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Recuo

Infelizmente, nossa jovem democracia ainda obriga as massas a radicalizarem para
que se cumpra seus direitos garantidos por lei… Não seria preciso,
se aqueles excelentíssimos eleitos por nós para criarem e fazerem
cumprir as leis, o fizessem, verdadeiramente, voltados aos interesses
do povo…

Estou voltando de uma greve de quase cinquenta dias, dos quais, participei
de trinta, resultando menos do que sonhávamos… Porém, já
conquistamos alguns avanços que, sem a pressão popular, jamais
seriam realidade, apesar de ainda estarmos aquém daquilo que manda a
lei federal…

Não fomos derrotados. Estes dias, aparentemente perdidos serão repostos
e, mesmo que não fossem, não são eles que vão definir o nível de
qualidade da educação pública em nosso estado… Nossos
governantes pregam uma educação de vitrine, gostam de construir e
inaugurar obras gigantescas e vazias, querem que cumpramos duzentos e
tantos dias letivos, mas não nos dão as devidas condições de
trabalho que começam num salário justo e vão até as salas
equipadas e escolas bem estruturadas…

Todos pagamos impostos, parte deles deveria ser destinada à educação,
mas nem aquilo que a lei manda chega integralmente ao destino, prova
disso foi o fato do governo federal negar ajuda ao nosso estado por
perceber, a meu ver de forma justa, que Santa Catarina tem dinheiro
de sobra para pagar o piso e melhorar nossas condições de
trabalho… Mas onde está essa verba toda?… Conferi minha conta
corrente e lá não está, portanto não sou culpado pela defasagem
do meu salário, nem pela situação precária em que se encontram
nossas escolas, apesar de muitas pessoas assim entenderem e acharem
justo aquilo que contemplam nossos contracheques…

Entendo que não voltamos à sala de aula derrotados, tivemos muitas
vitórias, colocamos a cara nas ruas, nos posicionamos contra este
sistema opressor que joga tudo de cima para baixo, esquecendo-se dos
protagonistas que estão diuturnamente em sala e vivem na pele a
situação que os engravatados tentam mascarar… Entenda-se este
fato como um recuo, pois a luta continua, ainda há muitos degraus a
serem subidos até a escola de nossos sonhos…

Valeu a pena ouvir críticas, pais indignados, governo estadual
desestruturado e desgastado pela situação que ele mesmo e seu
antecessor criaram… Valeu a pena até ser chamado de vadio por
aquela bruxinha sem vassoura. Valeu muito a pena ser reconhecido nas
ruas e na capa do jornal, recebendo inúmeras mensagens de apoio ao
nosso movimento… Valeu a pena lutar, de forma justa e legal pela
valorização de tudo aquilo que construímos ao longo de nossas
vidas no magistério público… Como disse a colega Amanda Gurgel:
“Não me sinto constrangido, quem deveria sentir-se constrangidos
com esta situação são os governantes”, afinal, como já escrevi,
receberam o voto da maioria para cuidar dos interesses do povo. Não
cumprir este papel, deveria ser motivo de grande vergonha…

Não me arrependo de nada nesta luta, assim como todos os meus colegas que
marcharam conosco… Volto de coração e alma limpos, por fazer
parte de um grupo de educadores conscientes e politizados que não se
calam diante das injustiças que nos rodeiam… Volto feliz pela aula
de cidadania a céu aberto nas ruas centrais de Caçador… Volto
orgulhoso pela coragem de não se calar diante de quaisquer
autoridades que foram procuradas por nós para discutir nossos
direitos… Volto agradecido ao apoio incondicional de muitos pais,
alunos, de uma fatia considerável da sociedade, do SINTE e de outros
sindicatos parceiros…

Enfim, volto para continuar esta aula de cidadania no melhor lugar para se
conhecer pessoas: a sala de aula. Volto com a certeza do dever
cumprido. Este recuo é apenas o intervalo do lenhador para amolar o
machado a fim de revigorar as forças para continuar a luta…

 

Márcio Roberto Goes

 

 

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