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REGALO DA VIDA


PUBLICADO EM: 25/01/2007
JORNAL INFORME

Onze de novembro de mil novecentos e noventa e oito, na ocasião, eu era aluno do quarto ano de Magistério noturno do então Colégio Estadual Paulo Schieffler… Parecia uma noite normal de aula naquele educandário, com exceção do tempo que estava meio “carrancudo”, chamando chuva…
Dezenove horas: dá o sinal para a primeira aula, com aquela sirene inconfundível que até hoje ecoa pelos corredores daquela escola a cada troca de horário de aula e se faz ouvir, como marca registrada, servindo de referência de horário nos arredores… Eu, como todo bom aluno e aprendiz de professor, dirigi-me, com minhas colegas, até a sala-de-aula…
Primeira aula transcorre tudo na mais perfeita normalidade… Na entrada da segunda aula, quando já caía um toró d’água, fomos convidados a nos dirigir-mos até a biblioteca, onde seria realizada uma pesquisa… não me recordo o assunto, mas deveria ser sobre Freud, ou Piaget: dois autores de métodos educacionais (apesar de nunca terem sido professores) até hoje estudados e “copiados” nos cursos de educação, tanto a nível médio, como a nível superior.
Foi o que fiz: recolhi meus materiais, coloquei tudo dentro daquela pasta branca de couro com o desenho de uma mão elevando o polegar, estampada junto com a legenda: Positivo, com um zíper no meio e outro lateral (era top de linha), e me dirigi, junto com a turma até a biblioteca, passando, ao relento, um pequeno trecho, mas grande o bastante para molhar cinqüenta por cento do corpo…
Ao chegarmos naquele laboratório de conhecimentos, não demorou cinco minutos, começou a chover granizo e logo viu-se um relâmpago acompanhado de um estrondo tão grande que parecia tremer o chão, que teve como conseqüência imediata a interrupção do fornecimento de energia elétrica por alguns minutos.
Quando a tempestade passou, fomos dispensados. Alguns colegas deixaram materiais na sala e ao voltarem para pegá-los, a porta simplesmente não abria, mas não havia sido trancada… Depois de muito esforço, conseguimos abrir a dita cuja, e então a grande surpresa!… Cadê a sala?… Foi destruída por uma árvore que tombou depois de receber um raio… Aquele raio que ouvimos anteriormente… só restaram escombros, num amontoado de carteiras, cadeiras, tijolos e telhas… Só aquela sala foi destruída pelas forças da natureza, milagrosamente a única, daquela ala, que estava vazia… Fiquei estático e a única reação que tive, no momento foi agradecer a Deus por não estarmos lá dentro, pois foi a mão dEle que nos retirou todos da sala no momento exato.
Enquanto caminhava para casa, observei que o estrago foi maior do que o imaginado: Pedaços de telha ao chão, fios de luz arrebentados, árvores caídas e o semáforo retorcido como espaguete, além de muitos e muitos vidros quebrados… Um caos como eu nunca tinha visto antes, ocasionado por um mini-tornado (se o mini já é assim, não quero conhecer o super…). Logo pensei na minha mãe que estava sozinha em casa e apertei o passo.
– Será que aconteceu alguma coisa com nossa casa?… E minha mãe, como estará? – Pensava eu enquanto corria para chegar o mais rápido possível em casa e saciar minha ansiedade de informações… Mas ao aproximar-me do Sorgatto, percebia que os estragos diminuíam gradativamente. Parei em frente a minha casa e novamente agradeci por ela estar inteira. O único inconveniente era a escuridão, pois a energia elétrica ainda não havia sido restaurada naquela rua… Entrei muito depressa, ofegante, preocupado e um tanto assustado e tive mais uma surpresa (desta vez, agradável): na cozinha, deparei-me com minha mãe, serena como sempre, com os óculos na ponta do nariz, à luz de velas, catando pulgas do cachorro…
Como dizia a dona Áurea: “O gosto é o regalo da vida”.
Márcio Roberto Goes

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