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Professor também é gente

 Ao contrário do que muita gente pensa, sou um professor como outro qualquer, cheio de dúvidas, afetos, desafetos, realizações e decepções. Já gritei na sala, já dei soco na mesa, já discuti com aluno, já tive vontade de “socar” alguns alunos na parede, etc… Ora, sou professor… Sou humano… Tenho atitudes humanas. O problema é quando estas atitudes fazem parte do cotidiano e os alunos são obrigados a agüentar uma pessoa mal-amada, estressada, autoritária e irredutível como professor, tornando o que deveria ser um ambiente de conhecimento, num local de constantes ameaças para se manter a “ordem”… Ordem?… Um cheirando a nuca do outro, parados em seus lugares como robôs: isso é ordem?… Pode até ser, mas não melhora em nada o nível de conhecimento do aluno. Desta forma, o estudante aprende muito mais na “desordem” aparente.
 Numa dessas manhãs de sombra, eu adentrava numa sala de primeiro ano de ensino médio, com minha pastinha preta e minha garrafinha de água e enquanto apagava o quadro, um fato me intrigava profundamente: Parecia que ninguém havia notado a minha presença naquele local, a julgar pelas atitudes dos meus “pupilos”:Alguns ouvindo, despreocupadamente seu MP3, outros “fuçando” no celular, metade da turma pendurada na janela, risos de um lado, palavrões do outro, pique-nique no fundão, bolinhas de papel voando… Opa!… Tudo é tolerável, mas bolinhas de papel, nãããããoooooo!!!… Será que essa gente nunca ouviu falar de aquecimento global?…
 Parei imediatamente e “soltei o verbo”, conseguindo o que parecia impossível naquele momento, gritar mais alto que o restante dos seres humanos presentes naquela sala:
 – Chega! Estou cansado de mendigar respeito de quem não merece!… Estou farto de lutar pela causa de estudantes que não querem “nada com nada”…
 Neste momento, inexplicavelmente, todos notaram minha presença, os MP3, os celulares e as bolinhas de papel pararam imediatamente envergonhados, as janelas ficaram vazias e todos voltaram-se para me ouvir:
 – “Acho que o que vocês querem mesmo é ficar fazendo exercícios e mais exercícios de fixação, que na verdade só fixam o desprezo pela língua que falam e escrevem… Quando se tenta fazer um trabalho de análise e produção de texto, conteúdo realmente útil para nossa vida prática, me deparo com esta situação lastimável: Uma perfeita demonstração de falta de respeito ao seu semelhante… Desisto!… Desisto de tentar desenvolver o gosto pela leitura, análise e produção de texto!… Vou passar aquele monte de regras que todo mundo odeia, mas que cai na prova, por isso é importante “decorar”… E por falar em prova, vou fazer uma, já que o que se procura por aqui é fazer de conta que se aprende. Sim! Porque, para mim, prova é “um faz de conta”. Acontece sob pressão e não revela o que realmente o aluno aprendeu,. Principalmente quando é elaborada com perguntas e respostas prontas e gabaritadas que não permitem ao aluno pensar e refletir sobre a resposta. Pensando bem, vou sentar e esperar a aula passar, façam o que quiserem, a aula é de vocês…”
 Surpreendentemente, a maioria realizou as atividades de leitura e produção de texto, mas ao final da aula, uma aluna me procurou para contar-me o seguinte:
 – “Professor, sabia que meu namorado teve uma nota muito acima da média nacional na redação do ENEM este ano? Ele me disse que deve isso ao professor de Língua portuguesa do ensino médio, que parou durante um bimestre inteiro só para trabalhar com produção de texto… Sabe quem foi o professor de Português dele no Ensino Médio?… Você!”
 Lá no fundo de meus pensamentos, retirei tudo o que eu havia dito anteriormente.
 Quando tudo parece estar perdido, sempre surge um anjo para abrir meus olhos. É por isso que ainda acredito na educação inovadora e de qualidade para todos.

 

Márcio Roberto Goes

One Comment

  1. Bianca Savi
    Bianca Savi 14 de novembro de 2008

    Parabéns Prof. Márcio por suas publicações. Acompanho-as pelo site Caçador Online e sempre tiro muito proveito de suas idéias. O texto acima, serve de inspiração e encorajamento, para nós educadores que muitas vezes nos sentimos desvalorizados.
    Parabéns mesmo.

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