha vida… Quanta diferença com o passar dos tempos…

Sou da geração que começavam as aulas no dia primeiro de março, julho era todo férias e no dia primeiro de dezembro estávamos todos em casa, com ou sem exames finais. Não se ouvia falar da obrigatoriedade de duzentos e poucos dias letivos, nem no fato de se inventar cinquenta e poucos tipos de eventos aos sábados para completar a carga horária… Fui alfabetizado pela minha mãe, o barquinho amarelo e o menino azul: métodos já em desuso graças a Freud, Piaget e Vigotski…

Desde pequeno já acompanhava o descaso com a educação pública, principalmente na valorização do profissional… Vi o primário e o ginásio se tornarem primeiro grau e depois, ensino fundamental; o colegial se transformar em segundo grau e, por fim, ensino médio, sempre mantendo a essência e a luta por uma educação pública de qualidade. Fui presidente de grêmio estudantil, estive presente nas lutas pelos direitos dos estudantes… Só faltou eu ser preso, ou exilado. Neste caso poderia pleitear a presidência da república…

E eis que o destino me trouxe de volta a sala de aula compondo o corpo docente efetivo da rede pública estadual de Santa Catarina… Nunca vi grandes avanços naquela educação que tive, como aluno, nos anos oitenta, a única diferença é que, hoje, o professor tem menos autoridade e mais responsabilidades sobre a vida e a formação de seus alunos, mais até que a própria família. Fazemos papel de pai, mãe, psicólogo, enfermeiro, confessor, irmão mais velho, conselheiro… Ou seja, somos multifuncionais por um salário composto metade por abono que é ilegalmente furtado durante qualquer tipo de licença que o profissional da educação precise, ou resolva usufruir…

Como se não bastasse, o estado demora a despertar para o ensino fundamental de nove anos, nos obrigando a mendigar aulas por aí, já que não será possível abrir turmas de quinta série, nem de sexto ano no próximo ano letivo, causando um efeito dominó que trará efeitos colaterais por, no mínimo quatro anos… Nem o “Silveirinha”, nem o “Pinho”, tampouco o “Pavão Misterioso” resolveram este problema. Agora me chega um cara “Co lombo” quente, acompanhado, de novo pelo “Pinho”, defendendo os mesmos interesses capitalistas dos outros dois, fato que me faz pensar se ainda existe alguma esperança de progresso na educação como um todo… Porém, duma coisa tenho certeza: Continuaremos vendo cascas de escolas, lindas e vazias sendo construídas e inauguradas, alimentando uma educação de vitrine que dá voto, mas não melhora em nada a vida dos estudantes e dos profissionais, nem a qualidade de ensino…

Mas a gota d’água veio pela voz dos ilustríssimos que inventaram que quinta série equivale ao quinto ano, o que não é verdade, pois o primeiro ano substituiu o pré-escolar, de modo que o quinto ano equivale a quarta série… Só estão querendo, pela falta de noções matemáticas, que o nosso aluno retroceda um ano, o que é ilegal… Mas para corrigir um absurdo, criou-se outro: o aluno de quinta série, teoricamente, não poderá ser reprovado, pois não existirá nenhuma turma equivalente na rede estadual no próximo ano letivo… E aí ocorre o efeito dominó de novo… Ou seja, por no mínimo quatro anos, corremos o risco de ter que “empurrar” alguns alunos não aptos pelo resto do ensino fundamental, acionando uma bomba relógio que há de explodir lá no ensino médio e, em menos de uma década denegrir totalmente o ENEM…

Queira Deus que eu esteja errado, mas pelo caminho que se desenha, estamos rumo ao caos da educação pública… Que saudades dos anos oitenta!…

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

www.portalcacador.com.br

Jornal Informe – O diário Regional

jornalinformediario@blogspot.com

Um Comentário

  1. Elis Regina Mazzurana
    Elis Regina Mazzurana 30 de novembro de 2010

    Oi Marcio!

    Sempre leio suas crônicas e adoro!
    Já fui sua aluna e hoje em dia estou em sala de aula da rede pública, igual a você…
    Adorei essa crônica e conhecendo a realidade das escolas concordo em 100% com você: “…pelo caminho que se desenha, estamos rumo ao caos da educação pública… Que saudades dos anos oitenta!…”

    Grande Abraço
    E continue escrevendo…

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