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Preto no Branco


Está na moda a inclusão das pessoas com necessidades especiais na escola… Pena que a humanidade se deu conta da importância de um perfeito convívio do ser humano, respeitando diferenças e necessidades só agora que virou moda (e lei…). Hoje temos uma maior atenção ao ser humano enquanto pessoa e cidadão, dando menos importância para a cor ou raça… Pelo menos na teoria.

Presenciei um exemplo concreto da inclusão na sala de aula, outro dia conversando com uma colega da rede municipal de ensino. Ela conta que, obedecendo a uma lei municipal, todas as escolas públicas municipais de Caçador adotaram o quadro branco em sala-de-aula… Que maravilha!… Adeus ao pó branco no chão, às mãos ressecadas, à seqüência de múltiplos espirros em virtude da rinite alérgica que muitos professores adquiriram “de graça” durante sua carreira e a tantos outros inconvenientes que só o giz é capaz de provocar no ser humano, principalmente nos professores, que dependem desta ferramenta indispensável, mesmo nas aulas mais dinâmicas. Nossos mestres, não tendo outro recurso, principalmente os alérgicos, como eu, são obrigados a comprar o próprio giz,visto que as “entidades” mantenedoras das escolas públicas não disponibilizam de giz anti-alérgico.
Parece que a qualidade de ensino tão prometida por tantos governos não abrange a saúde do professor, e temos que suportar ainda a visita de alguns “espertinhos” que entram em nossas escolas e em uma hora de palestra tentam nos convencer de que precisamos de suplemento alimentar para zelar de nossa saúde, podendo adquirí-lo pela taxa simbólica de quase duzentos reais por mês (não é por nada, mas esse valor excede nosso precioso vale alimentação).
Queixas à parte, voltemos à minha conversa com a colega da rede municipal: Disse-me que as escolas, agora disponibilizam de dois quadros, um branco e outro negro, um em cada parede da sala… Parece politicamente correto, afinal não é porque temos um quadro branquinho e bonitinho, que vamos abandonar o negro (que na verdade é verde): isso seria, no mínimo, uma atitude altamente racista para uma escola que procura incluir e respeitar as diferenças. O único problema é que o uso da lousa fica a mercê da livre escolha do professor e o aluno é obrigado a “dançar conforme a música”, ora virado para o branquinho, ora virado para o negão.
Minha imaginação fértil, porém verossímil, já visualiza os alunos, no início da aula fazendo apostas para descobrir que quadro o professor da primeira aula vai utilizar. Digamos que seja o branco: todo mundo virado prá cá… Na segunda aula é o quadro-negro: todo mundo virado pra lá… Na terceira, novamente o branco, todos para cá… E assim por diante, durante as cinco aulas do turno, numa gangorra insuportável.
Mas nada é de todo mal: resolvemos assim uma contestação insistente dos alunos, que sempre pedem aulas “diferentes”, além de saberem que a cada aula podem, sem medo de repreensão, deslocarem-se ao menos para virar o corpo, a cadeira e a mesa…
Qual é a razão de existirem divergências quanto ao uso do quadro branco? Afinal, livrar-se das inconveniências do giz é um sonho da maioria dos professores… Ou será que fazer o aluno de “bobo” ainda está acima do sonho do quadro branco e do pincel, substituindo o pó e a tosse seca?… Será que é por causa do custo do pincel, relativamente maior que o do giz?… Ou porque o giz não precisa ser tampado quando está em desuso para não evaporar?…
Independente da razão, a maior lição que tiramos deste fato é a inclusão, respeitando as diferenças entre brancos e negros, afinal, ninguém gostaria de responder um processo por abandonar o bom e velho quadro negro, só porque um branco “engomadinho” tomou o seu precioso lugar.
Márcio Roberto Goes
Comigo é preto no branco…

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